Domínio público

Certa vez, minha filha Bárbara trouxe para casa uma folha de papel contendo um exercício de Português. Mostrou-me um dos textos impressos e perguntou se eu já tinha lido aquilo em algum lugar. A frase estava assinada por um tal de “Domínio Público”. Peguei na estante de livros a coletânea de fotos e textos intitulada Imagens de Minas, publicada em 1986 pela Editora Ática em convênio com a Rede Globo, e reli em voz alta:

– Todo mineiro tem um trem de ferro apitando nas veias, uma montanha brilhando nos olhos e uma banda tocando nos ouvidos (assinado: Jorge Fernando dos Santos).

Bárbara se sentiu orgulhosa e perguntou se poderia mostrar o livro à professora, no dia seguinte. Abri o armário de aço onde guardo clippings e outras publicações e revirei a papelada até encontrar um calendário do Sesc e um folder sobre um projeto de bandas de música desenvolvido pela Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, ambos ilustrados com o mesmo texto devidamente assinado. No dia seguinte, a professora se desculpou por desconhecer a autoria. 

Narro esse episódio para mostrar o quanto pode ser surpreendente o ofício de escritor. Publiquei vinte e tantos livros, centenas de artigos, crônicas, reportagens, peças de teatro e letras de música, mas vira e meche me deparo com a tal frase impressa em algum lugar. Já a encontrei em vários sites, num cartaz do Museu Ferroviário de Juiz de Fora (junto com um verso de Fernando Brant e Milton Nascimento), no forro de mesa de papel de um restaurante chique de Tiradentes e até na biografia da atriz norte-americana Joan Crawford, escrita por um fã ardoroso. Recentemente, deparei com ela silkada numa camiseta e sem a devida autoria. Por isso fiz questão de incluí-la na página principal do meu site, antes que bata asas e se torne de fato “Domínio Público”.

Escrevi essa frase a pedido do jornalista Angelo Prazeres, cronista dos melhores da imprensa belo-horizontina. Ele trabalhava no gabinete de Murilo Rubião, diretor da Imprensa Oficial de Minas Gerais durante o governo Tancredo Neves. De vez em quando eu aparecia por lá, para tomar um café, bater papo e saber das novidades. Era sempre agradável conversar com Gilu, Robinson Damasceno, Branca Maria de Paula, Adão Ventura, Manoel Lobato, Duílio Gomes e outros funcionários da Imprensa.

Certa tarde, assim que cheguei, Gilu me pediu um texto para ilustrar uma das fotos selecionadas pela Branca para o tal livro que seria patrocinado pela Rede Globo. Sentei diante da Olivetti e escrevi três frases. Ele fez sua escolha e fiquei profundamente grato pela oportunidade de figurar ao lado de quase 50 autores, a maioria do primeiro time.

O livro ficou lindo, com fotos em preto e branco sobre temas relacionados a Minas Gerais e ao jeito mineiro de ser. A seleção da Branca foi excelente. Para minha (nova) surpresa, tempos depois minha frase foi parar num programa da Rede Manchete, intitulado Terra Mágica. Um amigo telefonou dizendo para eu sintonizar o canal, pois o meu nome estava no vídeo enquanto um locutor falava o texto de minha autoria. Quando liguei a TV, só deu tempo de ver a maria-fumaça serpenteando ao pés de uma serra.

Assisti ao programa e me senti novamente realizado, pois o meu texto havia sido escolhido juntamente com um verso de Drummond, uma frase de Guimarães Rosa e outra de Fernando Sabino. Fomos os quatro autores selecionados pelo produtor do programa. Curiosamente, estamos novamente reunidos no forro de mesa de papel do tal restaurante chique de Tiradentes. 

Por essas e outras é que admiro a sabedoria dos ditos populares. Afinal, “de onde não se espera é que vem”. Confesso, sinceramente, que não tinha nenhuma expectativa quando escrevi esse texto a pedido do Gilu. Na verdade, a primeira parte (“Todo mineiro tem um trem de ferro apitando nas veias”) eu havia dito ao Fernando Brant, num papo descontraído em frente à Casa dos Jornalistas, durante uma manifestão pelas Diretas Já. Quando Gilu fez a encomenda, lembrei da conversa e completei o pensamento, tentando captar três imagens que pudessem caracterizar o mineiro típico. Só espero que esse texto não me sirva de epitáfio, pois, francamente, acho que já escrevi coisas melhores depois disso.

 

Este post tem 3 comentários

  1. Fernando Silva

    Boa tarde,
    Sou Professor/Encenador de Teatro Amador numa Universidade Sénior (U.S.G.) em Gondomar Porto.
    Gostaria de saber se me podem facultar ou dizer, onde posso encontrar Peças de Teatro – Comédias – em um e dois actos de Autores Portugueses.
    As pessoas (Alunos/as) desta Universidade, têm uma grande afeição por esta área do Teatro Cómico.
    Se vos for possível atender a este meudesejo, gostaria de ser contactado para o meu E-mail ou para a Universidade Sénior http://www.usg.jf-gondomar.pt em nome de Prof. Fernando Silva.
    Desde já recebam os meus mais cordiais agradecimentos,
    Sem mais,
    Fernando Silva

  2. Janislei

    Já vi no peito de um amigo uma camiseta com esse texto ,q o mesmo comprou no Paraná.
    Bom saber de quem é a frase,isso só engrandece a nossa mineiridade.

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