Caio Junqueira Maciel
“Quando o estado paralelo suplanta o estado de direito, somente uma justiça paralela é capaz de funcionar.” (fala de uma personagem de O anjo das quintas-feiras, de Jorge Fernando dos Santos: Editora Litteralux, 2026, p.39)
Segundo o Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (Tradução de Vera da Costa e Silva et alii, RJ: José Olímpio,1988, p.966), o simbolismo do jogo de xadrez liga-se a uma estratégia guerreira, em que “o desenrolar do jogo é um combate entre peças negras e peças brancas, entre a sombra e a luz”. Originário da Índia, “o jogo entre o Rei Wu-yi e o Céu era um combate entre o mocho e o faisão, o que se aposta nessas batalhas é sempre a supremacia sobre o mundo. Porque o tabuleiro é uma representação do mundo manifestado, tecido de sombra e de luz.”
Ao ler o recente romance policial de Jorge Fernando dos Santos, O anjo das quintas-feiras, observo o personagem chamado Jorge Malik, curiosamente um escritor de Pulp fiction, jogador de xadrez no Baixo Belô, cujo nome remete ao próprio autor, sendo que Malik, nome de origem árabe, significa “rei, soberano”. Em determinado ponto da narrativa, mais exatamente na p.208, o narrador anota: “Cansado está o meu amigo, depois de tanto trabalho e adrenalina”. Aí se percebe que o narrador do romance é esse Jorge Malik que, valendo-se de estratégias de perspectivas, vai alternando o relato com pontos de vista do inspetor policial Júlio Gouveia e pelo serial killer, cujo nome não revelo, e que é um bom gancho para prender a atenção do leitor até quase ao desfecho da história.
O lado escuro do romance fica por conta da política e dos crimes que se sucedem de forma vertiginosa. Tudo gira em torno da corrupção na prefeitura e governo de Minas, e há um justiceiro que procura liquidar os corruptos. Lembro que se trata de obra ficcional, mas a carapuça serve para qualquer lugar do país. A epígrafe, extraída do livro O poderoso chefão, de Mario Puzo, dá o mote da temática da obra: “A política e o crime são a mesma coisa”. Ao longo da narrativa, são várias as passagens em que o narrador e personagens expõem o que pensam da política nacional: “[…] quando se trata de dinheiro, o mau político é capaz de tudo.” (p.54); “[…] “não acreditava nessa ‘baboseira’ de honestidade” (p.65); “Aqui, os corruptos e traidores do povo são louvados, enquanto os demais pagam o preço da corrupção, do cinismo e da impunidade.” (p.185) “[…] “qualquer prefeiturazinha do interior tem Caixa 2 e 3.” (p.66) “[…] se habituara às mordomias do casamento e à sujeiras da política” (p.15); “Político brasileiro é igual biruta de aeroporto; muda de lado conforme o vento” (p.26). E é por conta disso que aparecerá um anjo justiceiro que, às quintas-feiras, vai matando os políticos e empresários envolvidos na corrupção, por motivos que o leitor terá mais detalhes na fruição dessa ficção. Em resumo, como se lê na p. 138, “Se a moda pega, não sobrará político pra contar a história”.
Bem, essas são as peças escuras do romance. E onde estão as claras? Transcrevo outra passagem para apontar aspectos que tornam o jogo ficcional mais divertido: “Pois a ambição é o combustível da política. Se o jornal publica metade do dossiê que eu tenho dele, a vaca vai pro brejo. O cara é mais sujo do que poleiro de pato.” (p.154) Ora, um livro é escrito com palavras, e o arranjo delas, permita-me o trocadilho, é também legião de anjos que paira por todo o relato. Nesse trecho citado, vimos como animais comparecem como elementos da linguagem figurada, com sotaque de coloquialismos.
Em seguida, anoto um conjunto de expressões espalhadas no romance em que aspectos zoológicos reforçam o jogo de Jorge: “Gouveia é macaco velho” (p.71); “prefere não cutucar a onça com a vara curta” (p.71); “a sua lealdade canina” (p.71); “o piloto […] deu com os burros n’água” (p.94); “esbarramos numa caixa de marimbondos” (p.101) “Eu era um ‘foca’ inexperiente. / “Foca?”/ “É como chamam os jornalistas novatos.” (p.155); “um passarinho me disse…” (p.164); “caiu no truque feito um patinho” (p.173). Curiosamente, p. 72, o termo “bico” é usado em duas acepções: “não demora a abrir o bico”; “faz bico numa loja”. Imagem associada à ave ainda comparece num trecho em que o serial killer está pronto para mais um crime: “Pouco depois dele ter entrado na arapuca” (p.174)
Anoto ainda expressões ligadas a elementos da culinária: “nesse angu tem caroço” (p.30); “ao ver o caldo entornando” (p.128); “terei de tirar leite de pedra” (p.23); “batata quente na mão” (p.142); “tínhamos em mãos mais aquele abacaxi para descascar.” (p.32); “Estava cansado de descascar abacaxis” (p.195); “Ouvi dizer que a vingança é um prato que se come frio.” (p.38); “pensam que são os reis da cocada preta” (p.163) Mesmo em momentos de tensão, como num embate entre o inspetor e um traficante apelidado Peixe Frito, há o humor na linguagem: “Em resumo, fritei o peixe sem tempero nem brasa;” (p.49). Ou ainda, ao referir-se a um morto: “esticado feito um bacalhau na salmoura” (p.175)
Há ainda expressões ligados ao corpo humano, como estas: “deixa Cícero Pantoja e sua equipe com a pulga atrás da orelha.” (p.67); “falava pelos cotovelos enquanto enchia a cara.” (p.72); “seu vice tentaria lhe passar a perna.” (p.53) “se deu conta do que se passava bem debaixo do seu nariz.” (p.96); “deve ter dado com a língua nos dentes” (p.117)
A narrativa torna-se ágil com a força das expressões coloquiais, como referir-se ao protagonista como “um mala sem alça” (p.21) ou tratar um jornalista com essa informalidade: “e o zé ruela sacaneia a gente naquele jornaleco” (p.143). Realçando o humor, há alguns trocadilhos, como “posso enviar por e-mail estamos a mil aqui” (p.151); “capaz de assediar a mulher do próximo mesmo este estando bem próximo dele” (p.14); “Jamais pensei que uma flecha fizesse tanto estrago no corpo de uma pessoa. E não era uma flecha do Cupido, bom que se diga.” (p.110). Há inserção de termos populares, como “Creuza”, provavelmente extraído de uma canção: ““Claro, Creuza. Tenho cara de cliente?” (p.21). Há uma passagem em que o inspetor irrita-se com o termo paraglider, e exclama: “De novo o barbarismo!” (p.150)
Porém, os arranjos não terminam aí. Desde o início de minha leitura, tive a sensação de estar lendo uma narrativa com ares de Rubem Fonseca. Certas descrições, várias intertextualidades, nomes de personagens (como um tal Aniceto, que aparece em Agosto, e aqui seu sobrenome é…Fonseca), e só na p.174 o nome desse romance é citado, lido pelo serial killer: “lendo um exemplar de Agosto, romance de Rubem Fonseca… Já leu?”. Curioso é que há uma inspetora chamada Suzana Lemos. E esse “lemos” responde à pergunta do personagem citado acima. Por sinal, são vários os personagens que leem nessa romance: O narrador escritor Jorge Malik é grande leitor, assim como o inspetor Júlio Gouveia, e também o velho Max Burton, que está no asilo. Moby Dick não é citado, como aconteceu em outro romance do Jorge, Condomínio solidão, em que o inspetor Gouveia também é personagem, mas outros livros e autores são citados em O anjo das quintas-feiras, embora tenha sentido falta do bom G.K. Chesterton de O homem que foi quinta-feira, talvez um dos primeiros livros que li em minha longa vida de leitor…
Nos arranjos intertextuais, anoto: “[…] chamou-me a atenção a capa amarelada de A capital, de Avelino Fóscolo, primeiro romance publicado em Belo Horizonte, poucos anos depois de sua inauguração. Lembrei-me que, em determinado trecho da obra, um personagem critica ‘a ladroeira e a pouca vergonha campeando impunes’ durante a construção da cidade projetada pelo engenheiro Aarão Reis.” (p.95). Como a narrativa é de caráter policial, não podiam faltar referências a Hercule Poirot (p.26), Sam Spade (p.164) e Sherlock Homes (101). Mas há autores como Machado de Assis: “Na verdade, nosso casamento já estava dançado havia algum tempo, e ainda bem que não tivemos filhos. A exemplo de Brás Cubas e do próprio Machado, não transmitimos a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” (p.51).
E ainda vi por ali Baudelaire (p.75), Bukowski (p.51), Baudelaire (p. 75); Jung (p.107), Proust e Freud (p.130), Jeremias da ´Bíblia (p.130), Ruy Barbosa (p.161), Crime e castigo (p.207) Mitologia Grega (Ícaro, p.171). Na citação ao senador romano Tácito, há oportuno comentário de Júlio Gouveia: “Como disse Tácito, senador na Roma antiga, ‘ quanto mais corrupto é o Estado, mais numerosas são as leis’. O Brasil tem leis demais e justiça de menos – responde Gouveia.” (p.210). O anjo do título remete a Cassiel, explicado pela amante de Gouveia, Sheila, na p.140, como o “o anjo das quintas-feiras”, informação provavelmente extraída da cultura pop, da série Supernatural. Há ainda referências à música Resolution, de John Coltrane e uma alusão ao filme “Casablanca”, na p.211, referindo-se ao encontro de Gouveia e Angelina: “poderia ser o início de uma grande amizade” (p.211).
Curioso que essa Angelina, no curso de Direito, fez um trabalho sobre feminicídio, abordando o assassinato da socialite Angela Diniz. Outra curiosidade, a namorada de Júlio, Sheila, tem um cabelo bem cheiroso. E desconfio que Jorge faz homenagens a alguns amigos escritores em nomes como Gouveia (Jaime?), Herculano (Carlos?), Hiram Rebelo (Firmino? José Maria do “Binômio”?). França (Oswaldo?) Desconfio ainda que uma fugaz personagem chamada Stela Maris possa ser alusão ao último livro de Cormac McCarthy, que tem esse título.
Jorge, nascido e criado em Belo Horizonte, ambienta seu romance na Capital Mineira, e seu protagonista diz: “Uma das vantagens de se morar numa cidade como Belo Horizonte é que todos os caminhos levam aos mesmos lugares.” (p.139). E vários pontos da cidade são nomeados: Baixo Belô (Guaicurus); Biblioteca Pública da Praça da Liberdade; Feira Hippie da Afonso Pena; bairros Floresta, Jaraguá, Cruzeiro e Caiçara; Edifício JK; Praça Raul Soares; Cantina do Lucas, no Maletta; Bar do Bolão, em Santa Tereza (p.140); Minas Tênis Clube, no Santo Antônio; Rua Marília de Dirceu (p.173); Aeroporto da Pampulha, que leva o nome de Carlos Drummond de Andrade; Igrejinha São Francisco e Lagoa da Pampulha: “O calor aumentava o mau-cheiro produzido pela fermentação de detritos na água poluída de esgoto.” (p.126)
Embora não cite datas, a história se passa no tempo atual, numa época de muito calor em Minas, com queimadas entrevistas no horizonte e a dengue rondando algumas personagens. Porém, além do acentuado caráter de denúncia social que o livro expressa, destaca-se o bom arranjo literário, salientando a habilidade do escritor e que, por isso, exige atenção do leitor. Ou, buscando uma citação de Edgar Allan Poe, na p.91: “Como escreveu Poe, ao comparar damas com xadrez, neste jogo é o jogador mais atento que vence a partida, e não necessariamente o mais habilidoso.”
*Caio é escritor, crítico e professor de literatura.