A falta que a leitura nos faz

Em tempos de globalização, nota-se em muitos lugares do planeta a retomada de valores regionais. Isso talvez se explique devido à necessidade natural que o homem tem de manter suas referências culturais e linguísticas ou suas raízes fincadas no chão.

 

Diante do massacre de informações da grande mídia e da avalanche de valores impostos pela cultura de massas, o instinto de sobrevivência faz com que a humanidade reveja e reafirme valores em busca de identidade própria.

 

No entanto, devido à necessidade de dominar outras línguas para se sair melhor no mercado de trabalho e ter acesso rápido às informações, o que muita gente descobre é que sequer domina o próprio idioma. Sem isso, fica difícil cruzar fronteiras em busca de novas oportunidades.

 

Por lamentável tradição, o Brasil está longe se ser campeão de leitura. Estamos atrás dos Estados Unidos, França, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Japão, Argentina e Cuba – para citar apenas alguns países – no consumo de livros. Isso significa que o povo brasileiro não domina plenamente a língua pátria e, por isso mesmo, deixa a desejar também no que se refere à cultura geral.

 

Vulgarização do idioma

 

Em vez de ajudar, a mídia muitas vezes piora as coisas com a introdução de barbarismos e a vulgarização do idioma nacional. Assim, a cada nova geração, decai a qualidade da língua escrita e falada no país.

 

Além de dominar um repertório de poucas palavras, o brasileiro médio, mesmo quando sabe as regras gramaticais, encontra dificuldades para se expressar por meio da escrita. Já houve tempo em que boa parte das pessoas letradas cultivava o hábito de trocar correspondência. Nas linhas manuscritas liam-se declarações de amor e amizade, tratava-se de negócios e percebia-se nas entrelinhas o nível de instrução do remetente.

 

Com o avanço da telefonia no país, a tradição missivista foi sendo esquecida e muita gente chegou a alimentar a ilusão de que nunca mais precisaria escrever sequer um bilhete.

 

Talvez por isso o próprio sistema de ensino tenha deixado de lado o rigor com a redação e os antigos exercícios de composição. Como a escola primária muitas vezes mal ensina o bê-a-bá, ficou para o curso secundário a função de instrumentalizar os jovens no manuseio da palavra.

 

Limitações do sistema

 

Devido às próprias limitações do sistema e aos novos atrativos para a adolescência – como a música popular, cinema, televisão, internet, brinquedos eletrônicos etc. –, ensinar a escrever deixou de ser prioridade também no curso secundário.

 

A responsabilidade foi de certa forma empurrada para a universidade, onde se estuda de tudo com alguma profundidade, menos a palavra escrita. O resultado disso está nos jornais e também se reflete nas provas de vestibulares e outros concursos realizados de Norte a Sul do país.

 

Apesar do exposto, muita gente alimenta o sonho de se tornar jornalista, escritor ou mesmo advogado sem saber sequer redigir um bilhete. Para complicar as coisas, aqueles que trocaram o hábito de escrever cartas pelo uso do telefone foram surpreendidos pelo advento da internet.

 

O e-mail, as redes sociais e salas de bate-papo virtual trouxeram de volta a necessidade da escrita simples, limpa e objetiva na vida cotidiana. Por essas e outras, passa da hora de escolas públicas e privadas levarem a sério o ensino de Português e literatura, atividade que exige acima de tudo a prática de leitura e de redação nas salas de aula.

   

* Artigo publicado no site Dom Total com 71 compartilhamentos pelo Facebook, replicado nos sites Observatório da Imprensa e Tiro de Letra.

 

 

 

 

 

Este post tem 2 comentários

  1. Wallace Lima

    Esse artigo de Jorge Fernando dos Santos, por sua pertinência e pela complexidade do tema abordado, não pede comentários, pede outro artigo que dialogue com ele. Ou outros. Mas, dentro desse mesmo tema, é curioso notar que pelo menos jornais, praticamente, todo mundo lê, ainda que nem todos com a mesma frequência: não seria interessante lançar em jornais diários, a fim de despertar o gosto pela leitura (pela literatura), romances a conta-gotas, em capítulos, como se fazia em outros tempos? Ou os escândalos de corrupção que surgem e são estampados a cada dia em nossos jornais já são folhetins “pra ninguém botar defeito”, e seriam, com sua realidade crua, concorrentes desleais da ficção mais engenhosa? Penso, com esperança, numa expressão, corrente nos anos 70: “abrir as portas da percepção”. Porque é isso que uma boa literatura faz e é isso que deveríamos opor a essa nova tendência que superestima o imediato ou aquilo que só se pode comprovar pela investigação fria de um perito, relegando a segundo plano o que se pode detectar por outras vias menos factuais, mas que também se chama realidade. Como atrair para essa realidade menos visível os viciados em leituras que os mantêm na superfície das coisas é que é o grande desafio – comentário postado no Observatório da Imprensa, em 17/6/2012.

  2. Laís

    Gostei muito do artigo do J. Fernando, mas tambem gostei muito do comentário inteligente do Wallace Lima.

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