O Espírito de Porco do Natal

Na véspera do Natal passado, minha amiga Dirlene atendeu a porta ali por volta das três da tarde, sendo surpreendida pela presença de uma menina dos seus sete anos. Maltrapilha e de olhos fundos, o anjo de cara suja perguntou se ela poderia lhe dar alguma coisa ou algum dinheiro. É que sua família era muito pobre e com certeza Papai Noel não lhe daria nenhum presente naquela noite. A boa Dirlene sentiu vibrar no peito o espírito de Natal e lembrou-se de que havia comprado uma boneca para dar à netinha. Esta, por sua vez, havia telefonado mais cedo para dizer que o pai lhe antecipara o presente, que era justamente uma boneca igualzinha àquela que ela havia lhe pedido.

Dirlene não teve dúvidas. Pediu um tempinho à pequena visitante e foi buscar o presente. O anjo de cara suja mal acreditou quando viu a caixa embrulhada em papel prateado, com um laço de fita vermelha. “É pra mim?”, exclamou com os olhinhos quase saltando das órbitas. “Foi Papai Noel que mandou”, disse a dona da casa. A menina desfez o embrulho e suspirou: “Mas é nova…” Provavelmente era a primeira vez que alguém lhe dava um brinquedo que não era de segunda mão. Ela agradeceu com um sorriso mudo e desceu a rua como se caminhasse nas nuvens.

Mais leve ainda sentiu-se minha amiga, na certeza de ter praticado uma boa ação. Na manhã seguinte, ela ainda estava na cama quando a campainha tocou. “Quem será?”, perguntou ainda sonolenta, e grande foi sua surpresa ao atender a porta. Lá estavam três anjos de cara suja. A menina voltara com a boneca nos braços e na companhia de dois irmãos menores. “Eles também querem ganhar um presente”, explicou num tom inocente. Dirlene disse que não tinha mais presentes, mas serviu-lhes algumas guloseimas que sobraram da ceia de Natal. E assim pôde sorrir novamente ao ver os três descendo a rua leves feito plumas.

Na tarde do mesmo dia, alguém tocou a campainha. Era uma mulher grávida e mal vestida, segurando pela mão um dos três meninos. Dirlene ficou surpresa quando a visitante pediu-lhe dinheiro para aviar uma receita médica para o marido que, segundo ela, estava sofrendo de dengue. Ainda embuída do espírito de Natal, Dirlene pegou cinco reais na gaveta do armário da cozinha. “É tudo o que eu tenho no momento”, explicou. A mulher pegou a nota num gesto desanimado e, na companhia do filho, desceu a rua sem nem mesmo agradecer.

Três dias depois, Dirlene atendeu a porta novamente. Dessa vez era um homem magro e de barba rala, cheirando a bebida. Explicou que era pai da menina que ganhara a boneca e que sua mulher estava doente, com riscos de perder o filho. Para complicar a situação, o aluguel do barraco estava atrasado. Perguntou se ela não teria algum dinheiro que pudesse lhe arranjar “por caridade”.

Minha amiga saiu do sério. Disse que já havia dado dinheiro à tal mulher e que sua casa não era instituição filantrópica, “tá pensando o quê?” O homem fez cara feia, resmungou alguns impropérios e desceu a rua pisando duro. Ela então bateu a porta e quase sorriu de alívio, pois finalmente havia se livrado do terrível espírito de Natal.

  • Crônica incluída na coletânea “Todo Mundo é Filho da Mãe” (Ed. Ciência Moderna).

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