Imaginário roseano

A influência de Guimarães Rosa na cultura brasileira é incontestável. No entanto, o que muitas vezes foge à percepção de estudiosos é que ela se dá de maneira muito mais intensa na música popular do que propriamente na literatura. Isso talvez se justifique pelo fato de a musicalidade ser uma das marcas da obra do autor, que buscava inspiração em temas divulgados por violeiros, cantadores e contadores de histórias.

É intressante notar que essa influência ocorre sobre compositores dos mais variados gêneros e estidos – dos mais limitados aos mais sofisticados. Basta lembrar que o maestro soberano, Tom Jobim, mantinha os livros do escritor em sua cabeceira e prestou-lhe singular homenagem com o poema sinfônico Matita Perê, feito em parceria com Paulo César Pinheiro.

A proposta do disco Imaginário Roseano, distribuído pela Tratore, é justamente evidenciar a presença roseana no cancioneiro nacional. Isso explica a diversidade das canções nas releituras de Geraldo Vianna, João Araújo e Rodrigo Delage, que se destacam entre os mais talentosos músicos de Minas Gerais. Os três são leitores da obra do grande escritor cujo centenário de nascimento – em 27 de junho de 2008 – ganha com este CD um registro todo especial, no qual também se destacam os convidados (Rolando Boldrin, Paulo Freire e Téo Azevedo).

A dificuldade maior foi na escolha do repertório, pois raros são os compositores da canção brasileira a partir da segunda metade do século 20 que não tenham bebido na mesma fonte ou se inspirado diretamente no homenageado. Da trilha sonora de Geraldo Vandré para o filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, a Mandala do Sertão, feita especialmente para este disco, o que não faltam são músicas cujos acordes e letras ecoam no espaço desbravado pelo escritor.

Guimarães Rosa está para a literatura como Villa-Lobos, para a música. Com visão moderna, os dois buscaram indentificar o verdadeiro caráter da nossa nacionalidade, estreitando laços com a cultura universal e com a aspiração transcendental de diferentes povos. Isso explica a influência irresistível que exercem sobre aqueles que tentam traduzir, por meio da arte, o grande sertão chamado Brasil.

* O interessado em músicas sobre o universo roseano também deve ouvir o disco Rosário, do grupo Nhambuzim, excepcional coletânea de “Canções inspiradas no sertão de Guimarães Rosa” lançada pelo selo Paulus.

 

Este post tem 3 comentários

  1. João Araújo

    Obrigado, amigo e parceiro Jorge!
    Sua introdução, no encarte, valorizou e muito nosso esforço nesta homenagem.
    Vale a pena ser lido e relido, várias vezes…

    Peço a licença para avisar aos amigos que no portal de João Araújo (www.joaoaraujo.mus.br)
    estão disponíveis informações completas sobre o álbum Imaginário Roseano, inclusive trechos
    das músicas, para deleite.

    “Deus te dê o pago”,
    E vamos proseando …

    Abraço do João Araújo
    Músico, produtor, cronista.
    Diretor do trabalho de pesquisa e preservação musical brasileiro “Viola Urbana”.
    (31) 9952-1197

  2. Carlos Ribas

    Parabéns meu caro Jorge!
    Fale com ele para encaminhar um exemplar para minha produção aos meus cuidados.
    Faremos uma entrevista o quanto antes. – Ribas

  3. José Jorge Miquinioty

    É difícil para o autor comentar uma releitura de um trabalho seu, principalmente quando a nova versão é mais “original” e resgata delicada e generosamente tudo o que se passou na fantasia e no coração daquele que compôs… O cd é simplesmente maravilhoso, “uma viagem no encantado do dizer”, parafraseando o grande e iluminado G.Rosa. Parabéns, obrigado e espero que vcs não parem por ai… José Jorge Miquinioty

Deixe uma resposta