Paranóia do consumo

Nos últimos anos, com o avanço da globalização, indústria, comércio e governos vinham comemorando o crescimento da economia e o aumento acelerado no consumo em várias partes do mundo. Inclusive em países pobres, nos quais as necessidades básicas da população ainda não foram atendidas.

A cada índice positivo divulgado pelos institutos de pesquisa e estatística crescia a euforia do mercado. No entanto, qualquer pessoa de bom senso certamente formulava a pergunta que não queria se calar: afinal, aonde isso vai dar?

Toda vez que o consumo sobe, cresce também a demanda por matéria-prima. Com isso, aumentam as ameaças à natureza com a exploração descontrolada de minerais, a devastação das florestas e o envenenamento do ar e das águas pela poluição. Afinal, o preço do luxo é o lixo, principalmente na era do descartável.

Boa parte da euforia consumista era sustentada pelo sistema financeiro, por meio de empréstimos bancários, cartões de crédito e dívidas a se perderem de vista em longas prestações, com taxas de juros quase sempre exorbitantes. Nas bolsas de valores, ações em demasia superavam o real valor da moeda disponível no mercado.

A resposta para a tal pergunta que não queria se calar finalmente chegou. No primeiro momento, o consumismo desenfreado acelerou o aquecimento global, gerando mudanças climáticas que colocam em risco a vida no planeta. Em seguida, o sistema capitalista acabou se dobrando ao próprio peso.

Não precisa ser socialista para imaginar o sorriso de Karl Marx, se vivo ele fosse. O capitalismo globalizado se tornou selvagem e, como tal, ignorou as próprias limitações e as consequências do consumismo desenfreado. Parece insano medir a economia pelo número de carros ou eletrodomésticos vendidos a prestação. O desenvolvimento não pode mais ser mensurado pelo número de chaminés que lançam gases na atmosfera, ou pela sede insaciável de petróleo.

Em outras palavras, o capitalismo é uma cobra que engole o próprio rabo. Foi o que ocorreu em 1929 e se repetiu em 2008, com a nova quebra do sistema financeiro mundial. A cobra se engasgou com o próprio chocalho. A crise, no entanto, não é meramente econômica, mas também de valores humanos. Reflete o descontrole autofágico do sistema capitalista e o resultado do hedonismo desenfreado.   

O lado bom de tudo isso é que finalmente os governos do mundo terão que pensar numa saída conjunta e de visão ampla. Nos termos ortodoxos do que vinha sendo praticado até agora, a economia não terá salvação. É preciso aproveitar o momento para criar modelos mais flexíveis, não tão à direita quanto o neoliberalismo nem tão à esquerda quanto o comunismo. Este, na verdade, propunha o capitalismo de estado – que é a pior forma de capitalismo.

Por outro lado, é preciso que os governos não cometam os erros do passado, quando alguns estados tentaram salvar a economia e acabaram se arruinando. Disso resultou o messianismo nazi-fascista, que arrastou o mundo ao regimes totalitários e à Segunda Guerra Mundial.

O novo modelo precisará conciliar a visão desenvolvimentista com uma política global de proteção à natureza e aos recursos naturais do planeta. É impossível que toda a humanidade siga os padrões de conforto dos países mais ricos. Há que se encontrar um meio termo entre consumo e preservação ambiental, com a reciclagem do lixo e o investimento em fontes renováveis de energia. Caso contrário, não haverá futuro para a humanidade.

Apocalipse é uma palavra que causa arrepios devido à sua carga simbólica. No entanto, significa “revelação”. No momento em que a crise ambiental coincide com a falência do modelo econômico globalizado é preciso que se revele um novo caminho para a humanidade, no qual seja possível colocar em equilíbrio a economia e a ecologia, como dois pratos na balança do futuro.

* Publicado no Diário do Comércio, em 27/01/2009.

 

   

Este post tem 2 comentários

  1. Silvio Ribas

    Jorge, como sempre um artigo claro nas idéias e direto nos alvos. Permita-me discordar apenas do capitalismo como autofágo. Acho que é o próprio ser humano que prefere se entregar ao consumo para tapar o buraco existencial. Quanto mais vai por essa via, mais aprofunda o buraco. A saída está em valorizar coisas simples e buscar sentido mais nobre para a vida. E isso não é auto-ajuda! O estouro da bolha e as calamidades da ecologia estão nos ensinando muita coisa.

  2. Eumes Monet

    Ser feliz e não saber que o era. Que lindo pensamento filosófico, hein?! Ainda mais vindo de quem veio: do negro Ataulfo. Pois bem, tenhamos os nossos próprios sonhos, não os da publicidade. Ou alguém aí precisa dela para alcançar alguma felicidade?

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