Jorge Fernando dos Santos

Emergência radioativa

Johnny Massaro interpreta o jovem físico Márcio, personagem principal da nova série da Netflix

Nem só de temas políticos, violência urbana e comédias banais vive o cinema brasileiro contemporâneo. Quem duvidar que assista ao drama Emergência radioativa, que acaba de estrear na Netflix. Trata-se de uma série quase documental sobre a tragédia do Césio-137, ocorrida em Goiânia, em 1987. Foi um dos maiores acidentes radioativos do mundo, ao lado daquele ocorrido no ano anterior, em Chernobyl, na antiga União Soviética.

Criada por Gustavo Lipsztein e produzida por Gulanne, a série de cinco episódios reconta a história nos mínimos detalhes, acrescentando aos fatos o necessário tempero ficcional. Tudo começa quando dois catadores adentram os escombros de uma clínica de radioterapia, que encerrara suas atividades sem recolher um aparelho cujo miolo é constituído de Césio-37, elemento químico altamente radioativo.

Nada de mau teria ocorrido, se os donos da empresa tivessem notificado a Comissão Nacional de Energia Nuclear, para que fossem tomadas as devidas providências quanto àquele tipo de lixo hospitalar. Depois de recolher a capsula de chumbo que reveste o tal aparelho, a dupla de catadores a oferece a Evenildo (personagem inspirado em Devair Ferreira), dono de um ferro-velho na cidade.

Inadvertidamente, Evenildo não apenas manda desmontar a capsula, como leva para casa, em sua marmita, o pozinho azul-luminoso que dela se desprendera. Dias depois, sua esposa adoece, apresentando sintomas de enjoo, queda de cabelo, dor de cabeça e feridas no corpo. Desconfiada, ela resolve levar a tal marmita contendo o pozinho até uma unidade da Vigilância Sanitária, sendo então  encaminhada a um posto de saúde.

Cenário de ficção científica 

Intrigado com os sintomas apresentados por vários de seus pacientes, o médico do posto aciona o amigo Márcio, que acabou de se formar em Física e está passando alguns dias na cidade em companhia da esposa. A partir daí, Goiânia se transforma num cenário de ficção científica. A narrativa torna-se intensa a cada capítulo, evidenciando o heroísmo de médicos e cientistas empenhados em salvar vidas e evitar que o problema se torne ainda mais grave.

A série tem direção de Iberê Carvalho e Fernando Coimbra, autor do roteiro em parceria com o próprio Gustavo Lipsztein, além de Rafael Spínola, Stephanie Degreas e Fernando Garrido. O elenco reúne Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Bukassa Kabengele, Ana Costa, Tuca Andrade, Leandra Leal, Antonio Saboia, Clarissa Kiste, Alan Rocha e muitos outros.

Não se trata de uma produção hollywoodiana com efeitos especiais e superelenco, mas de um trabalho quase artesanal, que busca tão somente resgatar uma história que jamais deveria ser esquecida. Afinal de contas, a irresponsabilidade de alguns, a impunidade de muitos e a burocracia oficial continuam atrapalhando a vida de brasileiros que lutam para sobreviver num mar de adversidades.

O vazamento de Césio-137 provocou quatro mortes no auge da tragédia, e outras 16, nos anos seguintes. Muita gente ficou sequelada, vários imóveis tiveram que ser demolidos e isolados, e um grande depósito de material radioativo foi construído às pressas no interior de Goiás. O episódio serviu de alerta para o Brasil quanto aos perigos da energia nuclear, e o protocolo improvisado no enfrentamento da crise tornou-se um modelo para o mundo.

9 comentários em “Emergência radioativa”

  1. Eu assisti, estava na casa da sogra para o almoço de domingo e vimos o primeiro episódio, e uma coisa rara em filmes nacionais, ficamos presos e passamos ao segundo, terceiro e guardei os dois últimos para ver em casa no dia seguinte. A trama prende a gente desde o início. Gostei muito.

  2. não fosse a pobreza franciscana dos cenários, com a minudência da criação dos personagens, a garra com todos os atores sem exceção agarram seu papeis, o Brasil teria criado uma obra-prima.
    raro, muito raro, tenho visto tanto cuidado ddos atores (valeu também a direção) criando seus papeis. parabéns!

    1. Estimado Jorge, simples, mas de conteúdo que nós remete às lembraças do ocorrido em Goiânia.
      Por falar em descaso, guardando as devidas diferenças, me fez lembrar da invasão de um cidadão, à noite, ao pátio do IML de Belo Horizonte e levar dali um veículo rabecão.

  3. Gostei muito do seu artigo, achei o texto bem escrito, claro e muito bem estruturado. A forma como você descreve a série torna a leitura envolvente e, ao mesmo tempo, necessária. Vou assistir à série para conferir essa abordagem que mistura realidade e ficção de forma tão instigante.

    Em um momento em que questões nucleares e radioativas voltam ao centro de debates globais, refletir sobre acontecimentos como esse mais do que importante é essencial. Ponto para os responsáveis por essa realização.

  4. Vendo o filme fiquei a imaginar os efeitos de uma “bomba suja” se lançada em qualquer lugar do mundo. Impressionante que um país com pouco recursos como o nosso e na região onde o material radioativo fez os estragos, a tragédia não trouxe proporções maiores.

    1. Augusto Carlos Duarte

      Grato pela excelente dica (como sempre), meu caro Jorge Fernando!
      E lá se vão quase quarenta anos?
      Para muitos, talvez seja difícil dimensionar os resultados da irresponsabilidade e do descaso para com um equipamento com tal poder letal, quando não utilizado com os devidos cuidados.
      Em tempos de acidentes fatais com simples panelas de pressão, ou carregadores de celulares, o episódio do Césio-137 foi uma Hiroshima, salvas as devidas (e enormes) proporções.
      Importantíssimo voltar ao tema, agora que contaminações são “naturalizadas”.
      Reitero os agradecimentos, estendendo-o aos que participaram do projeto.
      Literalmente, vital!

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