País do passado

Eu sou do tempo em que juiz ladrão era personagem de futebol de várzea e cartola era chapéu de bacana ou nome de sambista genial. Craque era só um sujeito bom de bola e bala perdida, chicletes ou drops de hortelã.

Naquele tempo, os rapazes convidavam as moças pra sair e não pra ficar. Camisinha era uma peça do vestuário infantil e zona, o lugar reservado às tias de vida fácil que faziam a alegria dos sobrinhos de vida difícil.

Grampo era prendedor de cabelo e araponga, uma ave de canto metálico, também chamada ferreiro. Aliás, na casa do ferreiro propriamente dito, o espeto costumava ser de pau e era o pau que a gente mostrava depois de matar a cobra.

Cobra-criada era alguém bom demais em alguma coisa, cachorra era a fêmea do cachorro e cão era um dos muitos nomes do coisa-ruim. Político prometia uma conduta transparente e, na verdade, como hoje, fazia a política do traz parente.

Antigamente, honestidade era obrigação de todos e não apenas um atributo que certos candidatos fazem questão de destacar no currículo. Naquele tempo, a esquerda era uma coisa direita e a direita entortava o país em nome da liberdade.

Eu sou do tempo em que o Brasil se proclamava o país do futuro. O tempo passou, o futuro chegou e agora me dou conta de que em muitos aspectos ainda somos um país do passado, de presente duvidoso.   

E para fechar com chave de outro – digo, chave de cadeia – lembro a máxima do escritor Francisco de Morais Mendes: “Eu sou do tempo em que cadeia produtiva era penitenciária agrícola”. 

 

Este post tem 7 comentários

  1. JPVeiga

    Amigo,
    assim feito vc, nós não existimos mais!
    A coisa é que nos recusamos a deitar e deixar essa canalha que anda por aí, assumir totalmente!
    Me lembro dos slogans generalescos – Brasil, demos um passo à frente – bem, se estávamos na beira do abismo!!!
    Parabéns por mais essa!
    JP

  2. Sílvio Ribas

    Jorge Salve Jorge, as definições atuais para as palavras cachorra, grampo e craque mostram bem o nível de degradação moral e social a que chegamos. Gostei do texto porque diverte fazendo refletir.

  3. Minas sempre criou ótimos jornalistas, excelentes contitas, poetas e pensadores da melhor linhagem.
    Jorge Fernando dos Santos (só o conheço de nome) é uma grata revelação como cronista, arte que muitos acham que são, mas só os talentosos como JFS conseguem ser. Esse artigo que li hoje “País do futuro…” é sensacional. Vou mandá-lo a alguns amigos. Vale a pena.
    Fiquei feliz também ao ler o artigo do amigo Pedro Paulo Cava. Além de oportuno, muito bem escrito.PPC consegue ser doce nas palavras, amargo no sentimento.E ele tem toda razão: chega de hipocrisia! Valeu. E parabéns aos dois.
    Hamilton Gangana

  4. dirceu cheib

    Jorge,
    me dou o direito de dizer que tambem sou desse tempo.
    Parabens e abraço,
    Dirceu Cheib

  5. Meu caro e prezado amigo,
    Deixe-me lhe dizer que a sua crônica País do Passado está sendo bem apreciada e deglutida por algumas pessoas aqui de São Paulo. Parabens pelo texto. Brito.

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