Em memória de Wander Piroli

Como já era previsto, foi um sucesso a abertura da II Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros, que vai até 25 de junho na Casa do Jornalista, na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (avenida Álvares Cabral, 400). O evento comemora os 25 anos da primeira edição, da qual tive a oportunidade de participar ainda no início de carreira. Estão expostas dezenas de obras artísticas, como poemas, contos, crônicas, charges, caricaturas, ensaios fotográficos, pinturas e até mesmo reportagens. Cerca de 30 autores estiveram presentes autografando livros.

O melhor da festa foi ver a sede do sindicato lotada de jornalistas, coisa que raramente tem ocorrido nos últimos tempos, já que a categoria anda dispersa. Aliás, atribuo parte disso à própria desativação da Casa do Jornalista, que sempre funcionou como braço cultural do nosso sindicato. Por problemas burocráticos, que já estão sendo sanados, a entidade ficou fora do ar por algum tempo e agora promete retornar com toda força. 

A abertura da mostra homenageou a memória do grande jornalista e escritor Wander Piroli. Participaram do debate sobre sua obra seus antigos colegas Arnaldo Vianna, Carlos Herculano Lopes, Fernando Brant, José Maria Rabelo, Tião Martins e a escritora e professora de Literatura da UFMG, Letícia Malard. A família do homenageado emprestou aos organizadores da mostra alguns de seus objetos pessoais, para que se fizesse uma instalação lembrando seu local de trabalho. A abertura ficou por conta do Secretário de Estado da Cultura, Washington Melo. 

Lembro ter estado pessoalmente com Wander Piroli apenas duas vezes. A primeira em 1990, durante o coquetel de lançamento da coletânea “Flor de Vidro”, pela Editora Arte Quintal, na qual tivemos contos incluídos. Na ocasião, ele comentou que lia meus artigos e críticas publicados no Estado de Minas e no Suplemento Literário do Minas Gerais. Disse que gostava do meu estilo, mas recomendou-me rigor nos textos e impiedade nas críticas. Conversamos sobre nossas influências literárias e encerramos o papo elogiando o legado de Hemingway.

Muitos anos depois, pouco antes do início de sua enfermidade, nos reencontramos em volta das mesas de sinuca do salão Bronwswick, no alto da Afonso Pena. Eu estava jogando uma partida com colegas do Estado de Minas e ele, com seus colegas do Hoje em Dia. Trocamos obas e olás sem maiores consequências. 

Antes ou pouco depois disso, não me lembro exatamente quando, escrevi um artigo defendendo o direito de Paulo Coelho disputar uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Com a ironia que lhe era peculiar, Piroli enviou uma carta à redação elogiando meus argumentos e dizendo que concordava plenamente comigo, até porque “Paulo Coelho e a ABL se merecem”. A carta foi publicada pelo editor de opinião – Geraldo Magalhães ou Dídimo Paiva, não tenho certeza. Sei que devo tê-la guardado em algum lugar.

De qualquer maneira, quero dizer que sempre admirei Wander Piroli. Não só como jornalista e escritor, mas também como homem que virou lenda nas redações de Belo Horizonte. Seu legado é um exemplo para todos nós. Quando ele morreu, um jornal local relutou em publicar uma grande reportagem. Por picuinha de algum diretor, queriam dar apenas uma nota, mas alguns colegas telefonaram para o chefe de redação argumentando que isso seria uma injustiça e um vexame.

O resultado de tal investida é que permitiram a publicação de uma matéria de 30 linhas. No dia seguinte, toda a redação se sentiu vingada ao ver matéria de página inteira na capa do caderno de cultura do Estado de S. Paulo. Aquela era mais uma prova de que, em Minas Gerais, santo de casa não faz milagre nem mesmo depois de morto.

Hoje, devo reconhecer que aprendi muito lendo Wander Piroli. Seu último livro publicado em vida reúne deliciosas crônicas sobre o bairro da Lagoinha, na coletânea que abriu a coleção “BH – A cidade de cada um”, da Editora Conceito. Meu livro sobre o Caiçara faz parte da mesma série, para a qual indiquei a jornalista Márcia Cruz, com um excelente relato sobre o Morro do Papagaio. Na novela juvenil “No Clarão das Águas”, publicada pela Paulus Editora, presto uma justa homenagem ao nosso guru, citando sua obra “Os rios morrem de sede”, ganhadora do Prêmio Jabuti.

Finalizando, gostaria de registrar que a II Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros foi uma iniciativa de Carlos Barroso, um dos bravos diretores da Casa do Jornalista. Foi ele quem de fato pegou o touro pelos chifres, trazendo de volta um evento que jamais deveria ter saído de cena. Afinal, jornalismo também é cultura.

Este post tem 7 comentários

  1. Nadia Santos

    Confesso meu total desconhecimento sobre o evento, justificado, talvez, pelo meu afastamento da prática jornalística – a despeito de minha imensa saudade, mas, gostaria de aproveitar a oportuniade concedida pelo Jorge Fernando – que tem me incluído com frequência em suas, digamos, newletters do blog, para parabenizar pela super feliz iniciativa de trazer de volta uma experiência que, além de orgulho à categoria, pode representar uma chance preciosa de unir a classe em defesa dela própria e de uma sociedade mais politizada e consciente. Parabés, Carlos Barroso! E felicitações a todos que participaram.

  2. Lígia Jacques

    Oi, Jorge,
    Adorei estar na Mostra! Muito bacana, tudo! E estou amando seu livro de contos, o “Caminhante Noturno”! Estórias deliciosas, surpreendentes! Uma delícia!Você é fera mesmo em tudo o que faz, parceirinho!

    Abração e sucesso, sempre!!

    Lígia Jacques

  3. Jorge,

    gostei muito de seu post sobre o Piroli. Justíssima homenagem que o Barrosão fez a este injustiçado colega com quem também convivi – pouco, mas convivi. Abs., Almerindo.

  4. Cunha de Leiradella

    Grande wander, sô! foi o primeiro jornalista que vi trabalhando de camiseta e havaianas, eheh! grande amigo e meu padrinho e cicerone nos meandros do seu feudo: o bairro da lagoinha! – Cunha.

  5. Daniel Valadares Macedo

    Oi, Jorge

    Muito bacana a Mostra da Casa do Jornalista. Gostei de rever muita gente, alguns amigos da Faculdade de Letras, entre os quais a Profa. Letícia Mallard.

    Difícil mesmo é ler Wander Piroli!

    Onde estão os livros dele? Você me empresta algum?

    Abraço!

  6. Jorge, tive mais sorte que você. Mas por questão de idade. Convivi muito com Wander Piroli. Ainda aos 18 anos, já com 3 anos de jornal no interior, morando em BH, procurei a redação da Última Hora para me candidatar a repórter, no tempo que nem faculdade de jornalismo existia. O chefe da redação era o Wander Piroli. Fiquei um mês para teste, mas tive que ir para outras bandas. Depois, ele no Estado de Minas, eu frequentava a redação por conta exatamente de muitas amizades e muitas e muitas vezes fomos para os bares da redondeza tomar umas e outras e todas. Era uma delícia conviver com o Wander, principalmente por seu humor refinado. Tudo que se faça para relembrar Wander será importante. Além de grande escritor, um mestre no estilo, foi figura humana da maior importância neste país de pequenas pessoas, como essa gente do jornal citado por você que fez matéria de 30 linhas sobre o grande repórter que também foi Wander. Hoje, tem gente preocupada com os rios pra tudo quanto é lado, mas quando ele escreveu o citado Os rios morrem de sede, era uma voz quase única. Parabéns pelo seu texto. – Jeferson de Andrade comentou no Observatório da Imprensa.

  7. Maria Célia Barbosa Reis da Silva

    Salve Jorge!!!!
    Homenagem propícia. Confesso que estou revisitando Vander Piroli. Só havia lido O menino e o pinto do menino e Os rios morrem de sede. Agora, quando arrumo minha escrita sobre João Antônio, grande amigo de Vander, encontro Antônio Torres que, cá e lá, fala de Piroli.
    Leitura puxa leitura. Sei que vou mergulhar no Vander.
    Jorge, você tem algum texto dele sobre João Antônio? Afinal, ele é uma das ausências nos meus escritos.
    Abraços,
    Maria Célia Barbosa Reis da Silva

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