A Arte de Entrar em Agências Bancárias

Na era da violência e da paranoia, entrar em agências bancárias tornou-se uma aventura. Meu compadre Juventino que o diga. Ele vai ao banco pelo menos uma vez por mês para receber a minguada aposentadoria. Até há pouco tempo, não enfrentava obstáculos, pois a agência onde recebe é pequena e não tinha detector de metais. Não tinha, pois agora tem, e foi aí que começou o drama.

Na semana passada, Juventino chegou à agência com a tranquilidade de sempre e deu de cara com a novidade. Mas não se intimidou. Entrou no alçapão e, para sua surpresa, o alarme apitou e a porta giratória travou instantaneamente. Ele voltou atrás e o guarda entrincheirado atrás do vidro blindado apontou-lhe uma bandeja, dizendo que ele deveria depositar ali seus objetos de metal.

– Mas eu não tenho objetos de metal – disse meu compadre.
– Não usa chaveiro?
– Sim, mas ele é de plástico.
– Mas as chaves são metálicas – disse o segurança já impaciente.

Na dúvida, e querendo encurtar conversa, Juventino pôs na bandeja o chaveiro com duas chaves de antimônio. Em seguida, adentrou a arapuca, o alarme apitou e ele ficou preso novamente. Juventino recuou mais uma vez e o guarda perguntou se ele não estaria portando um telefone celular.

– Eu não tenho celular – foi a resposta.

Lá de dentro da agência bancária surgiu um segundo segurança.

– O senhor tem moedas no bolso? – perguntou.

Juventino revirou as algibeiras e encontrou duas moedas de dez centavos. Depositou-as na referida bandeja e pela terceira vez tentou entrar. De novo o alarme apitou e a porta travou feito armadilha. Enquanto isso, já se formava uma fila de pessoas ansiosas por entrar no banco.

– Vai ver que é a fivela do cinto – sugeriu uma velhinha de cara redonda.

Juventino tirou o cinto, pois o primeiro guarda não titubeou em concordar com a simpática velhinha. E lá foi ele novamente, segurando as calças com a mão. A boa vontade dos guardas de nada lhe valeu, pois o alarme disparou novamente.

– Pode ser que seu paletó tenha alguma coisa metálica nas ombreiras – disse uma balzaquiana com cara de costureira.

Meu compadre tirou o paletó de linho bem a tempo de ouvir um rapaz da fila dizer que os velhos deveriam receber a aposentadoria pelo correio. Enrolou o paletó e o depositou na bandeja, voltando à porta de segurança. Para seu desespero, com o rosto vermelho de vergonha, ouviu o alarme e o clique da porta pela enésima vez. A fila já reunia uma dúzia de pessoas, entre aposentados, executivos e office boys cheios de contas para pagar.

– O senhor usa alguma prótese ou marca-passo? – perguntou um homem negro no final da fila. Estava todo de branco, o que dava a pensar que talvez fosse médico, dentista ou enfermeiro.

Juventino tirou o roach e o depositou na bandeja, agora sob o olhar impaciente de três seguranças. Finalmente ele conseguiu entrar na agência, para alívio seu e dos espectadores. Recuperou seus pertences e permaneceu na fila do caixa durante quase meia hora. Quando chegou sua vez de ser atendido, ouviu um grito de mulher, olhou em volta e viu cinco homens armados e os seguranças deitados no chão.

Tudo se passou muito rápido, sem alarmes, tiros ou reféns. A sorte do meu compadre foi não ter recebido a aposentadoria. Afinal, o banco tem seguro contra roubo, mas ele não.

  • Crônica incluída na coletânea “Todo Mundo é Filho da Mãe” (Ed. Ciência Moderna).

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