O estranho caso do dossiê contra Serra

Foram publicadas várias matérias sobre o suposto dossiê que teria sido montado contra o candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra. Ele acusa a adversária Dilma Rousseff e os “aloprados” do PT pelo golpe baixo. Já a versão sustentada por petistas é a de que o jornalista Amauri Ribeiro Jr., ex-empregado do jornal Estado de Minas, em Belo Horizonte, teria investigado os bastidores da privatização ocorrida durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, comprometendo Serra e seu estafe.

O secretário de comunicação do PT, deputado André Vargas, do Paraná, declarou ao Estado de S. Paulo que a origem do dossiê “é uma briga interna do PSDB e eles estão tentando passar isso para nós”. Já na quarta-feira, em entrevista ao Terra Magazine, Vargas afirmou que o ex-prefeito de BH, o petista Fernando Pimentel, cometeu um “erro político” ao se aproximar de Aécio, quando elegeram Márcio Lacerda (PSB) prefeito da capital mineira. A declaração incomodou Pimentel e sua turma. Afinal, o que uma coisa teria a ver com a outra?

Ainda segundo a versão do PT, a série de reportagens teria sido encomendada em apoio ao governador de Minas, Aécio Neves, como ação preventiva a um suposto dossiê que estaria sendo montado pelo tucanato paulista para inibi-lo em sua possível candidatura à Presidência da República – o que naturalmente não interessava a Serra e ao PSDB de São Paulo.

Livro-bomba pode se tornar best-seller

Na sequência dos fatos, mineiramente, Aécio declinou da candidatura à Presidência da República, candidatando-se então ao Senado. Com isso, o Estado de Minas teria desistido de publicar a reportagem. Amauri pediu demissão, resolvendo transformar em livro o conteúdo de suas investigações. No entanto, tão logo deixou o jornal, foi trabalhar na campanha de Dilma, contratado por uma empresa de comunicação de Brasília supostamente ligada ao PT mineiro.

Muito bem! Digamos que seja essa a realidade dos fatos que resultaram no malfadado dossiê que comprometeria Serra com relação às privatizações ocorridas durante os mandatos presidenciais de FHC. Afinal de contas, tudo é possível no lodaçal da política. Contudo, essa versão fartamente divulgada na internet provoca questionamentos e caberia às autoridades e à própria imprensa esclarecer a opinião pública.

Repórter várias vezes premiado, Amauri admite ter montado um pacote explosivo, mas afirma que só pretende publicar o livro Nos Porões da Privataria depois das eleições. Nesse caso, que serviços prestaria ao país? Seria o mesmo que publicar a crítica de um filme que já saiu de cartaz. A publicação antes do pleito repercutiria com tanta intensidade que transformaria seu suposto livro-bomba num dos maiores best-sellers dos últimos tempos.

Perguntas permanecem sem respostas

A primeira pergunta a ser feita é por que um jornalista que tem em mãos um material que poderia detonar um candidato iria trabalhar justamente para seus adversários, e sem fazer uso desse mesmo material. Diz Amauri, segundo textos publicados na internet, que os originais foram surrupiados de seu computador enquanto esteve hospedado num hotel em Brasília, a serviço do PT. Um repórter experiente não cometeria a ingenuidade de carregar consigo originais tão importantes. Por outro lado, por que não denunciou o fato assim que percebeu a violação de seu computador?

Outra questão que vale ressaltar é que Amauri afirma não ter usado de nenhum expediente ilícito para fazer suas apurações. Nesse caso, quem poderia explicar o fato de dois filiados ao PT terem surrupiado dos arquivos da Receita Federal dados sigilosos justamente de pessoas ligadas ao candidato tucano, entre elas sua filha, seu genro e Eduardo Jorge, secretário-geral da Presidência da República nos tempos de FHC?

Dias atrás, a Receita Federal noticiou que vários sigilos fiscais foram quebrados, não apenas os da turma de Serra. Estaria entre as supostas vítimas gente rica e famosa, como a apresentadora de TV Ana Maria Braga. Se isso for verdade, as ocorrências são muito mais graves do que se pensava.

Esclarecimento é de interesse público

Uma coisa é espionagem eleitoreira, outra – muito mais séria – seria a fragilidade do sistema adotado pela Receita Federal para armazenar informações sigilosas dos contribuintes brasileiros. Isso permitiria não apenas a violação de dados pessoais de qualquer cidadão, mas também contribuiria para os crimes de sequestro, chantagem e extorsão.

A não ser em casos de investigação policial judicialmente autorizada, com que intenção uma pessoa se daria ao trabalho e correria o risco de bisbilhotar dados fiscais alheios? Nesse caso, a Receita não se responsabiliza e ninguém lá dentro sequer é repreendido pelo governo devido à lamentável ocorrência?

Outras perguntas ainda não respondidas: entre os muitos contribuintes que tiveram o sigilo fiscal quebrado constam filiados ou candidatos do PT? Por que as autoridades federais vão levar 60 dias para concluir investigações de fatos tão preocupantes? Não seria este o melhor momento para ouvir os possíveis envolvidos, a começar pelo tal jornalista? O presidente Lula estaria tentando ganhar tempo para não prejudicar a candidata Dilma? E se a versão do PT sobre o fogo amigo psdebista for correta, não estaria Serra criando uma cortina de fumaça para se beneficiar dos acontecimentos?

O intrigante conteúdo do suposto dossiê

O esclarecimento dessa sucessão de fatos interessa aos brasileiros tanto quanto o resultado das eleições, principalmente se a quebra de sigilo fiscal tiver sido perpetrada a serviço desse ou daquele partido – ou ainda por quadrilhas do crime organizado. Finalmente, vale especular sobre o conteúdo dos dados da Receita e até que ponto eles podem ou não comprometer legalmente as vítimas.

Como escreveu o jornalista mineiro José Cleves da Silva no recente artigo intitulado Aos Repetentes da Escola de Base, “enfrentamos hoje no Brasil um sério problema na relação fato-notícia por falta de qualificação e despreparo de grande parte da mídia, que não evoluiu o suficiente para lidar com a velocidade da notícia. Seu grande problema é com relação ao fato controverso, que dá Ibope, mas é de difícil relacionamento”.

Em tempos de cinismo explícito, o mais preocupante é ver jornais e/ou jornalistas engajados nessa ou naquela campanha eleitoral agindo feito mercenários, sem compromisso com a verdade. Caluniam, espionam, julgam e condenam seguindo interesses eleitoreiros ou por mero preconceito ideológico, desrespeitando a inteligência de leitores e eleitores, sem esclarecer a opinião pública.

* Artigo republicado no site http://www.observatoriodaimprensa.com.br/ 

Este post tem 2 comentários

  1. Eliza Peixto

    A verdade nem sempre é dita. Infelizmente, os interesses pessoais predominam e os eleitores ficam na ignorância, sem realmente saber em quem está depositando seu voto de confiança. Estamos naquele ditado de se correr o bicho pega e se ficar o bicho come.

  2. José Cleves da Silva

    Jorge,

    Parabéns pelo artigo, curto e grosso, bem a seu estilo; realmente o Amauri Jr. tem muita coisa a explicar a seus leitores, porque a leitura periférica da coisa nos diz que tem mais segredo do que revelações jornalística nesse caso. Engraçado, Amauri bandeou para o PT e Lucas Figueiredo, também ex-EM, migrou para o PMDB. Dois pesos pesados do jornalismo a serviço de siglas partidárias, algo inimaginável até pouco tempo, quando eles serviam ao interesse público. Não acredito em opção partidária, eles nunca foram políticos e muito menos arrivistas. Questão de sobrevivência nesse mercado de reconstituição de fatos convenientes. Minha preocupação, Jorge, é com o futuro da imprensa. Não gosto de ver profissionais competentes como Amauri e Lucas presos a partidos políticos. Prefiro vê-los no front, ocupando o terreno inimigo do interesse público, como sempre foram. Você disse bem: o livro com as revelações bombásticas do tal dossiê deveria sair agora, de imediato, não depois das eleições.
    José Cleves

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