O Rubicão de Tancredo num livro eletrizante

Romance histórico ou romance reportagem? No caso de O Dossiê Rubicão – Quando a morte assume o poder, livro de Ramiro Batista publicado pela Editora Batel, a definição é o que menos importa. Trata-se de uma narrativa de fôlego, publicada em 510 páginas, um catatau que prende a atenção do leitor desde os primeiros parágrafos até o final comovente que serve de recado às novas gerações de jornalistas.

 

O nome Rubicão faz referência ao ribeirão que Júlio César atravessou com suas tropas, em 11 de janeiro de 49 a.C. Com esse ato, ele transgrediu a lei do Senado, que determinava o licenciamento das tropas toda vez que um general de Roma entrasse na Itália pelo norte. A travessia foi uma declaração de guerra contra Pompeu. Com isso, César mudou os rumos da história e se tornou imperador, símbolo daqueles que tomam decisões radicais e assumem as consequências dos seus atos.

 

No livro de Ramiro Batista, o jovem repórter Gustavo Guerra substitui férias na editoria Geral da fictícia Folha do Povo. Decidido a ser contratado pelo jornal, ele mergulha fundo nos bastidores policiais e políticos do país em busca do furo de reportagem da sua vida. Outro objetivo do “foca” é desvendar o súbito desaparecimento de uma sedutora fotógrafa que tinha em seu poder um misterioso dossiê relacionado às estratégias do então governador de Minas, Tancredo Neves, para chegar à presidência da República.

 

Jornalista dos mais atuantes de Belo Horizonte, Ramiro também se formou em Literatura, trabalhou em assessorias de imprensa e num grande jornal da capital mineira, sendo hoje funcionário de carreira da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, onde dirigiu a estreante TV Assembleia. Contudo, sua narrativa foi quase toda ambientada em São Paulo, onde funciona o jornal fictício cuja redação é o principal cenário da trama.

 

A ideia do livro provavelmente surgiu quando o autor ainda era repórter de política, tendo participado da cobertura da campanha das Diretas Já e do processo de eleição indireta de Tancredo Neves para a presidência da República. Alicerçado numa pesquisa detalhista, e bem fundamentada, Ramiro dá corpo literário às intrigas e conspirações ocorridas nos instantes finais da ditadura militar, quando a derrota da emenda Dante de Oliveira favoreceu o conchavo das elites e o encaminhamento da sucessão de Figueiredo para o Colégio Eleitoral.

 

O mais intrigante, no entanto, é a constatação de que Tancredo teria conspirado com militares do porte do general Waldir Pires, visando garantir a transição política sem grandes traumas. Chegou a montar um escritório secreto no Rio de Janeiro, onde se encontrava com sinistras figuras do regime militar. A ironia é que o destino conduziu o candidato da Aliança Liberal ao trágico desfecho de uma doença cujo tratamento foi adiado ao máximo em favor de sua ambição pelo poder. Em seu lugar, assumiu o vice José Sarney, oriundo do PDS, antiga Arena, partido que deu sustentação política à ditadura.

 

Em ritmo de thriller policial, o escritor desenvolve sua narrativa sob dois ângulos de observação, o da ficção e o da História propriamente dita. De um lado está o dia a dia dos jornalistas numa redação convulsionada pelos temas da pauta e pela ascensão de um jovem diretor arrivista, que enxerga a atividade jornalística como mero negócio a ser modernizado a todo custo. De outro, o noticiário da primeira metade da década de 1980, na qual se destacam o tumultuado processo sucessório e os últimos momentos do regime de exceção que fora implantado em 1964.

 

Com O Dossiê Rubicão – Quando a morte assume o poder, Ramiro Batista revela toda a força do seu talento literário, ao misturar os ingredientes básicos de um best-seller – como sexo, paixão, poder, trama policial e muito suspense –, mostrando o Brasil num momento de mudanças cruciais, inclusive na maneira de pensar e fazer jornalismo.

 

Numa reflexão corajosa dos novos rumos assumidos pela mídia nacional, um único parágrafo do penúltimo capítulo radiografa a realidade vivida nas redações: “Se tivesse humildade e vergonha na cara, o filho (Humberto, chefe de redação) talvez se deixasse sentar e pedir desculpas (ao repórter Gustavo, que prova a veracidade do furo de reportagem). Mas era prepotente e pretensioso demais para tanto, da nova estirpe de executivos de sangue frio que buscavam resultados sem considerar os códigos de respeito e lealdade que marcaram a geração anterior a seu devastado processo de modernização”. Trata-se, portanto, de leitura recomendável principalmente a jornalistas e estudantes de comunicação, para que aprendam a diferenciar alhos de bugalhos.

 

* Artigo replicado no Observatório da Imprensa. 

Este post tem 7 comentários

  1. Daniel Valadares Macedo

    Olá, Jorge

    Bela resenha crítica… Fiquei com vontade de ler e de acompanhar o caminho literário de Ramiro Batista.

    Um abraço!
    Daniel

  2. Muito boa crítica, mermão. nos três sentidos: bem escrita, bem argumentada e boa para o livro. parabéns, caraças!

  3. Oi, Jorge
    Muito interessante o seu texto, dá vontade de ler o livro, pois no momento, há mesmo uma busca incessante dos donos de jornais por “mudanças” editorais, sem planejamento, com uma intenção ferrenha de nunca mudar o jogo onde sempre ganham, portanto sem intenção real de fazer algo novo, importante. A pena é que quem precisa mais de leituras assim costuma ter alergia a livros, principalmente dessa natureza. Fico vendo que o jornalista sem leitura – coisa muito comum, mas que pode passar meio batido quando é jovem – vai ficando cada vez mais burro na medida em que o tempo passa.
    Abraço, boa semana!
    Vitória

  4. Paulinho César Coelho Ferreira

    Obrigado pela dica.
    Vai ser interessante achar os coleguinhas no livro.
    Abração.

  5. Sandra Lane

    Bom dia Jorge!
    Li o seu artigo sobre o romance “O Dossiê Rubicão – Quando a morte assume o poder”, de Ramiro Batista e já indiquei para um amigo o Adriano Ventura que é professor de jornalismo na PUC do Bairro São Gabriel. Ah! Aproveito para elogiar também as suas frases. Adoro o toque de humor ácido que muitas delas trazem. Um abraço carinhoso, Sandra Lane

  6. Meu caro Jorge Fernando, fiquei alegre de ler seu nome na origem da notícia (esta lamentável) do fim do concurso Cidade de BH. Aproveitei para ler seus escritos sobre Chico Buarque, o Rubicão do Tancredo, Frases etc. Bom mesmo é saber de você, já que há muitos anos a gente perdeu o contato. E tenho sempre muito orgulho de ter sido um dia seu professor no Colégio Estadual. Tomara que a vida esteja tendo boa vontade com você esses anos todos. Forte abraço, Antônio Sérgio.

  7. Herminio Prates

    Jorge,
    a sua crítica sobre o livro do Ramiro Batista me despertou o desejo de lê-lo. Estou curioso para acompanhar os feitos do foca no deslizante viver dos políticos. Ah, que dribles o aprendiz de repórter não terá levado dos espertos pais da República!..
    Quando conto que você e o Ramiro foram meus alunos na ex-FAFI, hoje UNI-BH, ninguém acredita. Todos pensam que é lorota, mas estou apenas tentando atrair para minha sombra um pouco da luz que emana do talento de vocês. Hoje, confesso, eu é que tenho a aprender e nada mais a ensinar. Se é ensinei algo antes.

    Hermínio.

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