O exemplo de Dídimo Paiva

Uma caixa com dois livros, recentemente lançada em Belo Horizonte pela Conceito Editorial, presta justa homenagem a um dos mais combativos e respeitados jornalistas do país.

 

Passos de uma Paixão – Dídimo Paiva e a Dignidade no Jornalismo traz seu perfil biográfico assinado por Tião Martins e Alberto Sena. O outro volume, Um Bunker na Imprensa – Dídimo Paiva em Seis Décadas de Profissão, reúne 71 textos de sua autoria, selecionados e organizados por André Rubião.

 

Conheci Dídimo na redação do Estado de Minas, onde convivemos ao longo de duas décadas. Poucos nomes da imprensa brasileira foram ao mesmo tempo tão éticos, competentes, perseverantes e apaixonados pela profissão quanto ele. Se morasse no Rio ou São Paulo sua trajetória certamente seria conhecida nacionalmente.

 

Tanto isso é verdade que dezenas de colegas dão testemunho de suas qualidades nos dois livros. Outras dezenas ficaram de fora por falta de espaço. Talvez o certo fosse publicar um terceiro volume só de depoimentos sobre sua pessoa e tudo o que ele representa para o jornalismo praticado em Minas e no Brasil.

 

Independência

 

Fernando Morais e Mauro Santayana assinam respectivamente os dois prefácios. O primeiro livro tem contracapa assinada pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, enquanto o senador e ex-presidente Itamar Franco escreveu a contracapa do segundo volume.

 

Os dois políticos destacam principalmente a coragem e o comportamento ético do jornalista que enfrentou os militares e que jamais aceitou cargos ou favores de quem quer que seja. Foi cogitado até para ser ministro do TST, mas agradeceu a honraria.

 

Dídimo presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais em meados dos anos 70 e enfrentou a ditadura militar com desassombro. Foi um dos principais artífices do chamado “novo sindicalismo” e um dos primeiros a perceber as potencialidades políticas de Lula, que despontava como líder sindical no ABC paulista.

 

No entanto, mesmo sendo seu amigo e mentor, recusou-se a ser o primeiro nome a disputar o governo de Minas pelo recém-criado Partido dos Trabalhadores, em 1982. Mais tarde, tornou-se um crítico ferrenho do governo petista, com a mesma independência demonstrada desde os tempos anteriores à ditadura militar.

 

Generosidade

 

Tive a oportunidade de colaborar em cadernos especiais editados por Dídimo. A seu pedido, cheguei a redigir editoriais, tarefa pela qual era devidamente remunerado. Generoso com os mais jovens, ele sempre elogiava nossos textos e procurava melhorá-los sem nunca alterar o conteúdo das ideias.

 

Sempre conversamos sobre os mais variados assuntos, principalmente política e jornalismo. Dídimo é acima de tudo um revoltado com as desigualdades sociais e a prepotência das elites. Tanto que muitas vezes se colocou na linha de confronto com os patrões, mas sem nunca perder o senso da lealdade profissional.

 

Para ele, que sempre transitou à esquerda e à direita do poder, a pessoa humana está acima das ideologias e o jornalista tem que ser um questionador imparcial, livre pensador a serviço da informação, da cultura e da história.

 

Por essas e outras, os dois volumes lançados pela Conceito deveriam ser adotados nos cursos de Comunicação pelo país afora, sendo leitura obrigatória principalmente para os estudantes de Jornalismo. Chama atenção não apenas a trajetória de Dídimo, desde a infância pobre em Jacuí, mas principalmente seu arrojado estilo narrativo e a atualidade dos temas abordados.

 

* Artigo publicado nos sites www.domtotal.com.br e www.observatóriodaimprensa.com.br

Este post tem um comentário

  1. Ana Elizabeth

    Jorge, nós que tivemos o privilégio de conviver com essa figura tão especial sabemos o quanto é importante preservar e divulgar a sua generosidade, ética, competência, além do estilo refinado. Parabéns pelo texto e ao Dídimo o nosso carinho e respeito, sempre – Ana Elizabeth, comentário postado no site Dom total.

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