
A participação e a derrota do filme brasileiro O agente secreto no concorrido Oscar deste ano serviu para evidenciar o nosso “complexo de vira-lata” – termo cunhado pelo saudoso Nelson Rodrigues. De um lado, artistas de esquerda fazendo de tudo para conquistar a premiação hollywoodiana; de outro, a torcida contrária das lides bolsonaristas, irritadas com o ator Wagner Moura por criticar Bolsonaro e fechar os olhos aos escândalos que hoje sacodem o país.
Devemos nos lembrar que houve um tempo em que os adeptos do Cinema Novo (quase todos de esquerda) desprezavam Hollywood, considerando suas produções instrumentos de colonização cultural. A galera preferia o cinema de arte europeu. Ou seja, a estética de gênios italianos, como Antonioni, Luchino Visconti e Federico Fellini, bem como dos franceses da Nouvelle Vague: Alain Resnais, François Truffaut e Jean-Luc Godard.
Felizmente as coisas mudaram, pois nem tudo que Hollywood produz pode ser considerado lixo cultural ou mero instrumento de colonização. Pelo contrário, os níveis de produção dos filmes americanos saltam aos olhos do espectador atento, mesmo quando se trata de produções comerciais ou dos chamados filmes B.
Ainda que esteja engajada na cultura woke ou no “politicamente correto”, fato é que a turma de lá aprendeu na prática que cinema é puro entretenimento e, como tal, deve ser realizado. Esse é o segredo do influente e invejado êxito hollywoodiano em todo o mundo. É por isso que nossos artistas (mesmo os militantes de carteirinha) estão sempre em busca de um Oscar para chamar de seu.
Narrativa arrastada
Pioneiro do cinema nacional, o mineiro Humberto Mauro dizia que “cinema é cachoeira”. Ou seja, é antes de tudo movimento contínuo. Pena que boa parte dos nossos cineastas ignore esse fato, estando mais interessados em “salvar” a humanidade do que em fazer bons filmes. Quem assistiu a O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, não pode negar que se trata de uma narrativa arrastada e, algumas vezes, desconexa.
A primeira sequência do filme, quando Marcelo (Wagner Moura) se depara com um cadáver num posto de gasolina, não apresenta nenhuma ligação com o resto da história. Do ponto de vista do cinema americano, trata-se de um erro imperdoável. Na estética hollywoodiana, tudo que aparece em cena precisa estar ligado ao fio condutor da narrativa principal.
Outros dois exemplos são as sequências do alemão (interpretado por Udo Kier) e da Perna Cabeluda, que aparece escoiceando casais num parque erótico da cidade. Ela foi inspirada no folclore urbano do Recife, mas serviu apenas para encher linguiça e quebrar o suspense da trama, acrescentando ao filme um toque de humor grotesco e quase ridículo.
Banho de indústria
Ainda que tenha qualidades, a começar pela excelente performance de Wagner Moura, a verdade é que a produção reuniu um elenco irregular, que em muitos casos beira o amadorismo. Mesmo a simpática estreante septagenária Tânia Maria, aclamada no papel de Sebastiana, não apresenta nada de excepcional – a não ser o fato de interpretar a si mesma.
Contudo, há que se reconhecer o bom desempenho de atores experientes. Além de Moura, destacam-se Rodney Vilela, Carlos Francisco, Maria Fernanda Cândido, Thomas Aquino e os excelentes Robério Diógenes e Luciano Chirolli (no papel do caricato vilão da história). O argumento, no entanto, é fraco e sequer justifica o desenrolar da trama.
O filme prende a atenção, mas não emociona. Sem dúvida, sua principal qualidade é a cenografia, cujo ponto máximo é a reconstituição de época. Figurinos, objetos de cena, imagens e sons proporcionam ao espectador uma viagem à segunda metade dos anos 70, quando o país era governado pelo general Ernesto Geisel – cuja foto oficial aparece algumas vezes. Bom lembrar que seu governo suspendeu o tratado militar com os Estados Unidos, iniciou a abertura política e foi o primeiro a reconhecer a independência de Angola.
Em suma, trata-se de um filme com mais defeitos do que qualidades. Sem querer comparar – e já comparando – Ainda estou aqui se destacou pela verossimilhança da narrativa adaptada do livro de Marcelo Rubens Paiva, bem como pela excelência do elenco encabeçado por Fernanda Torres. Talvez tenha faltado à equipe de O agente secreto seguir o conselho dado pelo vilão aos universitários de Pernambuco. Para agradar Hollywood, convém primeiro tomar “um banho de indústria”.
Meu caro amigo Jorge Fernando dos Santos, gostei muito de seu artigo sobre o filme “O Agente Secreto” e a indústria cinematográfica. O Oscar que eles esperavam gorou. Gorou mais uma vez. Essa turma ideológica faz muito barulho por nada. Muita trovoada, pouca chuva. Ou nenhuma. Mas não aprendem. Não precisamos de Oscar. Temos Oscar Niemeyer. Temos Oscarito e Grande Otelo. Temos Oscar Dias Correia. O filme não deve ser grande coisa mesmo, como os adeptos alardeiam e fizeram até Carnaval antes da hora. E deu no que deu. Não vi o filme, nem quero ver. Prefiro rever “Cinema Paradiso ” e “A vida é bela”. Você analisou muito bem o tal filme e a conjuntura política da Era Geisel.
Pois é….
Coloquei duas vezes esse filme para ver e não terminei.
Ele não me prendeu, não me provocou, não me encantou…
Estou pensando até agora o motivo de ter abandonado antes de terminar.
Com certeza vou ver em algum momento.
E um VIVA para o fime AINDA ESTOU AQUI!
Prezado Jorge, li seu comentário e o do Marcus Freitas. Baseado neles não quero nem assistir.
Como sempre o seu artigo é muito bom, mas, em que pese os seus argumentos, ainda considero o filme excelente, não é atoa que ele conquistou vários prêmios, incluindo melhor ator e direção em Cannes, além de quatro indicações ao Oscar. Não ganhar, nesse caso, não é sinônimo de qualidade.
Ainda não vi o filme; valeu pelas dicas; poetas e escritores são gente exigente que tudo veem com suas lentes de aumento. Abraço
Muito bom o artigo e também os comentários !
Só me falta ver o filme …
Obrigado a todos!
Terei que assistir esses últimos filmes badalados daqui uns anos… principalmente quando o deus molusco se aposentar.
No momento, mesmo que tenham valores – qualidades razoáveis -, provavelmente farei questão de não ver ou verbalizar.
O cinismo e a hipocrisia estão no ar, contaminando nossas percepções.
Jorge, achei o filme tão ruim, mas tão ruim, que não consigo ver nem qualidades localizadas. Wagner Moura está desperdiçado, atua como se não fosse com ele, dado que o roteiro é péssimo. O som é pavoroso, não se entende nada. A fotografia é ridícula. O cinema novo tinha fotografia ruim porque não tinha dinheiro. Kleber Mendonça, esse pseudo cineasta, tem dinheiro mas tem tanta vontade de ter sido cinemanovista que destrói o que faz com imitação barata. Uma câmera na mão e nenhuma ideia na cabeça. A história pode ate ter perna cabeluda, mas não tem pé nem cabeça. O personagem chega no Recife em um domingo de carnaval e semanas depois é terça feira de carnaval.
o personagem vê um filme de Belmondo na TV em 1977, mas o filme foi feito em 1981.
Como morreu o personagem? A única pessoa que sabia do endereço dele morreu antes. Como morreu a namorada?
Que estereótipo é aquele do industrial? Que coisa ridícula.
Maria Fernanda Candido prova uma vez mais que é uma atriz de quinta categoria, não sabe nada de interpretar.
Em suma: um lixo. Tudo desamarrado, mal contado, mal editado, mal interpretado, mal dirigido.
“Ainda estou aqui” é uma obra prima, Walter Sales um cineasta de primeira grandeza. O Agente Secreto é um filme de presidente de DA de comunicação, seu diretor um tolo enfatuado.
Só para completar: para mim, Valor Sentimental é o maior filme do ano, da década, do século 21 até aqui. Renate Reinzve é um deusa, um gênio, uma superestrela.
Mais um artigo de enorme qualidade. Quanto ao filme nada direi, pois nao assisti, e nao vou assistir.
Nao gosto da qualidade de filmes brasileiros, seja pelo roteiro, sempre os mesmos temas, técnica, principalmente o som, e a capacidade do diretor.
Gostava mais do Mazzaropi
Valeu, meu amigo.
Eu gostei muito do filme! E ele estava entre os 5 melhores do Oscar. Então…
O melhor e o pior são sempre relativos, minha amiga.
Li seu artigo com atenção e confesso: senti que também preciso “tomar um banho” desse filme — mesmo sem ter assistido ainda 🙂
Você trouxe pontos muito interessantes sobre narrativa, indústria e o lugar do nosso cinema no mundo. Fiquei ainda mais curiosa para viver essa experiência na tela e formar minha própria impressão. Obrigada pela reflexão.
Apenas um “preâmbulo conjuntural”: a esquerda brasileira prova do veneno que fabricou durante décadas
Quando fomos tricampeões de futebol, jogadores da Seleção Canarinha foram hostilizados e acusados de “garotos propaganda da ditadura”. E eles apenas jogaram o (muito) que sabiam.
Quanto ao “Cinema do Bem” nacional, a esquerda o confinou ao período da Revolução de 1964. Haja visto nossos dois mais recentes porta-vozes (cineastas e atores).
O Brasil é bem maior do que esse monólogo artístico: quando o filme chega, a “classe” (?????) cultural já falou tanto, que poucos querem ouvir mais.
Talvez seja o momento de se ser agentes um pouco mais discretos.