Jorge Fernando dos Santos

Amazônia vista de perto

O jornalista e aviador José Altino Machado morou e trabalhou por vários anos na Floresta Amazônica

Todo mundo fala sobre a Amazônia, mas pouca gente conhece a floresta como o jornalista, aviador civil, minerador e ex-empreiteiro José Altino Machado. Prova disso é o livro Os bundas doidas – Amazônia, que ele publica pela Baobá Edições. O lançamento em Belo Horizonte será na noite de 20 de agosto, quinta-feira, na Livraria Leitura do BH Shopping. O exemplar custa R$ 80.

O título da obra, segundo o autor, se deve ao fato de que os índios ianomâmis assim se referem aos homens brancos devido à sua maneira de fazer sexo. Entre os nativos, os movimentos do amor são marcados por carícias, contrações e suavidade, e não pelos pulos acelerados que, aos seus olhos pouco habituados à cavalgada, parecem cômicos.

José Altino tem uma trajetória inusitada e polêmica, que lhe valeu desafetos e o apelido de “Indiana Jones Brasileiro”. Nascido em Governador Valadares, em 1942 (pai fazendeiro; mãe jornalista e escritora), elegeu-se vereador aos 18 anos. Brigou com a municipalidade para arborizar as ruas da cidade, num tempo em que a palavra “ecologia” nem tinha sido inventada. Foi grande produtor de leite e de milho. Ao perder uma filha de dois anos, embrenhou-se na floresta amazônica na tentativa de se curar da dor.

Depois de explorar cassiterita em Roraima, chegou ao Pará no início da década de 1980, quando o garimpo de Serra Pelada começava a chamar a atenção do mundo. Conheceu de perto a luta dos garimpeiros em busca do sonho dourado de vencer na vida e foi preso por liderar invasão de terras indígenas e confrontar interesses poderosos. Viveu entre índios, caboclos, rios, árvores e bichos, conhecendo por cima e por dentro a maior floresta tropical do planeta, bem como os costumes dos seus habitantes.

Militância inteligente

Com 24 mil horas de voo no brevê, Altino chegou a ter uma grande frota de aviões. Transportou minerais, homens e suprimentos, fundou e presidiu a Usagal – União dos Sindicatos de Garimpeiros da Amazônia Legal. Participou de debates sobre mineração no Brasil e no exterior, foi membro do Conselho Superior de Minas do Ministério de Minas e Energia e colaborou com a Constituinte de 1988. Com estratégia e inteligência, lutou pelo reconhecimento do garimpo como atividade profissional com direitos assegurados.

No livro de 378 páginas, o autor puxa o fio da memória, narrando fatos que marcaram sua vida e mudaram seu jeito de ser. São casos reais – alguns trágicos, outros cômicos -, que prendem a atenção do leitor desde os primeiros parágrafos. “Seus conceitos nunca se sedimentaram em ideias do passado nem se refugiaram em teses do futuro; mantiveram-se vivos e presentes por suas próprias razões”, ressalta o geólogo e advogado Antônio da Justa Feijão, no texto da contracapa.

Além de contar casos que vivenciou, Altino narra episódios históricos que marcaram a ocupação da Amazônia brasileira desde o Estado Novo, quando o projeto dos “soldados da borracha” atraiu para a região milhares de nordestinos, sobretudo cearenses, com a missão de “garimpar” látex para suprir a demanda por borracha durante a Segunda Guerra Mundial.  Findado o conflito, esses trabalhadores foram abandonados à própria sorte no coração da floresta.

Denúncias e reflexões

Altino também faz reflexões sobre a realidade social do Norte do país, denunciando a maneira irresponsável como governos militares e civis quase sempre trataram seus habitantes. Em defesa dos interesses de empresas e corporações, várias vezes as autoridades enviaram a polícia e forças militares no lugar de professores e médicos sanitaristas para atender as comunidades em suas carências. O resultado disso foi o aumento do desemprego, da miséria e da criminalidade na região.

Como tem dito o ex-deputado federal e ministro da Defesa Aldo Rebelo, amigo do autor, a Amazônia hoje é dominada por facções do crime organizado, que controlam o tráfico de drogas, o garimpo clandestino e o contrabando de minerais e madeiras nobres. Sob a nefasta influência das ONGs internacionais, os quase 25 milhões de amazonenses são muitas vezes retratados pela mídia como devastadores do meio ambiente, sendo impedidos de explorar legalmente as riquezas à sua volta.

Em sua narrativa, Altino também lembra a presença de celebridades nas zonas de garimpo. Viu muita gente querendo se promover às custas da floresta, como o fundador da revista Forbes e o navegador Jacques Cousteau. Além dos atores Tom Cruise, Olivia Newton-Jonh e Daryl Hannah, bem como o príncipe Charles, da Inglaterra. Este, aliás, foi impedido de aparecer graças ao autor, que mobilizou garimpeiros e ameaçou bombardear o iate real com uma chuva de fezes.

José Altino elogia o Exército por sua atuação na Amazônia e rememora conflitos na fronteira do Brasil com a Venezuela. Mais de uma vez, conseguiu ajudar militares brasileiros a resolverem impasses de maneira pacífica, por meio do diálogo com seus colegas de farda da outra margem do Rio Negro. Por tudo isso, quem quiser conhecer a realidade amazônica deve ler Os bundas doidas. Mais que um livro de memórias, uma declaração de amor à floresta, suas riquezas e seus habitantes.

 

16 comentários em “Amazônia vista de perto”

  1. Lauro César Soares Cassini

    Grande José Altino Machado, conhecedor a fundo da realidade da Amazônia e das pessoas independente de raças e etnias que lá vivem, e dependem exclusivamente dela. Fala com grande propriedade das coisa ligadas a Amazônia.

    1. Rivaldavio mulato dos santos

      É muito curioso ler este livro e interessante a sua leitura.Coisas inimaginável deve estar escrito alí.Fecunda ,misteriosa aquela região é.Tambem interessante a vida do autor.

  2. José Roberto Alvarenga

    Como já foi assinalado aqui nos comentários, o José Altino deveria ser convidado pelo governo como consultor sobre assuntos da Amazônia. Que experiências fantásticas se depreendem da leitura do artigo do nosso amigo , Jorge Fernando ; imagino então do livro do José Altino !

  3. Vanessa Lima Duarte

    Boa noite ,
    Enquanto Socióloga atuante na área ambiental desde 2019 achei muito interessante e mais atual impossível.
    Farei de tudo para comparecer nesse lançamento.

  4. Paulo Cesar Martin Guimarães

    Caro Jorge
    Qu estímulo ao conhecimento de outros olhares e narrativas sobre a nossa Amazônia, ou melhor , se ainda podemos chamar de nossa.
    Realmente, as pessoas precisam conhecer de quem viveu e vive a realidade dos fatos. atos e direitos.
    Muito bom. Gostaria muito que o nosso saudoso e atento poeta Gervásio Horta pudesse ter conhecido essa narrativa.
    Abs

  5. Clayton Geraldo Andrade

    Boa noite a todos. José Altino é um abnegado defensor da floresta amazônica com conhecimento vivencial do dia a dia da população amazonense, em especial daqueles que habitam a floresta e retiram dela (legalmente) o sustento de suas famílias. Povos que são ignorados pelas autoridades que comandam e comandaram nosso país desde os anos 80. José Altino tem autoridade e conhecimento da realidade daqueles que habitam a floresta amazônica e, se tivéssemos governantes verdadeiramente preocupados com a exploração ilegal de nossas riquezas naturais, poderia ser ele reconhecido como uma autoridade no assunto e convocado para propor ações de conservação, fiscalização e repressão da exploração ilegal de nossas riquezas naturais na fauna e flora do maior patrimônio natural do planeta. Obrigado pela contribuição que nos mostra a realidade de nossa floresta amazônica e que tais experiências cheguem ao conhecimento de quem governa nosso país. Quem sabe, esses politiqueiros se curvem diante de quem dedica sua vida a proteção dos povos e de nossa floresta amazônica.

  6. Ronaldo Guimarães

    Beleza, Jorge.
    Livro pra ser lido.
    No dia 20 é aniversário do meu filho e não poderei comparecer, mas quero adquiri-lo.
    Fraterno abraço.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima