A visão profética de George Orwell

Um dos aspectos mais notáveis da literatura – e por consequência do cinema que nela se baseia – é a capacidade de antecipar o futuro. Sem levar em conta os clássicos da ficção científica, podemos citar, por exemplo, os dois livros mais conhecidos de George Orwell.

 

Jornalista e escritor nascido Eric Arthur Blair, Orwell se tornou famoso sob pseudônimo. Muitos críticos o consideram o maior cronista inglês do século XX, principalmente por seu estilo perspicaz e bem-humorado.

 

De tendência anarquista, o autor lutou ao lado dos republicanos na Guerra Civil Espanhola e chegou a flertar com o socialismo democrático. Contudo, sentiu-se abalado ao se deparar com a realidade do regime soviético. Na fábula Animal Farm (Revolução dos Bichos), ele alerta para os descaminhos das insurgências ditas populares.

 

Orwell narra a rebelião de animais contra o dono da granja onde vivem. Após a vitória dos revoltosos, o poder é surrupiado por um porco, numa alusão direta ao camarada Stálin. O animal toma sob tutela os filhotes de um casal de dobermanns e, mais tarde, os transforma na sua guarda pessoal.

 

Pouco a pouco, na medida em que vai manipulando a verdade em seu favor e se livrando dos próprios aliados, o vilão se torna de fato um ditador personalista. No final, para surpresa hilária dos leitores, o porco veste casaca, fuma charuto, anda sobre as patas traseiras e perde o rabicó.

 

Sob domínio do Big Brother

 

Em Nineteen Eighty-Four (1984), Orwell narra uma história que beira a ficção científica, na medida em que mostra um país futurista de organização político-social quase perfeita. Sob o domínio do Big Brother (Grande Irmão), cidadãos comuns são vigiados pela TV, 24 horas por dia, tornando-se escravos numa sociedade mecanicista dominada por uma elite invisível.

 

O mais interessante nesse extraordinário romance é a manipulação dos fatos históricos por aqueles que exercem o poder absoluto. A tática provavelmente foi baseada nas teses de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, para quem a mentira repetida várias vezes pode se tornar verdade.

 

Nesse sentido, antigos inimigos viram aliados e velhos aliados são convertidos em inimigos. O método de dominação consiste em apagar ou modificar documentos, manipular e controlar os meios de informação, o que de certa forma sempre foi feito em muitos países.

 

Eufemismo para censura

 

Em tempos de suposta liberdade democrática, o que mais ouvimos no Brasil são as propostas de controle social da mídia. Trata-se de um termo politicamente correto que nada mais é do que um eufemismo de censura. Esta, não importa como exercida, estará sempre a serviço do poder.

 

Outra semelhança da atual realidade brasileira com a obra de Orwell é a negativa de fatos ricamente documentados. Militantes supostamente de esquerda insistem na tese de que o mensalão nunca existiu. Por outro lado, Lula ampliou projetos que criticava – como a bolsa-escola e a bolsa-família – fazendo crer que foram ideias do seu governo. Antigos rivais se tornaram seus aliados, entre eles Collor e Sarney.

 

Na outra ponta, mesmo com um discurso progressista, o governo petista mantém-se fiel ao neoliberalismo, formando consumidores e não propriamente cidadãos. Nesse sentido, em vez de priorizar educação, cultura, saúde e segurança, prefere construir estádios e usinas hidrelétricas, contribuindo com os capitalistas que destroem o planeta para obter cada vez mais lucro.

 

A mídia que aí está nem sempre se coloca do lado governista. Pelo contrário, mantém-se vigilante, ainda que para defender interesses próprios. Apesar disso, oferece o circo gratuito de que o governo tanto necessita para manter a massa hipnotizada e sob controle. São paradoxos da pós-modernidade, embora muitos brasileiros ainda vivam numa pré-história jamais imaginada por Orwell.

 

* Artigo publicado no site Dom Total. 

 

 

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