A síndrome do tapete vermelho

O mineiro só é solidário no câncer. A frase atribuída ao escritor Otto Lara Resende parece demasiadamente cruel para definir o nosso povo, mas certamente expressa indignação pelo jeito de ser e agir de muita gente, sobretudo nos meios culturais. No entanto, prefiro a ironia de Bartolomeu Campos de Queirós – nosso novo acadêmico e sempre sábio Bartolomeu, autor premiado em vários países. Mineiramente, ele costuma dizer que temos vocação para estender o tapete vermelho.

 

A predisposição provinciana para se render ao que vem de fora contrasta com a fama de desconfiado que sempre acompanhou o mineiro típico. Do ponto de vista antropológico, incorporamos traços comportamentais de garimpeiros, que nunca revelam onde está a jazida; e boiadeiros, que menosprezam o gado alheio para comprá-lo na bacia das almas. Mas há também a herança tupiniquim de acolher o visitante com generosidade, mesmo quando se trata de um “falso profeta”. Basta ver os projetos culturais que trazem autores e artistas de fora nem sempre expressivos, enquanto os autores da terra não têm espaço para falar de seus projetos. Em outros casos, convidam todos, remuneram os de fora e sequer dão uma gorjeta aos de casa.

 

Embora muitos de nossos artistas sejam reconhecidos e aclamados em outras praças, não conseguimos ainda consolidar um mercado local, com espaço lucrativo para nossa música, nossa literatura, nossas artes cênicas e plásticas. A cada nova geração de talentos as dificuldades e reclamações se perpetuam na mesma proporção da rivalidade. Alguém já disse que em BH, quando dois artistas se encontram, geralmente falam mal de um terceiro. Talvez seja um exagero, mas de fato existem aqueles que preferem fiscalizar a produção alheia em vez arregaçar as mangas e realizar seus próprios projetos.

 

Arte e entretenimento

 

Quando ainda não existiam leis de incentivo, viver de arte e cultura em Minas Gerais era praticamente impossível. No entanto, muita gente vivia dignamente do seu ofício. Hoje, os recursos desses mecanismos custeiam as instituições oficiais e apóiam iniciativas de artistas e produtores. Mesmo com esse apoio, o fazer cultural raramente dá lucros. Criou-se dessa forma uma relação contraditória entre a arte, de natureza crítica, e o poder, de vocação conservadora – independentemente da ideologia dos partidos. Como diria Nietzsche, “o estado é inimigo da cultura”. No entanto, hoje somos forçados a acreditar no contrário, uma vez que as leis de incentivo substituíram as políticas culturais.

 

Curiosamente, por mais cruel que tenha sido, a ditadura militar serviu para unir artistas e intelectuais contra o poder, na defesa das artes e das liberdades democráticas. Naquele período obscuro de nossa história organizaram-se grupos, associações e sindicatos empenhados na defesa de interesses comuns, exigindo recursos oficiais, respeito e apoio aos fazedores de artes. Essa mobilização garantiu-nos posição de vanguarda na luta pela redemocratização do país. No entanto, com a reabertura política, a classe se dispersou e exacerbou-se o individualismo. Com isso, perdemos espaço nos gabinetes e na grande mídia. Em outras palavras, vivemos um período de refluxo, inclusive no sentido estético.

 

Basta dar uma olhada nos cadernos de cultura dos jornais mineiros para ver quanto regredimos nos últimos tempos. Entre arte e entretenimento, os jornais preferem noticiar o segundo. Em outros tempos, a geração Encontro Marcado migrou para o Rio de Janeiro justamente por não encontrar apoio entre as montanhas de Minas. O mesmo ocorreu com jornalistas que foram fazer escola em São Paulo. Sem contar que o poeta Carlos Drummond de Andrade teve bons motivos para não voltar à sua terra. Artistas e intelectuais que permaneceram em Minas enfrentaram sérias dificuldades para sobreviver.

 

O circo da mídia eletrônica

 

A miopia do noticiário no que se refere aos valores artísticos da aldeia se agravou consideravelmente nos últimos anos. Carecemos de uma imprensa comprometida com os valores regionais e não apenas com os interesses desse ou daquele político. Numa sociedade globalizada, o regionalismo é o que faz a diferença e não a mesmice pasteurizada ditada pela mídia eletrônica. A influência global e a cultura das celebridades nunca se fizeram tão intensas. Com isso, uma atração do Big Brother Brasil ganha mais espaço nos cadernos culturais do que artistas locais mesmo de fama internacional, como um Toninho Horta ou um Carlos Bracher, só para citar duas unanimidades.

 

Com exceção da Rede Minas, que tem procurado cumprir seu papel institucional no trato com a cultura e a educação dos mineiros, a programação da TV local deixa tudo a desejar. Os poucos horários da grade reservados às manifestações regionais são impraticáveis. Também as emissoras de rádio, em sua maioria, ignoram a música produzida no Estado, que em outros tempos chegou a ser considerada a melhor do Brasil pelo compositor baiano Caetano Veloso. Com exceção de alguns que fazem o gênero pop rock, raramente nossos músicos têm tido espaço na programação radiofônica.

 

Do seu lado, a classe artística chora a vida nos bastidores, esquecida dos tempos em que era politicamente organizada. Tempo no qual grupos profissionais e amadores disputavam os poucos espaços culturais da cidade. Hoje sobram palcos, mas, mesmo com as leis de incentivo, as dificuldades de produção se multiplicaram e boa parte dos eventos deixa a desejar ou nem chegam a se concretizar enquanto produção. A Campanha de Popularização do Teatro, por exemplo, banalizou-se com a reprise de comédias toscas que agradam o público leigo mas nada acrescentam ao próprio teatro. A discussão estética e a preocupação vanguardista renderam-se aos ditames do circo de entretenimento montado pela mídia eletrônica.

 

A omissão de artistas e produtores

 

Por mais que nossos produtores possam discordar, o fato é que não há mais reflexão crítica sobre a nossa realidade cultural. A maioria daqueles que atuam no setor se rendeu aos parâmetros impostos pela TV, pelas grandes editoras, pelas gravadoras – ainda que decadentes – e pelo cinema comercial norte-americano. Em outras palavras, artista mineiro bom é artista mineiro morto. E olha que isso também já não conta. Basta lembrar a modesta repercussão dada à morte de Vander Piroli pela mídia local, só para citar um grande nome da nossa literatura cuja perda repercutiu em jornais do eixo Rio-São Paulo. 

 

Enquanto isso, na contramão da submissão ao colonialismo cultural, a Feira de Livros de Porto Alegre e a música baiana devem muito às mídias regionais. Enquanto no Rio Grande do Sul o tablóide Zero Hora fez da cultura gaúcha sua principal bandeira, na Bahia as emissoras de rádio acolheram os músicos locais. Em ambos os casos a cultura regional se consolidou, tornando-se referência internacional. Se hoje os escritores gaúchos encontram mercado nos pampas, os músicos baianos fazem festa o ano inteiro e só não ofuscam o carnaval carioca porque os interesses comerciais não deixam. Basta lembrar que Michael Jackson gravou um dos seus videoclipes com o Olodum em pleno Pelourinho.

 

Em Minas, contrariando a tradição e o ensinamento de Tolstoi, tornaram-se raros os cronistas que escrevem sobre seu tempo e a aldeia onde vivem. O compadrio e o gosto pessoal de quem faz a notícia é o que prevalece no agendão de eventos sem importância dos cadernos culturais. Isso sem falar nos interesses comerciais e políticos dos veículos de comunicação. Não há mais espaço para a crítica especializada e a reflexão estética. Criou-se o mito de que esporte, política e economia são as editorias mais importantes e provavelmente essa é uma das causas da perda de leitores dos grandes jornais, embora alguns entendidos prefiram culpar a Internet.

 

Enfim, na ausência de critérios objetivos, o contrapeso subjetivo à síndrome do tapete vermelho são as relações pessoais e o modismo puro e simples – os cinco minutos de fama fabricados pela cultura de massa. Ao ignorar a segmentação de mercado e os valores regionais, a imprensa local perde leitores e condena profissionais da arte e da cultura ao exílio na própria terra. Mas o que mais preocupa é a omissão de artistas e produtores, que fazem média com a mídia na esperança de merecer espaço na pauta. Ignoram inclusive as possibilidades da Internet, sem a qual o presente artigo jamais seria publicado.

 

* Publicado no site www.observatóriodaimprensa.com.br, em 08/9/2009.  

Este post tem 12 comentários

  1. Caro Jorge,
    perfeito o seu artigo de hoje. Parabéns. Mas o problema não se restringe só à mídia. O pior está em algumas empresas que compram a idéia vendida por pretensos produtores, que nada mais são do que comerciantes de espetáculos e eventos, de que o melhor a patrocinar é o que vem de fora, cheio de celebridades momentâneas. Sobre isso estou escrevendo um artigo que acho que vai completar o seu, já que quero tocar na ferida dos marketeiros que invadiram as empresas e fizeram a cabeça de empresários. Um retrocesso de pelo menos 40 anos.
    Abraços
    PP

  2. Hugo Pontes

    Prezado Jorge Fernando,

    Em breves palavras, uma vez que eu já havia manifestado sobre o assunto-tema de seu artigo. Para dizer o quanto suas palavras atingem a ferida que teima em não cicatrizar nesse corpo doente das Minas Gerais.
    Vamos agora para o Rio Grande do Sul fazer palestra e exposição sobre poemas visuais. Nossos trabalhos são expostos nos inúmeros países do globo. O sítio http://www.poemavisual.com.br já alcançou mais de 100 mil visitas.
    Inúmeros artistas fazem malabarismo para que sua arte seja reconhecida. Mas…
    Enquanto isso, aqui em Minas GERAES, continuamos a acreditar que o último movimento cultural aconteceu noperíodo Barroco.

  3. Esse processo é o praxe em todos os estados brasileiros, e não só em Minas. Em todo o Brasil presenciamos o desaparecimento de nosso cultura em detrimento de espetáculos internacionais kitsches, como o tal Circo de Soleil, beneficiado sabe-se lá porque pelas leis de incentivo à cultura; em todo lugar vemos mais espaço na mídia para os monossílabos big brothers e nenhum para artistas que tem muito a nos contar; em todo o Brasil o teatro está sendo dominado por comédias de gosto mais que duvidoso, enquanto um teatro mais exigente e experimental vem se tornando uma miragem, uma invasão extraterrestre para muitos. – Sérgio Ribeiro, SP, bancário, comentou no Observatório da Imprensa, em 08/9/2009.

  4. Caio Junqueira Maciel

    ei, jorge, sempre tocando na ferida…e, por falar em tocar, esse tema já rendeu uma composição minha e do zebeto corrêa, que te passo em primeira mão.
    Valsa dos Olvidados
    Caio Junqueira Maciel & Zebeto Corrêa

    País das Gerais, os teus filhos
    aqui conheceram exílios
    na terra se viram esquecidos
    nas montanhas emudecidos
    condenados aos desvarios
    na escuridão dos casarios…

    Alijados e marginais
    silenciados em jornais
    ninguém conhece afinal
    se deixaram algum sinal
    poesia, canção, estátua,
    presença sofrida e fátua…

    Quem sabe o que conspira o vento?
    E o lamento na serrania?
    A euforia ainda surda
    absurda, absoluta
    como a luta do pingo d’água
    na mágoa dessa pedra dura…

    País das Gerais, que razões
    eclipsaram em teus rincões
    esta safra sem amanhã?
    Fracassaram na glória vã
    não reconheceram seus dons
    difícil é ficar entre os bons…

    Tão tímidos em seu recato,
    insaciável anonimato,
    a mídia pífia que não viu,
    botão de prosa não abriu,
    essas mentes insubmissas
    no carrossel das injustiças…

  5. Tiao Rodrigues

    Diz o dito popular, “tem que bater na cangalha para o burro entender”. Falou tudo, Jorge, ou quase tudo?
    boa semana para você também. Tião.

  6. Sérgio Fantini

    concordo plenamente com você.

  7. Caro Jorge,

    Belíssimo artigo. penso que muitos artistas realmente têm essa coisa de observar mais a obra alheia do que a própria obra, mas acho que isso é mais coisa do ser humano do que propriamente dos artistas. Mas o que sei é ao menos na música, que quando os artistas unem forças, as coisas acontecem, seja em Minas, como é o caso do Clube da Esquina, ou no Rio com a Bossa Nova, ou mesmo em Brasília, como aconteceu com o rock. Há pouco tempo tive uma boa experiência com essa turma da viola caipira, quando nos unimos eu, o Pereira da Viola, o Chico Lobo, o Bilora, o Joaci Ornelas e o Wilson Dias e formamos o espetáculo VivaViola. Fizemos três shows no Teatro Alterosa, todos lotados, fizemos agora no dia 19 de agosto um show no Palácio da Artes com um ótimo público e gravamos um CD. Acredito que o resultado foi e está sendo bom para a carreira de todos os envolvidos e ficamos surpresos com a força dessa união. Acho que é por aí que as coisas acontecem, independente se o estado está dentro ou fora desse eixo que chamam Rio e São Paulo. Temos que nos unir pra mostrar a força da nossa cultura e conscientizar cada vez mais o nosso próprio povo. O resto vem por si.

    Grande abraço meu amigo, parabéns pelo blog e temas, precisamos tomar outra lá na casa do poeta.

    Gustavo Guimarães

  8. Luiz Edmundo

    Alô Jorge, ficou muito bom o texto, e verdadeiro, mas ainda assim devemos buscar um “mercado nosso”, a despeito das dificuldades e dos tapetes. Penso também que esse fascínio pelo que vem de fora é geral. Imagine que lá em Vitória da Conquista, Bahia, um amigo me fez a mesma queixa. E aqui em Minas ouço isso quando chegam escritores portugueses ou paulistas. Tapete vermelho pra eles, com e sem ironia. Na verdade escrevo pra lhe convidar pro lançamento de meu mais novo livro: UVAS VERDES – poesia paixão memória, que reúne textos que vão do ensaio às crônicas, passando por crítica de livros e filmes, além de comentários sobre arte e poesia. Dia 22 de setembro, à noite, nos jardins internos do Palácio das Arte. Conto com sua presença. Abraço do Luiz

  9. Seu texto é muito bom Jorge,

    Concordo em partes com o que você disse, mas tem uma pequena contradição interna no texto: você estendeu o tapete vermelho a pensadores e filósofos longíncuos no tempo e espaço pra coroborar sua tese.

    Eu acho o contrário Jorge. O provincianismo mineiro é justamente um trancar de portas. O que acontece é que não conseguimos digerir essa nova realidade; não é uma simples questão estética, ou reflexão estética, ou opção estética; a imposição é concreta. Não dá pra implodir a estrutura social com sinlogismo, com aliterações, com sotaque e cigarro de palha. Com saudosismo: “No meu tempo que era bom…”
    Essa sensação de uma mineiridade existindo higienizada do resto do país, atemporal: é uma fábula, embuste, desejo de voltar a uma espécie de Éden com angu e torresmo que não existe mais. E não acho que um lobby chauvinista vá colocar as coisas nos eixos.
    Quando as mídias e tudo mais; é questão de chover no molhado. Sindicatos de artistas? Isso cheira a confraria, conclave, onde a troca de elogios e elevação do outro pra elevar o sindicato é a lei. Eu digo que você é bom, você diz que eu também sou bom, logo, seu juízo sobre mim é ótimo, e o meu sobre você melhor ainda: e assim todos nos elevamos circuncristo a nossa panelinha, elevamos nossa mediocridade.

    Não sou partidário de defesa de regionalismo enquanto afirmação da identidade local frente a hegemonização cultural. O soco está aí, e não adianta rezar terço, correr pra debaixo da cama. De uma forma ou de outra, esse processo vai nos fisgar. O que importa é condição isso humana, isso transcende bandeiras e indiomas.

    A internet mostra a cada dia que a desentralização de informação, cultura e arte vai minar os tais cadernos literários, grandes editoras, e o próprio conceito de mercado de arte.

    Às vezes caímos naquela velha questão da roupa nova do imperidor. Ficamos correndo pelado por aí com o argumento do alfaiate: só os inteligentes podem ver.

    Até mais

  10. Jair Raso

    Parabéns, JORGE, pela coragem e lucidez de seu artigo. é um alento saber que sua crítica continua, como sempre foi, refinada, certeira e, como disse, corajosa.
    Um admirado abraço,
    Jair Raso

  11. Laura Raíssa

    A questão é que todo mundo pensa e ninguém faz. Os jornalistas são extremamente críticos, estariam de acordo com cada linha desse texto, mas quando entram na redação são incoerentes com o próprio discurso, fazem mais do mesmo. Basta ouvir as conversas em mesas de bar e ler os jornais no dia seguinte… – Laura Raíssa, professora, BH, comentou no Observatório da Imprensa, em 11/9/2009.

  12. Bill Falcão

    Este é um tema que deve ser sempre lembrado, Jorge. Se cada um pudesse falar de sua aldeia, e ser ouvido pelo mundo, seria, a meu ver, a verdadeira globalização. Mas, é uma situação antiga, “santo de casa não faz milagre”, como diz o ditado. E quanta gente boa foi obrigada a sair daqui pra poder viver de sua arte, não é mesmo?
    Aquele abraço!

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