A mediocridade de cada dia

Medíocre, diz o Aurélio, significa mediano, sem relevo, comum, ordinário, vulgar, meão… Portanto, pessoa medíocre é aquela que está na média, dentro do óbvio e esperado pelos outros. O problema é que nesses tempos globalizados esse tipo de gente subiu ao pódium.

Como ficaria muito caro elevar o nível intelectual e financeiro das massas, os capitalistas preferiram alinhar a população por baixo, transformando o cidadão em mero consumidor. O estudante já não estuda para “ser” alguma coisa, mas apenas para “ter” um diploma. Os patrões não querem mais profissionais experientes, mas diplomados em teorias que, na prática, não servem pra nada.

Gente medíocre não questiona, não reivindica, não contesta, não provoca, não incomoda os poderosos. O sujeito mediano é incapaz de fazer inimigos e, pelo mesmo motivo, também não é dado à integridade, honradez e lealdade que caracterizam a relação de amizade. Pelo contrário, dança conforme a música ou no ritmo do modismo sonoro que a mídia lhe impõe. O máximo que consegue ler é uma crônica de futebol ou um livro de auto-ajuda. 

No Brasil, para manter o povo na média, transformaram a idéia de justiça social em caridade. A assistência aos necessitados virou política oficial de estado. Em vez de trabalho e distribuição de renda, firmaram-se o clientelismo, a bolsa família, a esmola institucionalizada em troca da simpatia do eleitorado.

No setor das artes, em vez de política cultural, temos a proliferação das leis de incentivo. Estas funcionam até mesmo para custeio e manutenção de órgãos públicos destinados à cultura, como teatros, museus e orquestras. Tudo isso com direito a caixa 2, caixa 3, caixa-preta, caixa de Pandora que ninguém quer abrir.

O Brasil parou no tempo e vive da ilusão de que o atual governo é progressista, sábio e generoso. Exemplo disso tivemos na sexta-feira, 19 de setembro. Uma decisão do governo norte-americano para minimizar a crise econômica repercutiu tão positivamente no mundo que a bolsa de Moscou fechou em alta antes mesmo do término do pregão. Enquanto isso, a Bovespa fechava com alta de 9,57%, maior índice desde janeiro de 1999, quando entrava em cena o Plano Real.

Em meio à euforia daqueles que há vários dias perdiam dinheiro no mercado de ações, o presidente Lula – principal crítico do Plano Real quando de sua decretação – discursou dizendo que a economia mundial já não depende mais dos Estados Unidos. Segundo ele, o Brasil caminha com as próprias pernas no quesito economia, inclusive sem a ingerência do FMI. Ele não sabe que o peso da economia norte-americana é tamanho que as outras potências ocidentais criaram a União Européia justamente para equilibrar a balança do capital.

No alto da sua mediocridade, Lula tenta convencer a todos que as coisas boas que acontecem no Brasil resultam do seu “excelente” governo. E o pior é que a sorte lhe sorri e ele alcança os píncaros da popularidade nas pesquisas ecomendadas pelo Planalto, o que demonstra quanto os medíocres acreditam nele. O tom populista é o mesmo adotado por Hugo Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia.

O que mais incomoda, no entanto, é a ausência de uma oposição política de qualidade, com memória histórica e argumentação matemática. A imprensa brasileira parece amordaçada. Não pela censura de tempos idos, mas pelo dinheiro que lhe é pago pelos governos por meio das verbas publicitárias. Nessas alturas dos acontecimentos, já não me queixo por mim ou pelo nobre e raro leitor, mas pelas novas gerações. A impressão que se tem é que o mundo está acabando e que o Brasil acabará primeiro, tamanha a voracidade dos poderosos que hoje controlam o país.

Por essas e outras, costumo dizer aos amigos que militaram contra a ditadura que, ao contrário do que pensam, “eles venceram”. Se vivo fosse, o general Golbery, principal artífice do regime pós-64, estaria satisfeito com o atual momento político brasileiro. Mesmo com todo o seu maquiavelismo, é difícil acreditar que ele tenha vislumbrado o atual quadro nacional, no qual os partidos se tornaram legendas de aluguel e cujos políticos, com raras exceções, dançam conforme o tilintar das moedas no caixa.

 

Este post tem um comentário

  1. Vitória Neves

    Boa noite, Jorge
    Memorável esse artigo! E muito, muito divertido, o que é importante também, porque se não der pra rir um pouco o desespero toma conta.
    O blog está muito bom
    Abraços

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