Marcello e Duílio: a falta que eles fazem

O jornalismo cultural de Belo Horizonte perdeu, na semana passada, dois de seus melhores articulistas. Na terça-feira (1/11), o crítico de cinema e artes cênicas do jornal Estado de Minas, Marcello Castilho Avellar, foi encontrado morto em sua residência. A causa da morte teria sido um enfarto fulminante, aos 50 anos.

 

No sábado (5/11), morreu o escritor Duílio Gomes, depois de ficar em coma por dois meses em decorrência de um acidente vascular cerebral. Ele tinha 67 anos, foi editor do Suplemento Literário do Minas Gerais e ajudou a organizar a Bienal Nestlé de Literatura. Colaborou no Jornal do Brasil e no Estado de Minas como crítico literário.

 

Marcello era autodidata, professor de História do Teatro e integrante do Centro de Estudos Cinematográficos. Escrevia como poucos sobre qualquer assunto. Enciclopedista da modernidade, ele abordava temas relacionados à história, política, filosofia e artes em geral – principalmente cinema.

 

Duílio nasceu em Mariana, formou-se em Direito pela UFMG e ganhou vários prêmios literários. Presente em muitas antologias, publicou O Nascimento dos Leões (Interlivros, 1975), Prêmio Cidade de Belo Horizonte em 1972; Janeiro Digestivo (Comunicação, 1981); Verde Suicida (Ática, 1982); Deus dos Abismos (Lê, 1993), Prêmio Guimarães Rosa; e Fogo Verde (Lê, 1990). Era integrante o grupo de escritores denominado Coletivo 21.

 

Erudição solidária

 

Além da erudição despretensiosa, o que mais cativava nos dois articulistas era a solidariedade com que desenvolviam seu trabalho. Como editor do Suplemento Literário, na década de 1980, Duílio abriu portas para muitos colaboradores, alguns dos quais se firmariam nacionalmente como escritores de talento.

 

Trabalhava sob a superintendência de Murilo Rubião e dividia tarefas com autores como Adão Ventura, Jaime Prado Gouvêa, Manoel Lobato e Paschoal Motta. Além dos jovens talentos que buscavam espaço para publicar seus primeiros textos, o grupo convivia com artistas de várias áreas e com autores nacionais consagrados.

 

Já Marcello escrevia com extrema objetividade, colocando o tema erudito ao alcance de qualquer leitor interessado. Aqueles que conviveram com ele na redação do Estado de Minas são unânimes em reconhecer não só suas habilidades de articulista, mas também o caráter solidário com que se relacionava com seus pares.

 

Ele era daqueles que estão sempre prontos para ler e copidescar o texto do colega, burilando a visão estética sem nunca atropelar a ética no exercício da crítica ou da reportagem. Foi capaz de analisar uma partida de futebol realizada no Mineirão sob a ótica do espetáculo, sem entrar no mérito das paixões futebolísticas.

 

Escola diferenciada

 

Como homem de teatro, Marcello lecionou na Fundação Clóvis Salgado, na Oficina de Teatro de Pedro Paulo Cava – onde, aliás, se formou – e também na PUC Minas. Dirigiu alguns espetáculos de sucesso, entre eles o monólogo Vincent, de Jefferson da Fonseca, baseado nas cartas dos irmãos Théo e Vincent Van Gogh.

 

Com sua aguçada sensibilidade de crítico de cinema e de artes cênicas, ele ajudou a consolidar o trabalho de artistas mineiros que hoje têm projeção nacional, entre eles os cineastas Helvécio Ratton e Paulo Thiago, os grupos teatrais Giramundo e Galpão, e as companhias de dança Corpo e 1º Ato.

 

Marcello Castilho Avellar e Duílio Gomes pertenciam a uma escola diferenciada de críticos de artes. Eram daqueles que não se contentam em analisar as artes de fora, mas desejam contribuir com o fazer cultural a partir de suas visões estéticas propriamente ditas.

 

Por todos esses méritos como articulistas e homens de cultura, ambos farão falta à cena artística mineira e nacional, principalmente no momento empobrecedor e conturbado em que se encontra a mídia impressa no país.

 

* Artigo publicado nos sites www.observatóriodaimpresna.com.br, www.tirodeletra.com.br e http://www.sjpmg.org.br/inicio

 

 

 

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