Os heróis de Santa Maria

Infeliz o povo que precisa de heróis. Atribuída ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht, essa frase se encaixa como carapuça na cabeça dos brasileiros. Diariamente, assistimos a mídia desvirtuar o verdadeiro sentido da palavra, adjetivando com ela desportistas e participantes do Big Brother Brasil. Contudo, são as grandes tragédias que revelam nossos verdadeiros heróis.

 

Segundo os dicionários, herói é uma pessoa notável pela coragem e valentia. Neste sentido, todo aquele que sobrevive honestamente num país dominado pela corrupção pode – e deve – ser considerado herói. Pagamos a segunda maior carga tributária do mundo e recebemos em troca um péssimo serviço público nas áreas de saúde, segurança e educação. Não bastasse isso, a classe política se esbalda com o nosso dinheiro. Contudo, milhões de contribuintes trabalham heroicamente e mantêm em dia suas obrigações.

 

Não bastasse essa dura realidade, acontecimentos trágicos decorrentes do descaso pela vida humana elevam o grau de heroísmo dos brasileiros. Cotidianamente vimos surgir verdadeiros super-heróis, que pela coragem e desprendimento colocam no chinelo personagens do cinema e das histórias em quadrinhos.

 

A recente tragédia ocorrida em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, é um exemplo de que os heróis de verdade estão por toda parte. Entre os jovens estudantes que se encontravam na boate Kiss no momento do incêndio que ceifou cerca de 240 vidas, muitos se arriscaram para socorrer as vítimas.

 

Anjos de carne e osso

 

O Domingo Espetacular, da Rede Record, entrevistou o chaveiro Marco Aurélio, que filmou o início do incêndio e ajudou nos primeiros socorros. Segundo ele, algumas pessoas perderam a vida depois de voltar à boate para ajudar os outros. Foi o caso do estudante de educação física Vinícius Rosados, de 26 anos. Depois de salvar 14 pessoas, ele morreu intoxicado.

 

A médica Kátia Porciúncula estava de plantão no hospital, naquela noite, e por telefone conseguiu mobilizar cerca de 50 colegas para reforçar o pronto-atendimento. Paramédicos, bombeiros, estudantes e taxistas ajudaram a salvar vidas. O agricultor Jovane Rosso, que tem um pulmão deficiente em função de um acidente sofrido no passado, conseguiu tirar da boate mais de 15 pessoas com vida.

 

O que mais revela heróis no nosso dia a dia é esse tipo de tragédia, muitas vezes previsível e por isso mesmo evitável. Se as autoridades tivessem pela vida humana o mesmo respeito dos “anjos” de Santa Maria, acidentes como aquele raramente ocorreriam. A desatualização do alvará de funcionamento da boate, a falta de vistoria dos bombeiros locais e o despreparo de seguranças que exigiram a quitação das comandas para liberar a saída exemplificam isso.

  

 

O mesmo poderia ser dito a respeito da tragédia que se abateu sobre Teresópolis e outras cidades da região serrana do Rio, em janeiro de 2011. Alertadas pelo serviço de meteorologia, autoridades ficaram de braços cruzados e nada fizeram para evitar o pior. Quanto mais tragédias, mais heróis. Portanto, Brecht estava certo. O ideal é que o heroísmo não se fizesse tão necessário em nossas vidas. 

 

 *Publicado nos sites Dom Total, Santa Tereza Tem e Observatório da Imprensa.

 

 

 

 

 

 

 

 

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