
Todo mundo fala sobre a Amazônia, mas pouca gente conhece a floresta como o jornalista, aviador civil, minerador e ex-empreiteiro José Altino Machado. Prova disso é o livro Os bundas doidas – Amazônia, que ele publica pela Baobá Edições. O lançamento em Belo Horizonte será na noite de 27 de agosto, quinta-feira, na Livraria Leitura do BH Shopping. O exemplar custa R$ 80.
O título da obra, segundo o autor, se deve ao fato de que os índios ianomâmis assim se referem aos homens brancos devido à sua maneira de fazer sexo. Entre os nativos, os movimentos do amor são marcados por carícias, contrações e suavidade, e não pelos pulos acelerados que, aos seus olhos pouco habituados à cavalgada, parecem cômicos.
José Altino tem uma trajetória inusitada, que já lhe valeu o apelido de “Indiana Jones Brasileiro”. Nascido em Governador Valadares, em 1924 (pai militar e fazendeiro; mãe jornalista e escritora), elegeu-se vereador aos 18 anos. Brigou com a municipalidade para arborizar as ruas da cidade num tempo em que a palavra “ecologia” nem tinha virado moda. Mais tarde, ao perder uma filha, embrenhou-se na floresta amazônica na tentativa de se curar da dor.
Ele chegou ao Pará no início da década de 1980, ainda na ditadura, quando o garimpo de Serra Pelada começava a chamar a atenção do mundo. Lá, conheceu de perto a luta dos garimpeiros em busca do sonho dourado de vencer na vida, e chegou a ser preso por confrontar interesses poderosos na região. Viveu entre índios, caboclos, árvores e bichos, conhecendo por cima e por dentro a maior floresta tropical do planeta.
Militância inteligente
Com 24 mil horas de voo no brevê, Altino transportou ouro, homens e suprimentos, até fundar e presidir a Usagal – União dos Sindicatos de Garimpeiros da Amazônia Legal. Participou de debates sobre mineração no Brasil e no exterior, foi membro do Conselho Superior de Minas do Ministério de Minas e Energia e colaborou com os trabalhos da Constituinte de 1988. Com estratégia e inteligência, contribuiu para o reconhecimento do garimpo como atividade profissional com direitos assegurados.
No livro de 378 páginas, o autor puxa o fio da memória, narrando fatos que marcaram sua vida e mudaram seu jeito de ser. São casos reais, alguns trágicos, outros cômicos, que prendem a atenção do leitor desde os primeiros parágrafos. “Seus conceitos nunca se sedimentaram em ideias do passado nem se refugiaram em teses do futuro; mantiveram-se vivos e presentes por suas próprias razões”, ressalta o geólogo e advogado Antônio da Justa Feijão, no texto da contracapa.
Mais que contar casos, Altino narra episódios históricos que marcaram a ocupação da Amazônia brasileira, desde o Estado Novo, quando o projeto dos “soldados da borracha” atraiu para a região milhares de imigrantes, sobretudo cearenses, com a missão de “garimpar” látex para suprir o consumo de borracha durante a Segunda Guerra Mundial. Passado o conflito, esses trabalhadores foram abandonados à própria sorte no coração da floresta.
Denúncias e reflexões
Altino também faz reflexões sobre a dura realidade social da região Norte do país e também denuncia a maneira desdenhosa como governos militares e civis sempre trataram seus habitantes. Em defesa dos interesses de corporações poderosas, várias vezes as autoridades enviaram forças militares no lugar de professores, médicos e sanitaristas para atender comunidades inteiras. O resultado disso foi o aumento do desemprego, da miséria e da criminalidade na região.
Como tem denunciado o ex-ministro da Defesa Aldo Rebelo, amigo do autor, a Amazônia hoje é dominada por facções do crime organizado, que controlam o tráfico de drogas, o garimpo clandestino e o contrabando de madeiras nobres. Sob a nefasta influência das ONGs internacionais, os quase 25 milhões de brasileiros que moram nos estados amazonenses são muitas vezes retratados pela mídia como devastadores do meio ambiente, sendo impedidos de explorar riquezas de forma legal.
Em sua narrativa, Altino também lembra a presença de celebridades nas regiões de garimpo. Viu de perto oportunistas querendo se promover às custas da floresta, como o fundador da revista Forbes e o navegador Jacques Cousteau. Além dos atores de cinema Tom Cruise, Olivia Newton-Jonh e Daryl Hannah, bem como o príncipe Charles, da Inglaterra. Este, aliás, foi impedido de aparecer graças ao autor, que mobilizou garimpeiros para bombardear o iate real com uma chuva de fezes.
José Altino Machado também rememora conflitos na fronteira do Brasil com a Venezuela. Mais de uma vez, conseguiu ajudar militares brasileiros a resolverem impasses de maneira pacífica, por meio do diálogo com seus colegas de farda da outra margem do Rio Negro. Por tudo isso, quem realmente quiser conhecer a realidade amazônica deve ler Os bundas doidas. Mais que um livro de memória, trata-se de uma declaração de amor à floresta e seus habitantes.