As drogas e a hipocrisia

A questão das drogas tem dois ou mais lados a serem considerados. Primeiro, o tráfico com todas as suas implicações, como violência, corrupção e impunidade. Segundo, o uso das drogas propriamente dito, que leva indivíduos à dependência, famílias à desestruturação e o Estado a gastar – ainda que modestamente – com a reabilitação de viciados.

O problema crucial, no entanto, é a hipocrisia que gira em torno do tema. O comércio de drogas movimenta bilhões de dólares em todo o mundo e por isso nem todos os governos estariam interessados em resolver a questão de uma vez por todas. E existe também o paradoxo legal – no caso do Brasil, por exemplo – onde o usuário não é considerado criminoso. Tudo bem que todo vício é uma doença, mas se não fosse o uso de drogas não haveria tráfico que se sustentasse.

O curioso é que a maioria dos usuários de drogas pesadas não está entre os pobres. Estes, quando são viciados, geralmente alugam sua força de trabalho aos traficantes para conseguir manter o vício. Já os jovens das classes média e alta têm dinheiro para sustentar o vício e por isso não precisam aderir ao tráfico – embora muitos já o façam, motivados principalmente pelas costas quentes do papai.

Por outro lado, a sociedade brasileira é demasiadamente tolerante com aqueles que infringem a lei. Nossa história está cheia de violões que se tornaram mocinhos, a começar pelo cangaceiro Virgulino Lampião. A imagem de Robin Hood sempre é evocada quando aparecem criminosos de aura romântica, como Lúcio Flávio, Pareja e Ramiro da Cartucheira.

Também existem aqueles que tentam comparar drogados e bêbados – embora o álcool também cause muitos estragos. O problema é o nível desses estragos, pois o drogado chega a ponto de roubar ou matar para sustentar o vício, enquanto o bêbado raramente chega a tanto. O dependente de drogas geralmente usa álcool, mas o alcoólatra muito raramente consome drogas. 

E há ainda que se considerar que mesmo nos tempos da lei seca, nos Estados Unidos, o crime organizado não chegou ao estágio alcançado pelos traficantes de drogas, com o nível de violência e comprometimento social da atualidade. Hoje, na guerra do tráfico, há muito mais inocentes prejudicados que naquela época, durante a guerra do álcool, quando a Máfia ainda cultivava princípios de honra e lealdade.

Direta ou indiretamente, a sociedade brasileira também se mostra tolerante e muitas vezes se simpatiza com aqueles que fazem apologia das drogas. Em plena luz do dia, a televisão exibe filmes nos quais, vez ou outra, aparece alguém fumando maconha ou cheirando cocaína numa cena totalmente fora de contexto – já que o filme em questão não está necessariamente abordando a temática das drogas.

O cinema brasileiro também parece aderir a essa mania. O filme Divã, por exemplo, tem uma cena totalmente despropositada na qual a protagonista Mercedes, interpretada por Lilia Cabral, aparece fumando maconha com o namorado interpretado por Reynaldo Gianecchini. A sequência termina com ela rindo nas fuças de um guarda que os aborda em flagrante no carro. O curioso é que não se fala mais no assunto e não fica claro se houve ou não alguma punição para o casal.

Esse tipo de situação exposta com naturalidade nas telas da TV e do cinema não deixa de estimular jovens desavisados a experimentar drogas, ainda mais quando a cena é exibida gratuitamente, como se fizesse parte da rotina de vida de pessoas absolutamente “normais”. Fumar baseado parece ser uma coisa legal. Se fosse um filme ou novela sobre drogas, teria sentido, mas não podemos passar a ideia de que fumar maconha ou cheirar cocaína seja tão natural quanto beber um copo de cerveja ou uma dose de uísque.

Moralismos à parte, não é uma simples questão de censura ou proibição. O que falta é abordar o problema de frente, sem hipocrisia. Mas como, se algumas escolas se veem intimidadas pelos pais até mesmo quando tentam abordar temas relacionados à educação sexual? Este e outros assuntos polêmicos, como drogas, álcool e até mesmo educação no trânsito deveriam ser englobados por uma disciplina que ensinasse noções de cidadania, direitos e deveres do cidadão, servindo de alerta para crianças e jovens cujos pais muitas vezes evitam ter esse tipo de conversa com os filhos.

Outra coisa que se deve levar em conta é que o jovem pé-de-chinelo que vende drogas nas bocas de fumo certamente trabalha indiretamente para bandidos das classes média e alta. Não fosse assim, a julgar pelo número de clientes e pelo preço das drogas no varejo, as favelas seriam calçadas com ouro e diamantes e os presídios seriam verdadeiros palácios financiados pelos narcotraficantes.

    

Este post tem um comentário

  1. Gustavo

    Boa tarde
    Quanto ao citado no 5 paragrafo: “O problema é o nível desses estragos, pois o drogado chega a ponto de roubar ou matar para sustentar o vício, enquanto o bêbado raramente chega a tanto”
    Essa afirmação faz sentido se o drogado em questão usar crack(ou cocaina descontroladamente), agora se o “drogado” for um usuário de maconha, a história se inverte,os estragos no cachaceiro são bem maiores(vide brigas com esposa, espancamento em filhos, armas, etc) enquanto muitos “maconheiros” trabalham , estudam, tem suas empresa, tem cargos no governo, na polícia, etc.

Deixe um comentário