
Baixada a poeira tóxica das eleições e tendo cumprido compromissos literários previamente agendados, sinto-me pleno para finalmente saudar a memória de Yeda Prates Bernis. Poetisa das melhores que conheci, ela morreu em 26 de setembro, aos 100 anos de idade. Belo-horizontina, diplomada em Letras Neolatinas, foi quem me abriu os caminhos do haicai no início dos anos 90.
Yeda era a simpatia em pessoa. Escrevia versos com facilidade, como poucos poetas ainda o fazem. Artisticamente inquieta, estudou canto e piano no Conservatório Mineiro. Alguns de seus poemas foram musicados pelo maestro Camargo Guarnieri. Ganhou vários prêmios literários, integrou diversas antologias e, em 2007, foi eleita e empossada na Academia Mineira de Letras.
Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que ela me recebeu em sua casa, na Rua Araguari, para uma entrevista a ser publicada no caderno Espetáculo do jornal Estado de Minas. Foi uma tarde agradável, regada a poesia e chá com biscoitos, no melhor estilo acadêmico.
Influência decisiva
Yeda estava lançando À beira do outono, livro de poemas cujo exemplar autografado ainda guardo na minha estante. Publicação da Editora Phrasis, a obra foi dedicada ao jornalista Paulo Cabral de Araújo, seu amigo e então presidente dos Diários e Emissoras Associados. Ela era casada com o Dr. Ney Octaviani Bernis, persona grata de fino trato.
Alguns anos depois, a autora também me ofertou um exemplar de Grão de arroz, coletânea de haicais que considero sua obra-prima. Trata-se de uma edição de capa dura e vermelha, publicada pela Editora Itatiaia com projeto gráfico do excepcional artista Paulo Bernardo. Este me fora apresentado por Bartolomeu Campos de Queirós – ambos também saudosos.
E foi justamente a leitura dos haicais ali reunidos que me abriram as portas da curiosidade pelo gênero poético surgido no Japão, no século XIII, pelas mãos do poeta Fujiwara no Sadaiye. O grande mestre dessa arte, no entanto, seria Matsuo Bashô, que viveu entre 1644 e 1694, tornando-se o principal expoente dessa forma poética que tão bem traduz o espírito nipônico.
Autores nacionais
Para quem não sabe, o haicai surgiu em sintonia com a filosofia zen e a religiosidade xintoísta. Sua forma clássica constitui-se de três versos, sendo um de cinco sílabas, outro de sete e o terceiro também de cinco, totalizando 17. Não precisam rimar entre si, mas devem condensar uma imagem ou acontecimento como num lampejo de meditação.
A partir do meu primeiro contato com os versos de Yeda, fui em busca de outros autores do gênero, que se ocidentalizou devido à imigração japonesa e à curiosidade do poeta americano Ezra Pound. No Brasil, o primeiro mestre seria Nenpuku Sato, que aportou em Santos em 1927. Os irmãos Campos, Millôr Fernandes e dezenas de outros autores – entre os quais a mineira Ângela Leite de Souza – se revelariam haicaístas de mão cheia.
Como descrevo na contracapa do meu livro Pó de palavra, lançado em 2006 pela editora Paulinas (com ilustrações de Luiz Maia e um CD no qual registro os versos com textura musical de Kristoff Silva), “o haicai é a concepção máxima (do ponto de vista estético) e mínima (no sentido de quantidade) da poesia de origem japonesa. Nesse tipo de poema, também chamado de haiku, o desafio do poeta é dizer o máximo com o mínimo de palavras”.
Do Grão de arroz da saudosa Yeda destaco o seguinte haicai, com o qual dialogo logo em seguida:
A jabuticabeira.
Através de líquida cortina
olhos negros espiam.
Principia a primavera.
Veste-se de noiva
a jabuticabeira.
A centenária dona Yeda merecia a ABL. Quando ouço a palavra haicai, lembro logo de Millôr, com a sua seção na Veja, e Jorge Fernando dos Santos, com seus primores. Haicai, balão, aqui na minha mão. Xangai, Cachangá… Cachangai, haikai. Ai.
Que ótimo texto, querido Amigo!!!! E que linda e frutífera amizade com essa incrível escritora!!! Gde abraço!!!!!
Diz o ditado que “o homem (ser humano, independente do sexo) passa, a obra permanece”.
Nem sempre isso é verdade absoluta. São os casos de Yeda (“ladies first”), dos irmãos Campos, e do Millôr.
Deles, tive a felicidade de ter em mãos obras em livros. Dela, só tive acesso a algumas poesias “avulsas”. Sniiiif.
Mas esse gênero saiu do século XIII e chegou ao XXI, nem sempre poeticamente. Mas adaptado à realidade dos “tempos fluidos”.
Como assim?
Basta entrar no X, antigo Twitter, com seus 144 caracteres.
O que só ratifica o fato de quem produz textos curtos para a posteridade e quem o faz para a “instantaneidade”.
Yeda, pelo pouco que li, lapidava poesias e as transformava em joias de valor inigualável.
Belas e oportunas lembrança e homenagem, meu caro!
Meu primeiro contato com o hai kai foi com os escritos de Millôr Fernandes, na revista Veja. Eram versos coloridos e interantíssimos.
NOS VERSOS DA JABUTICABEIRA LEMBRANÇAS DE UMA VIDA AOS PÉS DA ÁRVORE SAGRADA DOS MENINOS DE ANGOLA A SAUDADE DE MEUS PAIS E OITO IRMÃOS DEBAIXO CANTALORANDO E ESCUTANDO OS CAUSOS NA ANTIGA VILA CONCÓRDIA.
Obrigado por me deixar mais culto, Jorge.
Belo texto.
Que texto fino meu caro.
Conheci o Ney.
Saudações aos que partiram.