Todos por Helena Penna

“Helena Penna é uma das maiores revelações da MPB. Ela é a grande cantora que o Brasil precisa conhecer”. Assim o produtor e pesquisador musical Zuza Homem de Mello referiu-se à intérprete mineira, na condição de presidente do júri que deu a ela o Prêmio Sharp de cantora revelação da MPB pelo disco “Marias”, de 1995.

 

Com dois discos gravados – o segundo, “Belôricéia”, foi co-produção deste colunista – Helena Penna enfrenta sérias dificuldades. Vítima de diabetes, sofreu três AVCs, perdeu os rins, faz hemodiálise três vezes por semana e, recentemente, amputou a perna esquerda. Impossibilitada de cantar e trabalhar como cabeleireira, seu outro ofício de fé, ela vive da ajuda de amigos, fãs e familiares.

 

Para ajudar a cantora e sua família, músicos mineiros se unem na realização do show “Todos por Helena Penna”, programado para o dia 12/7, às 21h, no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Na ocasião, será lançado o CD “Coletânea”, que reúne algumas de suas melhores interpretações. O ingresso e o disco custam R$ 20, respectivamente.

 

Arte não dá dinheiro

 

O caso Helena Penna é só mais um dentre tantos registrados ao longo da história de um país que ainda não sabe valorizar e recompensar seus artistas. Faz lembrar o ocorrido com as irmãs Linda e Dircinha Batista, cantoras do rádio que penaram depois de idosas, sendo amparadas por um fã ardoroso.

 

Também o compositor Ismael Silva – parceiro de Noel Rosa e um dos inventores da escola de samba – sobreviveu na terceira idade graças à ajuda de colegas como Clara Nunes e Chico Buarque. Outra que passa por maus momentos é a atriz Norma Bengell, que se vê obrigada a dispor de bens pessoais para custear o tratamento de saúde.

 

Alguns poderiam alegar que tais artistas não souberam planejar o futuro. Contudo, há que se considerar que a verdadeira arte nunca deu dinheiro no Brasil. Ao contrário dos Estados Unidos, onde a indústria cultural tornou-se uma das molas da economia, ao sul do Equador o artista geralmente vive de pires na mão, em busca de mecenas ou patrocinadores que se fazem cada vez mais raros.

 

No apagar das luzes

 

Mesmo sem carteira assinada ou emprego garantido, boa parte dos nossos artistas vive por conta própria, na gangorra de sucessos e fracassos da vida profissional. Contudo, pagam impostos, previdência ou plano de saúde como todo mundo, sem garantias de retorno no futuro.

 

Vale lembrar que o “maestro soberano”, Tom Jobim, dizia em plena ditadura que a imprensa criticava os artistas porque não podia falar mal dos generais. Hoje, em plena democracia, os políticos trabalham pouco, ganham muito e se aposentam demasiadamente cedo com todas as regalias não merecidas.

 

Como em outros tempos, educação, arte e cultura permanecem desprestigiadas pelos governantes, que preferem investir em projetos faraônicos para atender a interesses escusos e garantir o famigerado caixa dois. Os artistas, em sua maioria, continuam pobres e a mercê da crítica, desamparados na dor e na doença depois do apagar das luzes.

 

* Artigo publicado no site Dom Total, com quase 100 compartilhamentos pelo Facebook.  

Este post tem um comentário

  1. Jairo de Lara

    Desnecessário dizer que concordo em grau, número e gênero com a opinião emitida neste artigo pelo Jorge Fernando. Está mais do que na hora de se pensar a cultura como uma indústria, A Indústria Cultural, que movimenta milhões e que carece de regras claras e incentivos menos paternalistas, mais eficientes e estruturantes, como financiamentos à baixo custo, por exemplo. O artista é o que tira as pessoas de sua vida rotineira e as leva para onde a mente não alcança e sim o coração. Esta abstração é a função da arte e é essencial para todo ser humano. Não pode o artista ficar à mercê da bondade alheia. Isto é passado. Estamos engajados na solidariedade com Helena e muitos outros, e que este acontecimento possa fomentar uma discussão ampla sobre a atual conjuntura em que vivem os artistas no Brasil. – Jairo de Lara, músico, comentou no site Dom Total.

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