Desvario em tempos de crise

Pelo visto, no que depender da classe política brasileira, o país jamais se recuperará dos efeitos da crise econômica que abala o mundo. Depois de bravatear em torno do tema, chamando o tsunami de “marolinha”, o presidente Lula finalmente anunciou ações concretas para o PAC, pacote anteriormente alardeado sem causar efeitos reais na economia nacional.

Essa era sua carta na manga para tentar alavancar a candidatura da ministra Dilma à sucessão presidencial – isso sem levar em conta o risco de um plebiscito propondo um terceiro mandato, a exemplo do que fez Hugo Chávez, o agora presidente vitalício da Venezuela. Na verdade, a ficha caiu e o governo federal se mostra temeroso diante dos efeitos da crise que podem comprometer seus interesses políticos.

Por outro lado, o Senado Federal continua literalmente “afastado de Deus”. Depois de ressuscitar os mortos vivos – Sarney na presidência e Collor no comando do PAC – a câmara alta mais parece um casarão assombrado no qual vagam funcionários fantasmas que pesam à beça no orçamento.

Para demonstrar ainda mais o desvario dos senadores, o destemido Cristóvam Buarque propõe em péssima hora a criação de novas vagas no Parlamento, alegando que os brasileiros que residem fora do país não têm uma representação à altura no Congresso Nacional. Mas, justiça seja feita, na Roma antiga os senadores já davam o que falar.

A questão é que todos esses absurdos ocorrem em tempos de crise, como se esta não existisse e a situação do país fosse de fato a melhor do mundo. E trata-se de uma crise cujos rumos independem da nossa vontade, pois veio de fora como resultado da orgia capitalista promovida pelo sistema neoliberal que tomou conta do mundo. O Brasil pode remediar os efeitos, mas não tem como evitar as causas do problema.

Lula teve dois mandatos para fazer as anunciadas reformas, bem como incrementar a economia interna com a criação de frentes de trabalho, recuperação de estradas, reinvestimento em transportes (inclusive ferroviário), melhoria da educação, da saúde e da segurança pública. Até agora ele governou em céu de brigadeiro, beneficiado pelas medidas adotadas por Fernando Henrique Cardoso – apesar do bombardeio petista. Em vez de promover a redistribuição de renda e a redução dos impostos, preferiu adotar ações populistas, esmagar a classe média, engordar o Estado e aumentar a folha de pagamento em 27%.

Se FHC enfrentou várias crises em seus dois governos, Lula pela primeira vez se depara com um desafio real. Só que esta é a mãe de todas as crises e exige ações concretas e destemidas, em vez de medidas demagógicas e superficiais. Exemplo disso é que se o governo anterior não tivesse implementado o polêmico Proer, certamente os bancos estariam fechando as portas, piorando ainda mais a situação do país.

Por enquanto o Brasil tem caixa para suportar os efeitos da crise, mas não basta querer que os brasileiros voltem a consumir para que a economia nacional retorne à normalidade, como num passe de mágica. Se o exemplo vem de cima, Lula e o Senado Federal não servem de modelo para os assalariados e/ou desempregados. Afinal, eleitos para representar o povo, nossos políticos vivem do dinheiro público e a maioria deles legisla e governa em causa própria.

* Publicado no Diário do Comércio, em 18/04/2009.

 

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