Protecionismo previsível

As medidas protecionistas anunciadas pelo presidente norte-americano, Barack Obama, poderiam surpreender se ele fosse republicano e não democrata. Embora do ponto de vista ideológico haja pouca diferença entre os dois maiores partidos políticos da América, o fato é que os democratas sempre tenderam mais ao protecionismo e às causas sociais. Os republicanos, por sua vez, são  liberais na economia e conservadores na política. A ação de Bush no final do governo, liberando recursos para a iniciativa privada, só foi tolerada por se tratar de um ato desesperado em momento de grande crise.

Uma vez que a economia norte-americana se vê à beira de um colapso, não há nada de novo no comportamento de Obama. Ele assumiu o governo justamente com a missão de salvar o país do caos. Para isso, fará de tudo para estimular a economia interna e retomar o caminho da estabilidade, inclusive criando subsídios para socorrer os setores mais fragilizados. 

A história dos democratas mostra que eles são muito mais voltados para os problemas internos do seu país, enquanto os republicanos geralmente priorizam as questões internacionais. Tanto é que os gastos com o aparato bélico-militar na era Bush foi certamente uma das causas da atual crise dos EUA. Com a atenção voltada mais para os problemas externos, os republicanos talvez não tenham percebido a semente do caos econômico germinada pela ação irresponsável dos grandes especuladores.

Embora seja natural a reação da comunidade européia e de outros governos diante das medidas de proteção adotadas por Obama, o fato é que elas já eram previsíveis. A indignação do presidente Lula, por exemplo, é procedente. Os neoliberais sempre combateram o estado empresarial, mas diante da crise pedem socorro aos governos. No entanto, é bom que se diga, a globalização foi muito mais uma iniciativa dos europeus para enfrentar a concorrência internacional do que propriamente uma estratégia dos norte-americanos.

O Partido Democrata dos EUA foi fundado por Thomas Jefferson, em 1792, justamente para se contrapor às elites representadas pelo Partido Federalista. Em 1798, o “partido do homem comum” passou a se chamar Partido Republicano Democrático e dois anos depois Jefferson se tornou o primeiro democrata eleito presidente. No século 19, William Jennings Bryan se destacou na luta pela reforma agrária, apoiou o direito das mulheres ao voto e as eleições diretas para o Senado.

Já em 1912, Woodrow Wilson se tornou o primeiro presidente democrata do século 20. No seu governo, os EUA lutaram na Primeira Guerra Mundial e defenderam a criação da Liga das Nações, antecessora das Nações Unidas. Wilson também criou o FED (espécie de banco central) e aprovou uma lei de assistência a crianças e trabalhadores.

Contudo, o democrata que mais se sobressaiu na Casa Branca foi Franklin Delano Roosevelt. A exemplo de Obama, ele foi eleito com o propósito de salvar o país da recessão causada pela quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Adotou o New Deal (1933-1939), plano que consistia numa política de intervenção do Estado na economia, com a criação de frentes de trabalho, seguro-desemprego, regras de limitação das instituições financeiras e fiscalização do mercado de ações, além de um grande programa de obras. Durante seu governo, os EUA entraram na Segunda Guerra como devedores e sairam como credores, o que contribuiu na recuperação da economia interna.

Graças ao sucesso do governo Roosevelt, o também democrata Harry Truman pôde intervir na reconstrução da Europa, por meio do Plano Marshal. Entre 1948 e 1951, o gigantesco plano de investimento nos países destruídos pela guerra também ajudou a consolidar a economia e o modo de vida dos norte-americanos. Na mesma época, foi criado o Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar ocidental liderada pelo Pentágono para enfrentar a ação soviética.

Em virtude dos resultados positivos para os EUA, dificilmente o New Deal deixará de ser um exemplo para o governo Obama. Também convém lembrar os avanços sociais e a ajuda do Estado à economia interna nos governos de John Kennedy, Lindon Johnson, Jimmy Carter e – claro! – Bill Clinton. Em 1996, ele foi o primeiro democrata reeleito presidente, desde Roosevelt. Seus dois mandatos foram voltados para os problemas internos, marcando um período de expansão econômica, redução do desemprego e dos índices de criminalidade. Se Obama conseguir metade disso, já será lembrado como um dos maiores presidentes da história. 

 * Publicado no Diário do Comércio, em 07/2/2009.

 

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