Cachorros e ciclistas barrados nos parques

Deu nos jornais da cidade. Cães e bicicletas estão proibidos de entrar nos parques municipais de BH. Mas pior que a emenda é o soneto declamado pelo Sr. Jorge Espeschit, diretor de Planejamento e Monitoramento da Fundação de Parques Municipais (FPM), ao tentar justificar o injustificável. Ele argumenta que os parques são considerados unidades de conservação e que por isso não podem ter nenhum tipo de animal que não seja da fauna nativa. Se bicicleta não é animal, o que fazer com o bicho-homem que transita por esses espaços?

 

Levando ao pé da letra a opinião do burocrata, devemos concluir que nem mesmo ele poderia entrar nos parques. Afinal, os seres humanos também são animais (alguns mais que outros) e não consta dos manuais de zoologia que sejamos dessa “fauna nativa” a que ele se refere. Nesse caso, nem os funcionários municipais deveriam frequentar os parques, mesmo que trabalhando. Numa cidade tão carente de áreas de lazer e convívio social, a decisão esdrúxula é no mínimo um atentado ao direito de ir e vir do cidadão comum, que paga um dos IPTUs mais caros do país.

 

O poder público municipal alega que as novas determinações não são tão novas assim, pois entraram em vigor em 1998, devendo agora passar por uma revisão. Mesmo sendo antigas, as proibições só ficaram conhecidas da população belo-horizontina nos últimos meses. A FPM pretende fiscalizar rigorosamente os 68 parques da capital – o que, aliás, já deveria estar fazendo há muito tempo. Vale perguntar se vão proibir a entrada de gatos, pardais, pernilongos e pombos-correios, que também não fazem parte da “fauna nativa”.

 

Uma área verde urbana que não possa ser desfrutada pela população não teria sentido de ser. Até porque, com o avanço da especulação imobiliária, correria o risco de desaparecer, caso as pessoas não a considerassem como parte importante de suas vidas. De que valeria ter um parque perto de casa se nele não pudéssemos desfrutar de um mínimo de liberdade e bem-estar junto da natureza? Daqui a pouco vão querer proibir nossas crianças de jogar bola, pular corda ou fazer piquenique no gramado da pracinha ali da esquina, onde há um solitário ipê amarelo.

 

Não é difícil imaginar o que aconteceria se uma medida dessas fosse tomada pela Prefeitura de Nova York, com relação ao famoso Central Park. Provavelmente a população sairia às ruas numa manifestação maior que a parada gay. É o que deveríamos fazer no próximo 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, protetor dos animais e da natureza. Donos de cães e gatos que participam das bênçãos e paradas de bichos que já se tornaram tradicionais nesse dia deveriam dizer “não” à decisão da FPM. Afinal, o Brasil é o segundo país do mundo em número de animais domésticos e eles já fazem parte de nossas famílias.

 

Uma comissão municipal estaria estudando maneiras de conciliar os interesses da administração pública e dos cidadãos. Difícil acreditar que isso seja possível. A administração pública geralmente está mais interessada na cobrança de taxas e impostos, enquanto os cidadãos se mostram desorganizados no sentido de fazer valer seus direitos. Tudo bem que a FPM exija cartão de vacinação dos cães para que possam entrar nos parques, bem como a coleira ou focinheira nos bichos maiores, além do saquinho para recolhimento de fezes. Mas simplesmente proibir a frequencia de animais e bicicletas num parque municipal seria no mínimo uma “cachorrada” contra a população.

Este post tem 10 comentários

  1. Lourdinha Mourão

    Que absurdo! Vamos divulgar.
    Abraço,
    Lourdinha

  2. cunha de leiradella

    meu caro jorge,
    vai ver o sr. jorge espeschit nunca soube o que era ter um amigo. e pra quê andar de bicicleta se as academias de ginástica tão aí dando sopa, né? só que, pra uns elas são de graça e ainda tem um uisquinho de borla, e pra outros… mas que importam os outros, né? os outros são os outros. apenas primos (in)colaterais da fauna nativa. belíssima matéria, sô!
    abraços do
    leiradella

  3. Jorge, penso que a ditadura não termina fácil. Ela deixa um ranço que se manifesta pelo prazer de dizer “não” a tudo. Não somos mais habitantes da cidade, somos prisioneiros da burocrácia criada para nutrir a vaidade dos que foram eleitos sem votos.

  4. manoel malaguti

    Jorge
    Nunca ví um absurdo como esse. Não pensa o tal Sr. Jorge alemão que quem vai a um parque público de bicicleta ou com o seu cão, claro que com seus cuidados obrigatório, vai para estar em contato com a natureza. vai para apreciar os tais animais nativos. ainda mais, dentro de uma grande cidade. Nunca em minha vida soube que um cão tivesse matado um bicho nativo em um parque. Nunca soube que uma bicicleta tenha sequer maltratado ou morto um bicho nativo em um parque em qualquer cidade do mundo!
    Querer que um parque de uma cidade como um monastério, é sexo dos anjos.
    Esse tal Dr. Jorg está de mal com ele mesmo e parece que não gosta da Natureza.
    Manoel

  5. Nadia

    Quase tive uma síncope qdo li a foto-legenda da capa do EM hoje logo q acordei. Isso é o avesso do absurdo. Um atentado contra um direito constitucional só pra começar. Quem é esse que se acha no direito de proibir o direito de ir e vir consagrado pela Constituição? Essa é uma solução mais cômoda pra falta de educação de donos irresponsáveis que não apanham o cocô de seu cães qdo passeiam com eles na rua. Apanhar cocô tb é parte dos preceitos de posse responsável. Aliás, é intensificar campanhas de posse responsável e postura diante do meio ambiente é que a PBH deveria investir pesado. Um exemplo mto bacana é a prefeitura de SP, desde os tempos da Marta Suplicy, tenho de reconhecer, que promove campanhas inteligentes e responsáveis sobre o tema. Uma voltinha pelo parque do Ibirapuera e a gente logo percebe a diferença de mentalidade. SP está anos-luz à frente qdo o assunto são campanhas educativas em torno de posse responsável

  6. Bill Falcão

    Tanta coisa pra esse povo resolver e eles vão logo implicar com amigos de cães e passeios de bicicletas. Tenho a impressão de que nada vai pra frente neste país. Ao contrário: no tempo de nossos avós devia ser muito melhor, creio.
    Aquele abraço!

  7. Sebastião Rodrigues

    Se hover a manifestação do dia 4 de outubro estarei lá e levando mais alguns insastifeitos com esta medida absurda. Coisa de burocrata que não tem o que fazer – Tião.

  8. Daniel Macedo

    As medidas, prezadíssimo Jorge, não são novas. Não para mim. A proibição da entrada de cães em parques, sobretudo, é conhecida minha.

    Eu e meu cão não podemos entrar.

    Entram, como disse você, os cães de rua, os gatos todos, os pombos, os ratos urbanos e outros seres da “fauna nativa”, como inúmeros automóveis, porque para esses há estacionamentos em alguns parques.

    Lamentavelmente, medidas equivocadas como essa têm algum respaldo público. E por quê? Por ignorância. Por um forte veio autoritário de nossa sociedade, mais simpática ao arbítrio do que ao diálogo, advindo da educação para a convivência urbana.

    Entre outras, foram sábias as palavras da leitora Nádia. Ao invés de promover a tolerância, por meio de campanhas educativas, a prefeitura opta pelo cutelo.

    Não estamos mais na época do tudo pode, aliás creio que vivenciamos já alguns problemas decorrentes disso. Nunca foi tão urgente conscientizar sobre a gentileza urbana. Sempre é imperioso destacar que os ambientes públicos são logradouros sociais, em que a regra deve ser a do respeito.

    Ciclistas devem ter cuidado com as crianças e idosos, e donos de animais domésticos também. Os bichinhos (e alguns são bem grandes) precisam ser mantidos sob controle nas guias; os dejetos devem ser recolhidos em saquinhos ou jornais velhos e jogados na próxima lixeira.

    O senhor Jorge Espeschit poderia ser informado dessas coisas.

    Promover a educação é sempre mais difícil. Para tanto, o poder público deve estar embebido da ideia de ética…

    Ética??

    É urgente acreditar que a tolerância é possível, mas, para que exista, precisa ser estimulada, ensinada, defendida.

    Abraço geral.

  9. A “ditadura do proletariado…” (risos) começa a se instalar com mais força. Leis, que no pensamento de pessoas de bem, foram criadas para facilitar a convivência, agora, em mãos de despreparados, tornam-se instrumentos de dominação e cerceamento da liberdade.
    Após o 11 de setembro, “autoridades” tentaram cercear o direito de ir e vir do cidadão norte-americano, alegando “segurança nacional.” O que era impensável naquele país agora é lei: um policial pode parar qualquer cidadão na rua, alegando “atitude suspeita.”
    São “pensadores” como esses que nós elegemos.
    Cerceadores da liberdade e guardiões de instituições falidas, que procuram a todo custo nos manter como escravos de suas vontades.
    Já dizia Antônio Rogério Magri: “Cachorro também é gente.”
    Digo eu: “Gente também é gente!”

  10. Carla Roberta

    Caro Jorge, no dia 17 de julho, aconteceu uma mobilização em vários parques de BH, para protestar contar o ato de proibição arbitrário da PBH. Não existe legislação específica que proibia a entrada de cães e bicicletas, e sim uma lei de 1984 da Vigilância Sanitária, que não pode ser aplicada aos parques municipais.
    No dia 20 de julho,em uma reunião com o Secretário de Meio Ambiente, vários ativistas da causa animal, conseguiram o acordo de que a situação será revista e voltará a ser permitida a entrada de cães nos parques.
    Estamos no aguardo da publicação da lei no Diário oficial da União. Esperamos que aconteça em breve. Assim que a notícia vier, vamos repassar a todos. Seu texto é simplesmente excelente! – Carla Roberta
    Grupo SOS Bichos – BH

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