Espírito de Natal

Os crédulos e inocentes que me perdoem, mas Natal é a coisa mais chata do mundo. Não fosse pela singeleza do presépio atribuído a São Francisco de Assis, a data poderia ser descartada do calendário ou simplesmente passar em branco. Em primeiro lugar, trata-se da adaptação de antigas tradições pagãs aos ritos católicos. Em segundo, deixou de ser a festa da confraternização universal para se transformar num carnaval de consumo.

Natal tem sentido é na infância, pois sem a inocência das crianças não podemos suportá-lo, a não ser de cara cheia. Não sei se existem estatísticas, mas é quase certo que o número de suicídios aumenta nesta época do ano. Quem não tem dinheiro para entrar na farra certamente se sente frustrado. Quem já perdeu pai, mãe, irmãos e bichos de estimação também não deve ter muitos motivos para comemorar. 

Uma vez vi um Papai Noel de loja negar uma bala a um menor de rua. Menor, menor mesmo, um anjo de cara suja, e não um desses marmanjos que praticam crimes e se escondem atrás do Estatuto da Criança e do Aborrecente. O bom velhinho de barba e cabelos brancos estava lá, sentado em seu trono vermelho, com sua beca vermelha, seu saco vermelho, suas botas vermelhas. O moleque chegou e pediu uma bala. O sacana simplesmente disse não. E sua cara nem ficou vermelha.

Pior que o Natal são as músicas natalinas. Inclusive aquela do Jonh Lennon, que faz as pessoas balaçarem de um lado para o outro igual joão-teimoso. Lembro de uma rádio cujo locutor traduzia cada verso da canção: “então é Natal…”. Mais melancólico só mesmo Jingle Bells, atribuído a James Lord Pierpoint (1822-1893) – e viva o Wikipedia! Prefiro aquela que diz “eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel”, composição do baiano Assis Valente – que, por sinal, se suicidou.

No entanto, devo reconhecer que as iluminações natalinas costumam ser muito bonitas. O curioso é que o governo faz campanha durante todo o ano para que as pessoas economizem energia elétrica. Quando chega dezembro, é o primeiro a desperdiçá-la com tantas lâmpadas enfeitando praças e prédios públicos – inclusive o da própria companhia de força e luz!   

Nada no Natal consegue ser mais terrível que o famigerado amigo oculto. Principalmente quando é realizado na firma ou repartição onde trabalhamos. Não bastasse o tapinha nas costas dado pelo chefe filho da puta – que sacaneia os subalternos o ano inteiro – ainda temos que participar de uma festinha de faz de conta, na qual todo mundo é “amigo” de todo mundo. Na verdade, são apenas colegas e estão cagando uns para os outros, de olho no lugar do chefe e sempre reclamando do patrão. O amigo é oculto, mas o presente não, pois logo depois do sorteio dos nomes corre a listinha informando o que cada um deseja ganhar.

Deviam mudar o nome para inimigo inculto, pois muita gente que participa da brincadeira tá mais afim é que os outros se danem. Assim, o Recursos Humanos poderia entregar um nariz de palhaço e uma faca de aço para cada funcionário, apagar as luzes e mandar o pau comer. Depois de dez minutos, o palhaço que permanecesse de pé seria promovido para a vaga do chefe e levaria para casa todos os presentes depositados ao pé da árvore iluminada.

Essa árvore, diga-se de passagem, é oriunda das tradições egípcias e representa a árvore da vida. As bolas simbolizam os frutos da prosperidade. Já o nascimento do Menino Deus repete antigas tradições de vários povos que festejavam o solstício de verão e o ressurgimento do sol. O menino representa o filho da luz, e teve nomes como Hórus, no Egito; Dionísius, na Grécia; e Mitra, na antiga Pérsia. Esses e outros messias nasceram de mães virgens, pregaram a verdade (ou a luz), foram traídos por um discípulo dedo-duro e sacrificados na cruz, ressuscitando três dias depois e subindo aos píncaros do céu como o vitorioso sol de verão.

Esse, aliás, é o lado mais bonito do Natal, pois comprova que as tradições e crenças mais profundas do ser humano mudam de nome e lugar por força das circunstâncias, mas não perdem seu significado mais profundo. Mesmo que a Igreja negue, o catolicismo tem pouca coisa de original, a não ser o fato de ter sido instituído por um imperador romano que achou melhor aderir ao cristianismo em vez de continuar perseguindo os cristãos – que já eram quase maioria.

Natal deveria ser tempo de paz e prosperidade, mas tornou-se tempo de chuva e consumismo. Basta dar uma volta no centro da cidade ou ir ao shopping mais próximo para sentir o frenesi dos “bons cristãos”, que precisam dar presentes aos amigos e familiares para compensar as sacanagens que praticaram ao longo do ano e aplacar a consciência cheia de culpa.

Quando chega a grande noite, temos que suportar o cunhado bêbado, a irmã interesseira, o tio aposentado que reclama sempre do governo, o sobrinho pentelho, a prima dissimulada – tudo na boa, com cara de bons amigos. Vai ver que é por isso que todo mundo se entope de tanto comer e beber na ceia natalina. E, nessa hora, quase ninguém se lembra que boa parte da humanidade está passando fome – sendo que parte dessa boa parte mora logo ali no morro ou debaixo daquele viaduto.

As mensagens de boas festas geralmente contribuem para a superficialidade do Natal. Agora, com a Internet, chegam às dúzias, muitas delas enviadas por pessoas e empresas que você nunca ouviu falar. Sem falar naquelas que chegam por telefone, no serviço de telemarketing, com a voz gravada dizendo “a gente vai estar desejando um feliz Natal para o senhor e sua família”. Me poupem! Alguns cartões até que são legais, mas a maioria chove no molhado, repetindo velhos chavões, conclamando à reflexão. Com todo respeito, uma pessoa inteligente deve refletir o ano inteiro. Até porque, quem reflete no Natal é espelho de vitrine.

Eu, da minha parte, faço o que posso. Há mais de 20 anos não abro mão de montar meu pequeno presépio dentro da lareira que nunca mais foi acesa. Coloco um gorro ou uma meia vermelha no basculante da porta de vidro para fingir que Papai Noel passou por aqui. Escrevo uma crônica ou um conto de Natal, cheio de sarcasmo, como o presente texto, e rezo a Deus – se Deus houver – para que nos perdoe por usar o seu nome e o nascimento do seu filho de maneira tão cínica.

      

Este post tem 3 comentários

  1. Luís Giffoni

    Jorge, meu caro,
    adorei a crônica desmistificadora. Natal bonito é o pagão. Celebra o crescimento dos dias e a proximidade do plantio. Abraço, Giffoni

  2. Eliza Peixoto

    Tirou daqui, oh! Não vá beber nem comer demais. A gente não tem mais idade pra isso, mesmo que seja no Natal. Bom, depois da crônica, lhe desejo um Ano Novo cheinho de coisas boas, saúde, trabalho, dinheiro, calma, paciência, gargalhadas, e tudo mais que você quiser. Abracos, Eliza

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