Música na escola

A lei foi sancionada em agosto pelo presidente Lula e deve entrar em vigor em 2009. Finalmente,  crianças e jovens voltarão a aprender música na escola, já que o ensino dessa matéria será obrigatório em estabelecimentos públicos e particulares de ensino.

Isso significa muita coisa. Em primeiro lugar, os alunos serão sensibilizados pela arte musical, o que certamente terá reflexos positivos na sua formação. Em segundo, amplia-se o mercado de trabalho para os músicos, que poderão se tornar professores da matéria com a devida qualificação para a tarefa de ensinar música.

Já foi provado e comprovado que o ensino de artes estimula nos alunos a auto-estima, o auto-conhecimento e a criatividade. No fundo, todo mundo é artista, dependendo apenas do incentivo no momento certo para dar asas à imaginação. Isso sem mencionarmos o aspecto terapêutico do aprendizado artístico.

A beleza da arte está justamente na sua aparente inutilidade, já que se trata da legítima manifestação do espírito humano. E este, na sociedade contemporânea, tem sido silenciado e muitas vezes esmagado pelos valores materiais do consumismo imediato e muitas vezes sem sentido.

Particularmente, o ensino de música acrescenta sutilmente ao cotidiano dos estudantes noções de comportamento, disciplina, equilíbrio estético e hierarquia. Afinal, na aparente desigualdade dos instrumentos musicais é que se estabelece o equilíbrio de timbres e tons, para que a música se manifeste em perfeita harmonia.

Outro aspecto importante do ensino musical é que, se bem conduzido, ele pode também educar o ouvido dos alunos, tornando-os aptos a assimilar e compreender a boa música. Com isso, o lixo cultural imposto pela mídia ficará em segundo plano, podendo dar lugar à genuína arte musical.

Para quem não sabe, a música brasileira é admirada em todo o mundo devido à sua qualidade, variedade e vigor. A formação do nosso povo foi enriquecida pela contribuição de vários povos ao longo da colonização e isso se reflete principalmente na riqueza de nossa música.

Somos no mundo o país que mais apresenta ritmos musicais. Para se ter uma idéia, só em Recife foram identificados mais de 200 ritmos de diferentes matizes e matrizes culturais. Seria um crime de lesa pátria continuar negando às novas gerações o acesso a essa riqueza sonora, enquanto a envenenamos com o barulho ensurdecedor do lixo cultural que estimula instintos primários.

“Controle a música e controlarás o povo”. A máxima de Platão já foi confirmada na prática. Um exército sem hinos tem pior desempenho nas batalhas. Por outro lado, nunca tivemos notícias de atos de violência e vandalismo em shows de bossa nova ou num concerto de música sinfônica. Isso porque as ondas sonoras atuam no sistema nervoso central, estimulando reações que podem levar ao relaxamento ou à agressividade.

Ninguém pode garantir que o ensino de música nas escolas seja capaz – por si só – de diminuir a violência e o uso de drogas entre os jovens, mas certamente uma pessoa que projeta para si uma carreira musical estará menos sujeita a esses dois fantasmas que hoje rondam as salas de aula. Da mesma forma, quando o esporte é levado a sério na escola, nota-se menor carga de agressividade entre os alunos.

Não podemos pensar a escola apenas com uma visão objetiva, de ensinar a ler, escrever e vislumbrar uma formação profissional. Mais que isso, a escola precisa se comprometer com a cidadania, formando seres humanos plenos e pensantes, que certamente terão maiores oportunidades na vida.

 É realmente lamentável que o Brasil ainda esteja em 18º lugar na qualificação do ensino público na América Latina. Somos um grande país, com um grande povo, e essa posição está longe de traduzir nossas potencialidades como nação em desenvolvimento. O ensino obrigatório de música é uma importante conquista política e certamente vai contribuir na formação da cidadania e na reversão desse quadro vergonhoso, dando aos nossos estudantes melhores perspectivas de vida.

    

Este post tem 4 comentários

  1. Hugo Pontes

    Prezado Jorge Fernando,

    Excelente o seu artigo e a abordagem sobre o assunto. Até a década de 60 a nossa educação tinha o modelo francês. Portanto, voltado para humanidades. A partir da reforma do ensino na década de 70, esse modelo passou a ser copiado dos EUA. Dessa forma, perdemos as Humanidades.
    Nós, professores, que estamos no dia-a-dia da Escola, acreditamos que o ensino – tal como está – não acrescenta muito à vida do aluno. Aprovar e aprovar é o que importa.
    A disciplina música vem para humanizar, assim como o ensino de Artes. Além disso, precisamos de professores habilitados. Ñaõ basta ser músico. A disciplina Artes até hoje padece com a falta de professores habilitados.
    E professor é um profissional que não se improvisa. Ou ele é professor ou não. Não dá para “quebrar galho”.

  2. Silvio Ribas

    Assino embaixo. O mesmo vale para o esporte, que cria hábitos saudáveis, socializa e ajuda a revelar talentos. Espero que o setor público dê conta do recado.

  3. Vitória Neves

    Oi, Jorge
    Dá pra gente até se sentir um pouco feliz com a notícia, porque também acho que a música, além de tudo de bom que você enumerou, influencia mesmo o estado de espírito e tende a apaziguar os ânimos. Quem sabe não melhora o problema terrível da violência dentro das escolas? Bacana você usar seu espaço para defender idéias tão legais.
    Abraço, bom Natal e Ano Novo melhor ainda

  4. Kristoff

    Grande Jorge
    essa notícía nos aquece o coração, naturalmente, pois há muito desejamos o retorno da música às escolas. Porém, um aspecto é importante não passar desapercebido: FOI VETADO que sejam especialistas os professores de música. Ou seja, essa música que vai voltar às escolas voltará pelas mãos (e ouvidos) de qualquer professor de qualquer coisa. Não sei se de imediato isso é algo que se possa comemorar, pois ainda falta muito para saber se esse retorno smplesmente não vai significar o fim do fim da música nas escolas (noutras palavras, a coisa mal feita é pior que se estivesse ausente). Até o momento é assim que eu tenho refletido sobre o assunto.
    Abração,
    Kristoff

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