
O ano de 1970 foi definitivo para o futebol brasileiro. A Copa do México foi certamente a mais dramática de todas para o escrete nacional. Quem tiver dúvidas a esse respeito, ou quiser reviver os momentos decisivos que marcaram a história esportiva da “pátria de chuteiras”, deve assistir à minissérie Brasil 70: a saga do Tri, produção nacional em cartaz na Netflix.
Com direção de Quico Meireles e dos irmãos Pedro e Paulo Morelli, a minissérie é uma criação dos roteiristas Naná Xavier e Rafael Dornellas, e explora os bastidores do tricampeonato mundial da Seleção Brasileira. Destacam-se no elenco Rodrigo Santoro (João Saldanha), Bruno Mazzeo (Zagallo), Lucas Agrícola (Pelé), Ravel Andrade (Tostão), Caio Cabral (Carlos Alberto Torres), Daniel Blanco (Rivelino), Gui Ferraz (Jairzinho), Val Perré (Mário Américo) e Marcelo Adnet (Eusébio Teixeira).
Vale lembrar que a Seleção Canarinha foi classificada para o campeonato mundial de 1970 num momento de total descrédito. Pelé, por exemplo, vivia o trauma de ter sido considerado morto para o esporte por boa parte da imprensa esportiva daquela época. Tal não foi sua surpresa quando o técnico João Saldanha o convidou pessoalmente para integrar a equipe que estava formando. A cena da convocação em pleno gramado, sob a chuva, é comovente.
Cenário político
A preparação do time brasileiro de 70 seria a mais controversa de todas, sendo inicialmente marcada pelos conflitos entre Saldanha e o regime militar, que desejava a vitória para consolidar sua política ufanista do milagre brasileiro. Comunista convicto, o técnico seria cassado do posto por se recusar a convocar o centroavante Dario (Victor Salomão), sob ordens do presidente Garrastazu Médici.
“Eu não escalo o ministério e ele (Médici) não escala o time”, declarou João numa entrevista que resultou na sua substituição pelo colega Zagallo. Sem lacração ou revisionismo histórico, a minissérie tem na rivalidade entre os dois técnicos um dos pontos altos. A atuação de Santoro é uma das melhores de sua carreira, rivalizando com a de Mazzeo, num excelente desempenho.
Além de reproduzir os conflitos e a camaradagem entre os jogadores, bem como os detalhes da preparação técnica e das politicagens da antiga CBD de João Havelange (Nelson Baskerville) com os ditadores de plantão, Brasil 70 recria a relação de Pelé com sua família. O artilheiro santista, que não havia atuado em todos os jogos nas Copas anteriores, teria no México a consagração como o rei do futebol.
Seu pai, Dondinho (Rogério Brito), também foi jogador e lhe dava conselhos que muito o ajudariam a superar traumas e dificuldades. Sua mãe, dona Celeste (Fania Espinosa), passa os 90 minutos de cada partida da Seleção diante do altar de Nossa Senhora Aparecida, rezando pelo bom desempenho do filho. Na minissérie, salta aos olhos a semelhança do ator Lucas Agrícola com o “rei”, bem como sua excelente atuação de estreante.
Dramas paralelos
Chega a ser comovente o drama da filha do goleiro Félix (Hugo Haddad), que sofre bullyng na escola pelo fato do pai ter fama de “fangueiro” e não constar do álbum de figurinhas da Copa daquele ano. Outra historinha paralela é a do casal de torcedores que vende um Fusquinha para custear a viagem ao México. Ambos simbolizam a paixão incondicional do brasileiro pelo esporte bretão.
A minissérie destaca o dilema dos jogadores brasileiros no momento em que o país vivia os “anos de chumbo”, com sequestros de diplomatas por grupos guerrilheiros e o peso da repressão militar sobre os opositores do regime. A militância esquerdista é sintetizada na figura da jornalista Thereza Bulhões, mulher de Saldanha, interpretada por Júlia Stockler. Ela resiste a torcer pelo escrete nacional, ciente de que os ditadores tirariam proveito da vitória.
Há que se destacar ainda a excelente reconstituição de época, obtida principalmente com efeitos especiais de última geração. No momento em que o Hino Brasileiro é quase destruído em campo pela dupla Belo e Alcione, vale recordar a presença de Wilson Simonal (Jean Pedro) na concentração das “feras do Saldanha”. Queimado pela esquerda sob a suspeita jamais confirmada de ser informante dos milicos, ele foi certamente um dos maiores cantores nacionais de todos os tempos.
Obrigado por chamar a atenção de uma série que desconhecia. A copa de 70 foi a melhor de todas que acompanhei, aliás, essa comecei a acompanhar fielmente desde as eliminatórias, com as feras do Saldanha. Este técnico, jornalista, escritor, está entre as pessoas que mais admirei. Tenho quase todos os livros dele e a biografia que fizeram dele. Um abraço.
Caio
Caro amigo Jorge Fernando,gostei do seu artigo sobre a saga brasileira na Copa do Mundo de 1970. Você conhece bem o assunto. .A cantoria de Alcione e do tal Belo foi um fiasco, coisa de amadores .Gostei da sua defesa do caluniado Simonal . As emoções do futebol se confundem com as emoções politico- ideológicas,especialmente em ano de eleições presidenciais .E ainda mais agora que a esquerda aderiu a ( crase!) camisa verde-amarela. Ancelotti é um grande técnico,mas a Seleção não é lá grande coisa,você sabe. Em outubro é que devemos ter um jogão.Abraço do Danilo
Prezado Jorge, tivemos muitas Copas dramáticas, entre elas algumas não ganhas. A Copa de 70 foi emblemática pela excelência da equipe tricampeã, forjada em meio ao regime de exceção que violentou o país por mais de 20 anos. Sua boa descrição da minissérie me motivou a querer vê-la. Obrigado e um abraço.
Lendo o artigo do Jorge sobre o filme e a copa de 70 tive a sensação de estar vendo o filme e os apaixonantes acontecimentos da época, tal a maestria do autor com a arte das palavras.Não fosse o artigo , talvez nem me interessaria em ver a série ; agora vou correr atrás!
Fiquei animada em assistir a minissérie. Adoro Copa do Mundo! Que venha o Hexa!
A Copa de 1970 é eterna.
Como eternamente ficaria conosco a taça. Se não acontecesse …
Aconteciam coisas.
Que até Deus (que alguns dizem ser brasileiro) duvidaria.
Pois é: foi a Copa do aconteceu, em meio a tantos “se”. Não só de Seleção, mas do “se não convocar…”, “se o Brasil fôr campeão…”, “se a lição…” e “se” (olha ele aí, de novo) não estou enganado, a primeira registrada em cores para as TVs.
Dribles magistrais em campo, outros não tanto, fora deles; passes precisos e finalizações desconsertantes foram a tônica. E, para não contradizer minha frase de abertura: estão para sempre em nossa memória.
Não só o futebol, justiça seja feita: a música que falava dos “noventa milhões em ação…”, idem.
Produção que chega em excelente hora.
Que venha também o hexa!
Tempos diferentes. Onde se cantava o hino com toda classe e paixão.
Olá, Jorge.
Vi o primeiro capítulo e já me encantei. Seguramente, verei os 5.
Mais uma boa lavra de sua autoria.