Jorge Fernando dos Santos

O abandono da literatura

Por falta de funcionários, Biblioteca Pública Estadual não recebe mais doações para o seu acervo

Em meados do ano passado, fui até à sede da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais (ex-Luiz de Bessa), na Praça da Liberdade, levando alguns livros de minha autoria para a Coleção Mineiriana. Para meu orgulho e realização, tenho lá cerca de 60 exemplares de obras diversas, mas constatei no site da instituição que alguns títulos ainda não constam do precioso acervo.

Tal não foi a minha decepção ao ser informado que o recebimento de doações estava suspenso, devido à falta de funcionários para executar o serviço. Recentemente, enviei um e-mail à instituição, indagando se o problema já tinha sido resolvido. A resposta, infelizmente, foi negativa. Pior ainda, a funcionária informou que não há previsão de quando as doações voltarão a ser aceitas.

Conversando com uma bibliotecária da Rede Estadual de Ensino, fico sabendo que sua escola não adota livros e raramente os alunos têm tido aulas de Literatura. Pelo visto, o estafe do ex-governador Zema, que deixou o cargo para disputar a Presidência da República, desconhece a máxima de Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. Apelo ao seu sucessor, Mateus Simões, no sentido de socorrer a Biblioteca e estimular a adoção de livros nas escolas estaduais.

Infelizmente, a questão não se restringe ao governo estadual. No final do ano passado, ao participar de um evento na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, fiquei sabendo que a entidade também não aceita doações. Nessa hora, pensei comigo: se o governo não compra novos exemplares e a biblioteca recusa doações, brevemente o acervo estará gasto e desatualizado.

“Liberais” e “progressistas”

Não bastasse a queda na compra de livros pelos governos para distribuição às bibliotecas e escolas públicas em várias partes do país, fato é que a Literatura perdeu seu prestígio na educação brasileira. Mesmo em escolas particulares, a adoção de livros e o estímulo à leitura têm caído a olhos vistos.

Esse fato é de extrema gravidade, principalmente se levarmos em conta que crianças, jovens e também adultos se tornam cada vez mais viciados nas redes sociais e em jogos eletrônicos (que raramente vão além do mero entretenimento). A escola, de modo geral, parece ter esquecido que ensinar a pensar é sua principal função.

Já foi provado que o hábito da leitura desenvolve importantes áreas do cérebro humano. Sem isso, não há ensino pleno ou educação que se consolide. Tanto é verdade que países desenvolvidos estão limitando o acesso de estudantes à internet e estimulando a adoção de livros em salas de aula. Afinal de contas, a escrita e a leitura são a base do conhecimento desde o início da civilização.

Infelizmente, o Brasil insiste no atraso e na ignorância coletiva. Enquanto os nossos “liberais” parecem ignorar a importância dos livros e da leitura na formação educacional, os “progressistas” de plantão optam pelas obras politicamente corretas, ou destinadas à mera doutrinação ideológica. Em outras palavras, o hábito de ler, refletir, questionar e expressar ideias nunca foi tão desestimulado e perigoso como nos tempos atuais.

14 comentários em “O abandono da literatura”

  1. Imagino o sentimento de frustração dos escritores mineiros que residem em Belo Horizonte. Agora, pensem nos escritores mineiros que vivem no interior – que não devem ter seus livros na biblioteca – e mesmo são ignorados pela imprensa da capital.

  2. Danilo Carlos Gomes

    Meu caro Jorge Fernando dos Santos, seu artigo “O abandono da literatura” é muito importante e um grito veemente de alerta. Lamentável. Conheci a Biblioteca Pública Estadual nos bons tempos., quando ainda morava em BH. Lamentável ,o abandono em que se encontra. Mas, apesar de tudo, o livro de papel não morrerá nunca, mesmo neste mundo digital, eletrônico, com tudo virando máquina, I.A. e robôs para todo lado. Eu digo que Gutenberg e Aldo Manúcio nunca morrerão, nunca sairão de moda, o livro de papel seguirá firme nas livrarias. Que o atual governador de Minas Gerais volte os olhos para aquela Biblioteca da Praça da Liberdade ! E que o prefeito de BH o ajude nessa empreitada ! O bom político, o estadista, não pensa só em voto, tem que pensar muito além. precisamos de um novo JK, um novo Gustavo Capanema. Este é um terrível ano eleitoral. Esquerda e direita se digladiam ferozmente. Será que nossa Biblioteca da Praça da Liberdade vai merecer a atenção dos candidatos ? Parabéns! Abraço do Danilo Gomes.

  3. deixei belo horizonte em 2003, e nada que se possa parecer com este caos que cê nos mostra.
    muito se fala, clamando a todos os olimpos, que a juventude cada dia lê menos. é um fato.
    mas os que os clamantes não dizem é que o maior dos inimigos da leitura são as redes sociais.
    celulares ligados no almoço, e no jantar, pai, e mãe, sempre fuçando as redes sociais, cadê, já não digo o incentivo familiar, mas apenas o exemplo para a criação dos hábitos de leitura? como sempre muito bem dizia são climério joanetes, com a culpa do meu lado, pra quê eu me dar como culpado?

  4. Rivaldavio Mulato

    Nesta onda estressante que está ocorrendo neste mundo de loucuras e GUERRAS,o livro é um bálsamo, lenitivo e alento para a alma estressada e envergonhada
    deste mundo de governantes tão loucos em pleno século 21.Nossa terra é nossa mãe,a humanidade nossos irmãos.
    Só o amor constrói para a eternidade, e, onde está o amor?Fugiu dos corações humanos?
    Podemos afirmar que somos irmãos siderarais?…

  5. Querido Jorge, preocupante essa situação. Com certeza, o habito de leitura diminuiu consideravelmente nos últimos anos… Eu continuo insistindo! Aliás, adorei seu livro, Travessia no tempo! Recomendo! Abraços!

  6. João Evangelista Rodrigues

    Ei, Jorge, boa noite.
    O desprezo pela literatura e pela leitura está se tornando um fato irrefutável na maior parte das escolas brasileiras de todos os níveis.
    Também tentei doar parte de meu acervo e a biblioteca da cidade onde estou morando recusou minha oferta. Também tentei aproximar-me da rede escolar, mas minhas propostas foram igualmente rejeitadas. Uma professora disse-me sem rodeios: a literatura não faz parte de nossas prioridades.
    Sou de opinião que apesar de toda essa onda negativa, a literatura e os livros não perecerão. A razão é simples: nenhuma sociedade pode sobreviver sem a linguagem, sem a palavra articulada. A menos que nos tornamos todos afásicos , a literatura e os livros resistirão a todos os ataques. Triste ver isto acontecendo diante de nossos olhos, sobretudo em Minas, terra de grandes escritores e poetas.
    Grande abraço,
    Do amigo, João Evangelista Rodrigues

    1. Sebastião Francisco Silva Santos

      Parabéns pelos seu artigo, que é de grande relevância.
      Infelizmente não podemos concordar e nem aceitar está indignação que esta acontecendo.
      Me perdoe a expressão cada dia mais eu acredito que vivemos em lugar onde as bananas comem os macacos.

  7. Oi Jorge.
    Parece que Gutemberg foi novamente sepultado depois de mais de 500 anos.
    E-book, audiobook, podcast,
    Sera que vamos virar dinossauros?
    E o mundo vai rolando….

    1. Jorge, que texto necessário e urgente! Parabéns!
      O descaso com o livro e com a literatura fere a razão e o coração.Todas as Prefeituras, Escolas e Bibliotecas deviam ler suas palavras e a sua indignação.
      Concordo com os assuntos que vc focalizou e desejaria que as políticas públicas também o fizessem e cumprissem o seu papel na formação de um Brasil Literário.

  8. Me disseram que o fim do mundo se aproxima. Não estou tão certa disso, mas que a humanidade anda cavando sua cova lá isso já se vê! A regressão cognitiva anda a passos lentos ! 😳😢

  9. Augusto Carlos Duarte

    Certa feita, perguntaram ao comediante Groucho Marx se ele não achava que a televisão acabaria com o hábito da leitura
    Respondeu ele negativamente, e “justificou”:
    – Lá em casa, sempre que alguém liga a TV, eu pego um bom livro e vou pro meu quarto.
    Hoje, muitos pegam seus celulares.
    O hâbito da leitura começa em casa. Onde muitos pais e filhos pegam os celulares.
    Não só as bibliotecas padecem da falta de funcionários: muitas livrarias padecem da falta de clientes. O mesmo ocorrendo com as bibliotecas.
    Onde, em razão disto, também os funcionários, antigos ou novos, ficassem ao celular.
    Mas talvez devamos perguntar aos professores, de Língua Portuguesa, ou Literatura:
    – Os senhores compram (e leem), em média, quantos livros por ano?
    A resposta talvez mude da Literatura para: “E o salário, ó”.
    “Mundo, mundo, vasto mundo,…” do professor Raimundo!

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