Dois pesos, poucas medidas

O governo brasileiro precisa rever seus critérios diplomáticos, para não comprometer ainda mais a imagem do país lá fora. Fatos recentes revelam incoerência do Planalto no campo das relações internacionais. A polêmica decisão do presidente Lula de não extraditar o ex-ativista italiano Cesare Battisti, de 57 anos, contrasta com a devolução apressada dos pugilistas Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que abandonaram a delegação cubana após participarem dos Jogos Pan-Americanos, no Rio de Janeiro, em 2007.

Cesare foi condenado por assassinato e terrorismo pelo governo democrático da Itália, enquanto os dois atletas apenas discordavam da realidade política e social de Cuba, que há 50 anos é governada por uma ditadura. Tanto o pretenso escritor italiano quanto o governo dos irmãos Castro são de esquerda, o que leva a crer que nas duas medidas tomadas pelo governo brasileiro possa ter pesado a questão ideológica. Ou será que existem razões que a própria diplomacia desconhece?

Outro fato que chama atenção é a falta de uma reação contundente por parte do Itamaraty diante da Espanha, que vem tratando turistas e estudantes brasileiros a pontapés. E olha que os negócios espanhóis no Brasil vão de vento em popa, sobretudo nos setores bancário, editorial e de telefonia. O pior incidente ocorreu em 14 de janeiro, quando o compositor e violonista Guinga, de 60 anos, viu-se roubado ao passar seus pertences pela esteira de raio-X do Aeroporto Barajas, em Madri. Ao tentar registrar queixa na polícia, ele foi esmurrado por um guarda, perdendo dois dentes. A ironia é que além de ser neto de espanhol, o genial músico carioca é também dentista.

Não é difícil imaginar a reação do governo espanhol se o guitarrista flamenco Paco de Lucia – amigo de Guinga – fosse igualmente agredido por policiais brasileiros. É só levar em conta o sonoro – e merecido – “por que não te calas?” gritado pelo rei Juan Carlos nas barbas do presidente colombiano Hugo Chávez, quando este discutia com o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodrígues Zapatero, durante uma reunião política. Os espanhóis são um povo aguerrido e não levam desaforo pra casa. Basta ver o que fizeram com os incas, maias e astecas durante a colonização das Américas.

Convém lembrar que o assassinato do mineiro Jean Charles de Menezes, de 27 anos, pela polícia londrina, em 2005, até hoje não foi devidamente esclarecido. Afinal, as autoridades britânicas reconheceram o equívoco cometido pelos policiais, mas a Justiça daquele país não condenou nenhum dos envolvidos. Se a vítima fosse um súdito da rainha Elizabeth e o incidente tivesse ocorrido no metrô de São Paulo, certamente as pressões teriam sido desastrosas para o Brasil.

O governo brasileiro também foi muito tolerante com o presidente boliviano Evo Morales, quando ele resolveu descumprir contratos assinados por seus antecessores com a Petrobras. Não demorou muito para que o mandatário equatoriano, Rafael Correa, pegasse pesado com uma construtora brasileira questionando inclusive um empréstimo do BNDES ao seu país.

Há 200 anos, quando a corte portuguesa se transferiu para o Rio de Janeiro, o príncipe regente, Dom João VI, decretou a abertura dos portos brasileiros às “nações amigas”. O que ele não sabia – e o governo brasileiro às vezes parece ignorar – é que amizade é um sentimento individual. Entre países e nações prevalecem interesses políticos e econômicos, que precisam estar equilibrados na balança das relações internacionais para garantir colaboração e respeito mútuos. Afinal, nesse campo, tanto quanto no campo de futebol, quem não faz gol corre o risco de levar goleada.

 * Publicado no Diário do Comércio, em 31/01/2009.

 

Este post tem 3 comentários

  1. Walter Oliveira Soares

    Caro, poderoso e estimado Ir.: Jorge Fernando, o único comentário que faço é parabéns pela feliz abordagem. Minha admiração por você é cada vez melhor. Apenas gostaria que alcançasse as pessoas em todos os sentidos, principalmente no sentido prático de tomada de posição. Porém, tudo é politica… e ai, cê sabe… tudo é circunstancial… Abraço, Walter Oliveira

  2. Oi, Jorge, realmente é lamentável este estilo de jogo duplo e dúbio adotado pelo atual governo brasileiro. Por
    conveniência ou por incompetência? Por omissão ou por
    submissão? Por interesses particular ou por descaso com a história, a tradição e com a construção da democracia no País. Talvez seja porque no seu conjunto, tomando Brasília por referência, o governo brasileiro não passa de uma combinação perigosa entre poder, vaidade, ignorância, corrupção e impunidade e conivência da mídia. Ou melhor, como diz o ditado popular: quem nunca comeu mel, quando come
    se lambuza. Parece que todos querem aproveitar ao máximo para matar a fome e o desejo de acumular prestigio e riquezas. Daí que vão com muita sede ao pote e acabam se afogando dentro dele. Sem cultura, sem conhecimento das leis sem escrúpulos e sem critérios de governabilidade, tudo que se fizer não terá explicação, mas explicado está. Tudo o que se disser poderá estar errado aos olhos do poder e dos poderosos de plantão. Vive-se aditadura do silêncio, do
    descrétido popular. Pobre, só serve para votar e para ganhar cesta básica e salário família. Pelo menos para quem desconsidera a inteligência e a sensibilidade do povo brasileiro. É mais ou menos isso. Tempo de tristezas neo-liberias e de hegemonia da burrice, das bugigangas supérfluas e cintilantes, oferecidas pelo mesmo mercado que engorda com todo o tipo de exploração – futebol, turismo sexual – e especulação financeira em escala transnacional. Este o Brasil com S, que a todo momento a gente mais ama e desconhece!
    João Evangelista Rodrigues

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