Inimigo público

Ele nunca tinha matado ninguém. Pior que isso, nunca tinha roubado, estuprado ou traficado seja lá o que fosse. Por isso mesmo foi condenado à pena máxima: 150 anos de trabalhos forçados ou redução da pena mediante morte súbita. Somente assim a sociedade pôde respirar aliviada. Tratava-se do inimigo público número um. Aquele que, desde a infância, recusava-se a cometer qualquer tipo de delito, por menor que fosse.

 

Tudo começou aos sete anos de idade, quando ele cedeu seu lugar no ônibus a uma velhinha. Todo mundo ficou surpreso e os vizinhos que se encontravam a bordo chegaram a comentar o fato. Mas ninguém levou aquilo muito a sério. Ele é só uma criança, alguém comentou.

 

Alguns dias depois, o que parecia ter sido uma simples travessura da infância aconteceu novamente. A mãe, que estava com ele, não teve outra alternativa senão repreendê-lo na frente dos demais passageiros, que já se mostravam injuriados com o menino.

 

Já aos 13 anos, ele se recusou a consumir uma droga oferecida pelo primo, que era seu colega no primeiro grau. A notícia logo se espalhou e tanto a família quanto a diretora do estabelecimento de ensino se horrorizaram. O ópio custa tão caro e esse menino simplesmente não aceita a oferta do primo que tanto o admira? Quem ele pensa que é? – muitos comentaram.

 

E ele continuou ignorando esse tipo de  pressão. Aliás, acostumou-se com aquela forma de tratamento. Consciente de sua própria rebeldia e – por que não? – orgulhoso de ser um adolescente do  tipo  rebelde  e contestador, foi várias vezes suspenso da escola e quase tomou bomba por questionar os ensinamentos antiéticos de seus professores.

 

Os pais já não sabiam mais o que fazer. O padrinho, que além de ser seu tio era também um deputado federal várias vezes investigado por corrupção – e por isso mesmo reeleito duas vezes para o cargo – simplesmente rompeu os laços afetivos com a família. Não quero ser lembrado como parente de um caso perdido como esse, justificou. Seu irmão, pai do garoto problema, lamentou o fato. Como sempre fazia, castigou o filho, passando-lhe uma descompostura e repetindo as desvantagens de ser uma pessoa que não se mostra enquadrada no sistema.

 

Aos 17 anos, o jovem problema cometeu um legítimo ato de atentado ao pudor. Em plena fila de alistamento militar, socorreu um recruta que, estando de sentinela há várias horas, desmaiou sob o intenso sol do verão. Se você fosse um militar, seria levado à corte marcial, disse um sargento, furioso diante do fato inusitado jamais ocorrido em seu pelotão. Dispensado do serviço obrigatário, conseguiu arranjar emprego numa agência bancária da cidade. Mas não durou muito no emprego. Acabou sendo demitido por justa causa depois de se recusar a tomar parte num desfalque planejado pelo gerente.

 

Jamais pensei criar um filho pra isso, desabafou o pai numa discussão em família. Trabalhar honestamente como caixa de banco, isso é um absurdo! Calma, pediu-lhe a mulher, sempre paciente. Ele é ainda muito jovem, há de aprender com a própria vida.

 

Não aprendeu. E por isso mesmo, aos 30 anos, tendo já uma enorme ficha criminal – que incluía multas de trânsito por respeitar o sinal vermelho e por jamais estacionar em fila dupla – acabou sendo preso em flagrante ao tentar salvar uma jovem de ser estuprada por um padre dentro de uma igreja do seu bairro.

 

Apesar de nunca ter aprovado suas atitudes, o pai contratou os serviços do melhor advogado da cidade, um eminente professor de Direito que já havia tirado da cadeia vários chefões do crime organizado. Tudo foi em vão, pois a promotoria agiu com incrível competência, apresentando várias testemunhas e comprovando todos os crimes praticados pelo réu.

 

No final do demorado julgamento, que catalisou a atenção da imprensa e mobilizou a opinião pública do país, o veredicto foi unânime. Um elemento de tamanha periculosidade, verdadeira ameaça aos interesses do sistema vigente, não poderia continuar às soltas, incomodando as pessoas normais que obedecem cegamente aos mandamentos da lei de sobrevivência.

 

Hoje, ele está confinado numa cela escura em alguma das penitenciárias privadas do país, cuja especialidade é justamente punir aqueles que se recusam a levar vantagem na vida. Um país onde os homens honestos andam sempre de cabeça baixa, porque é isso que lhes convém.

 

* Conto publicado na revista da Academia Mineira de Letras, aqui dedicado ao amigo e grande jornalista Dídimo Paiva.

 

Este post tem 3 comentários

  1. Daniel Macedo

    Muito bom! É fantasticamente realista. Me lembrei de muita gente, de muitos genes, a começar por Machado, com seu Alienista, e J.J. Veiga de Os Cavalinhos de Platiplanto – que saudade! – entre tantos… E agora me chegaram o Murilo Rubião e o Luís Vilela aqui, além de outros latinos. Há um conto de Lindolfo Paolielo – procure, ele não tem muitos livros – em que um dentista resolve, de supetão, passar a usar um nariz de palhaço. Li faz eras! Abs., Daniel.

    Muito bacanas os desdobramentos.

  2. Luiz Dornelas

    Meu muito obrigado ao grande amigo Dídimo Paiva (que há muito, mas muito tempo eu não vejo), por te lembrar de trazer ao lume esse belo conto.

    Luiz Dornelas

  3. Cristina

    Jorge:

    Um belo conto, para se refletir sobre os valores da vida.

    Abraços,

    Cris

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