Credibilidade em primeiro lugar

O curso de jornalismo nos ensina que o primeiro compromisso dos jornais deve ser com os leitores. Esse é um dos grandes ensinamentos que a escola nos dá. No entanto, na prática diária da profissão, aprendemos a duras penas que a coisa nem sempre funciona desse jeito. Isto é, o primeiro compromisso dos jornais muitas vezes é com o anunciante, com o “amigo da casa”, com aquele que exerce o poder.

 

Agora que o diploma de jornalismo deixa de ser necessário para o exercício da profissão, quem dirá aos novos profissionais que seu compromisso deve ser com os leitores? Quem vai ensinar aos “focas” noções de ética e dizer a eles que a notícia não tem um nem dois, mas vários lados a serem ouvidos? Se depender da maioria dos patrões e de seus “homens de confiança”, certamente ficará claro que o compromisso do repórter é cumprir ordens e escrever o que lhes mandam.

 

O jornalismo é um ramo de negócio como outro qualquer. Precisa ter receita para custear as despesas. Receita essa obtida por meio da publicação de anúncios e de matérias pagas. Até aí não há nada de errado ou imoral no negócio. O que não pode é sonegar informações aos leitores para agradar a quem quer que seja. Lamentavelmente, esse tipo de comportamento não é raro no Brasil. Com isso, políticos e empresários poderosos sentem-se blindados contra escândalos e denúncias. O tráfico de influência na mídia favorece esse tipo de gente. Isso quando não são eles os próprios donos dos veículos de informação.

 

O que muitos empresários do ramo jornalístico não percebem é que pouco a pouco essa prática prejudica a imagem do veículo diante da opinião pública. No século 21, os leitores estão cada vez mais bem informados, pois ouvem rádio, assistem TV e estão conectados à Internet.

 

O jornal deixou de ser a única fonte de informação ao alcance do cidadão. Pelo contrário, tornou-se uma fonte secundária, quase sem importância no cenário das novas mídias, principalmente quando tenta competir com elas no quesito velocidade. Por isso não é mais possível enganar a ninguém. Sem credibilidade, os leitores fogem, o jornal não vende e os anunciantes desaparecem.

 

O escritor inglês George Orwell, autor de clássicos como 1984 e A Revolução dos Bichos, considerava que jornalismo é a arte de noticiar alguma coisa contra a vontade de alguém. Todo o resto seria mera publicidade. Na era das celebridades, o que menos se lê são notícias. Mesmo um escândalo bem forjado serve ao interesse daqueles que querem se promover a qualquer custo. Com isso, mentiras e verdades se confundem sob o manto da notícia enquanto o leitor se sente confuso diante da intriga. A vida e a morte de Michael Jackson é um bom exemplo disso. Realidade e fantasia se misturam no mundo dos mitos e é praticamente impossível separar uma coisa da outra.

 

Pressionados pela concorrência dos meios eletrônicos, os jornais diários foram deixando de praticar a investigação e a análise da notícia. A maioria repete informações à exaustão e apressadamente, sem chegar a nenhuma conclusão sobre os fatos. Com isso, perde-se o crédito junto à opinião pública. Basta um veículo denunciar um suposto escândalo para que os concorrentes repliquem a notícia sem maiores preocupações com a verdade. Não há diferencial no material divulgado. No final das contas, os leitores se sentem perdidos diante da espetacularização da notícia.

 

Em outras palavras, a falta de ética no exercício do jornalismo certamente é um dos fatores que mais prejudicam os jornais. A notícia mal apurada e o fato noticiado a serviço de terceiros ajudam a minar a credibilidade desses veículos. Consequentemente, na medida em que as pesquisas de leitura revelam a queda nas vendas, os anunciantes se afastam e lá se vão os recursos que dão sustentação ao negócio.

 

Claro que uma publicação pode apoiar uma empresa, um partido político ou determinado governante. O correto, no entanto, seria esclarecer a decisão nos editoriais, explicando o porquê da escolha e apontando as qualidades do provável “amigo da casa”. No entanto, essa escolha jamais deveria prejudicar o noticiário. No mundo das novas mídias, a mentira tem pernas curtas. A notícia tem vários meios de ser divulgada e supor que a autocensura não será desmascarada é no mínimo uma ilusão, uma burrice sem tamanho, que compromete a credibilidade e a própria sobrevivência da empresa jornalística.

 

* Publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 07/07/2009.

 

 

Este post tem 2 comentários

  1. Caro Jorge, é preciso que o leitor se mantenha sempre atento, ao descompasso entre a ética e a técnica, que infelizmente, mesmo com todos os avanços, tende a continuar nos meios de comunicação, com ou sem diplomas. Um abraço, Armando.

  2. Bill Falcão

    É o tal do “capetalismo”, Jorge! Que impera sobre a ética em todo lugar, mundo afora. Não creio que seja preciso ficar quatro anos numa faculdade pra saber disso. É coisa que vem de berço, como diziam nossas avós. Os donos da mídia podem até vir de bons berços também, mas esqueceram algumas lições fundamentais atrás de suas mesas de negócios.
    Aquele abraço!

Deixe um comentário