Álcool, agora, só no tanque

Não sei os detalhes da lei de trânsito que tirou os bafômetros da gaveta, até porque não sei dirigir nem carrinho de supermercado. No entanto, uma coisa é certa: o rigor da fiscalização está contribuindo para adiar a caminhada de muita gente rumo ao AAA. Devido ao medo de ser pega com a boca no trombone, isto é, no bafômetro, a rapaziada que geralmente combina álcool com volante está diminuindo drasticamente o consumo de bebidas. Tenho amigos que não pararam de beber nem mesmo depois de sofrer infarto. Com medo da nova lei, agora se sentam na mesa do bar e pedem água ou refrigerante.

As estatísticas não são muito precisas, mas parece que já diminuiu o número de acidentes nas grandes cidades depois da nova lei, bem como a freqüência aos bares e restaurantes. Tem até comerciante falando em mobilizar a categoria pra pedir à Justiça que pegue mais leve com a clientela, sobretudo a turma da noite. Os fabricantes de cerveja estão em pânico, pois as vendas caíram vertigionamente.

Toda essa polêmica demonstra que o brasileiro é mais viciado em automóvel do que propriamente em bebida alcoólica. Parece inacreditável, sobretudo para alguém como eu – que sempre andou de táxi ou ônibus – que um mortal não seja capaz de se desgrudar do volante pelo menos uma vez por semana. E aí vem toda aquela conversa de que o táxi fica caro e o transporte coletivo é uma merda. As duas alegações conferem, mas não justificam a recuza em deixar o carro na garagem pelo menos nas noites de boemia.

Embora a nova lei esteja colocando freios na bebedeira dos motoristas, temos que admitir que ela também comete injustiça. Afinal, não parece legal punir alguém por antecedência com penas semelhantes àquelas que são aplicadas contra pessoas que realmente cometam crimes. Por exemplo: se o cara é pego pelo teste do bafômetro leva uma multa pesada e fica sem dirigir por um bom tempo. Já o motorista que – embriagado ou não – provoca um acidente e tira a vida de uma ou mais pessoas permanece em liberdade como se fosse um bom cidadão. Só mesmo no Brasil acontecem tais disparates.

Tudo bem que as autoridades precisam ser rigorosas com quem dirige bêbado, mas nem todo mundo que bebe sai do sério e ninguém deveria ser considerado criminoso por antecipação. Se a lei fosse realmente rígida com aqueles que matam no trânsito por deliberada irresponsabilidade, certamente as pessoas teriam mais consciência ao dirigir um carro, cujo manuseio pode ser tão perigoso quanto o de uma arma de fogo.

Outro problema é que o bafômetro mede o teor alcoólico, mas não detecta se a pessoa está drogada. Assim, criminaliza-se a cerveja, o chope e os destilados deixando a cocaína e outras drogas passarem de liso, dependendo da mera experiência do policial em detectar sintomas no suposto usuário apenas pela aparência ou pelo comportamento.

Alguns críticos da nova lei acham que ela corre o risco de fomentar a indústria de multas e propinas, em vez de apenas combater a fatal combinação de álcool e volante. O ministro da Justiça. Tarso Genro, acha que ainda é cedo para avaliar os resultados, mas garante que isso será feito num futuro próximo. Ele lembra que em países do Primeiro Mundo as leis são bem mais rigorosas e que tudo é questão de adaptação.  Oxalá esteja certo e que os resultados sejam de fato benéficos para um país que sempre liderou estatísticas de violência no trânsito em âmbito mundial.

PS: O ministro deveria aconselhar o presidente Lula a maneirar na dose. Afinal, se não dirige o próprio carro, ele chofera um país que só não capota na curva porque Deus é brasileiro.


  

Este post tem 3 comentários

  1. Cláudia Leão

    Fiquei encantada com o seu site e
    seu blog. Adorei as paródias e tudo o mais…
    Cláudia Leão

  2. Valter Braga

    Adorei a crônica. Só um comentário: quem sofre infarto tem problema no coração, não no fígado.

    Abs.

  3. Marco Antônio Vale

    Jorge,
    parabéns pela iniciativa de não nos privar de seu texto – bonito e de conteúdo.

    Quanto a mim, estou melhor que você: carrinho de supermercado eu sei dirigir… A Eliza não deixa, é verdade, porque diz que eu gasto muito e à toa…

    Uma – outra – boa notícia com relação à Lei Seca: em Curitiba (ou Florianópolis, não estou bem certo), a Cemig de lá divulgou um balanço interessante. No mês passado substituiram apenas a metade dos postes que costumavam substituir mensalmente… Os bebuns pararam de acertar os ditos-cujos…

    Um abraço e na segunda, 18/08, às 19:30h, encontrar-nos-emos (gostou dessa?) lá no Palácio das Artes

    Marco Antônio

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