Jorge Fernando dos Santos

O menestrel de Belô

Em 2023, Gervásio (de boné) e eu visitamos nosso amigo Pacífico Mascarenhas, em sua residência

Foi sepultado no domingo (23/11), no Cemitério Parque da Colina, o corpo do poeta e compositor Gervásio Horta. Nascido em Teófilo Otoni, a 2 de agosto de 1937, ele foi certamente quem mais cantou Belo Horizonte ao longo de várias décadas. Entre suas composições, destacam-se Rua da Bahia, Adeus Lagoinha, Bela Belô, Manhãs de Belo Horizonte, No calçadão da Savassi, Praça Sete, Mercado Central e Lindo Barro Preto.

No sábado (22), Gervásio foi encontrado desfalecido em sua casa, no Prado, onde residia sozinho. Havia sofrido um AVC e foi levado a um hospital por amigos, mas não resistiu. Sua última música a ser gravada foi Sambatério (Funeral do amor), lançada no Carnaval deste ano pelo sambista Fabinho do Terreiro. A letra cita os sete cemitérios de BH, finalizando justamente com o Parque da Colina.

Seus pais e suas irmãs tocavam piano e isso com certeza o influenciou desde cedo. A família se mudou para a capital do Estado em 1954, mas Gervásio foi obrigado a estudar Administração na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Depois de formado, fixou residência em BH, onde começou a trabalhar como bancário. Nessa época, compôs um hino para uma greve promovida pelo sindicado de classe.

Com o sugestivo nome Sete é sete, a composição extrapolou o ambiente sindical, fazendo sucesso nas rádios locais. Lamartine Babo o convidou para participar do programa que apresentava ao vivo, na hoje extinta TV Itacolomi. Depois disso, Gervásio trabalhou na sucursal do Última Hora e na revista Silhueta. Ao conhecer o autor de jingles Miguel Gustavo (que mais tarde faria Pra frente Brasil, hino da seleção de 1970), este o introduziu no ambiente publicitário.

Mestre dos jingles

Gervásio Horta compôs vários jingles comerciais e também para campanhas políticas de candidatos como Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, José Aparecido de Oliveira, Israel Pinheiro, Leopoldo Bessone, Magalhães Pinto, Hélio Garcia, Newton Cardoso, Itamar Franco e Fernando Collor de Mello.

Transitando pelo Palácio da Liberdade, tornou-se assessor especial do governo de Minas, função exercida até se aposentar, em 1996. Torcedor do Cruzeiro, ele fez músicas para o seu time e também homenageou o América e o Vila Nova, compôs o Hino do Mineirão e idealizou o projeto Brasileiríssima, para a Rádio Inconfidência FM, inaugurada em 1979.

Conviver com Gervásio era acima de tudo um aprendizado de vida. Além do talento de letrista e melodista intuitivo, ele impressionava os amigos pela memória e pela generosidade. Ao contrário de muitos que agem por interesse, o “menestrel de Belô” fazia o bem sem saber a quem. Ajudou muita gente na carreira artística e teve músicas gravadas por intérpretes dos mais variados estilos.

Seu parceiro mais famoso foi certamente o “cumpadre” Rômulo Paes, com quem dividiu o clássico Rua da Bahia, sucesso de Orlando Sales no Carnaval de 1960. Teve músicas nas vozes de Jackson do Pandeiro, Jorge Veiga, Jorginho do Império, Márcio Greyck, Ronaldo Adriano, Orlando Dias, Waldick Soriano, Serginho Beagá, Acir Antão, Tadeu Franco, Helena Penna, Titane, Paulinho Pedra Azul, Carlos Farias, Sérgio Moreira, Selmma Carvalho, Tino Gomes, Maestro Chiquinho, Wilson Dias e muitos outros.

A última vez em que nos vimos foi em 2023, numa visita ao nosso amigo Pacífico Mascarenhas, que morreria pouco depois. Gervásio, que já havia rivalizado com o colega nos áureos tempos da Turma da Savassi, foi levar de presente um samba que fizera em sua homenagem. Desde então, nos falamos várias vezes por telefone. Suas histórias e tiradas bem-humoradas já estão fazendo falta. Suas músicas permanecem nos discos, nas redes sociais e na memória daqueles que amam BH.

 

16 comentários em “O menestrel de Belô”

  1. Rivaldavio mulato dos santos

    O sr Gervásio Horta espalhou a cultura e artes para todo lado,uma
    imensidão.Quanta energia possuía
    este grande ser humano?Foi uma grande perda.Como a alma é eterna,
    ele continuará suas obras no mundo dos espíritos.Bendito seja sr Gervásio!

  2. Hildebrando Pontes

    Jorge,
    Os meus cumprimentos pelo sensível e belo artigo. Além da homenagem, vc divulga aspectos da vida desse mineiro incrível, ignorado pela maioria de sua gente. Abraços.

  3. Oh Jorge, seus artigos estão fixando a história recente de bh p aqueles que não a conhecem tão bem como eu .
    Na mais antiga ,dos anos 20 e 30 o Pedro Nava nos guiou deliciosamente .
    Manter essa memória é um trabalho sem trégua. Obrigado.

  4. Paulo Cesar Martin Guimarães

    Há muito tempo não vejo uma pessoa, em poucas palavras, retratar tão bem os seus momentos de sua vida e da história de um lugar sempre especial em seu coração: Belo Horizonte, Ao escutar suas composições, emerge tacitamente um sentimento de estar presente naquela época e naquela lugar.
    Agradeço de coração ao amigo poeta, compositor teofilootonense e de BH, Gervásio Horta, pela sua sensibilidade de em poucas palavras expressar de viv’alma uma realidade, uma situação , uma vivência, Tarefa difícil…
    Parabéns prezado jornalista Jorge Fernando pelo seu apreço e homenagem ao nosso amigo, “menestrel de Belo Horizonte” Gervásio Horta e a sua obra inesquecível do GH.
    Em 13/11/2025 como um prenúncio de sua passagem para o plano espiritual, escreveu: “Esqueça de mim. Fale de minhas músicas. O corpo é enterrado. As músicas vivem.”

  5. Obrigado Jorge, pelas preciosas informações. Tive a honra de conhecer o maravilhoso Gervásio Horta e merecer a sua confiança, ao me convidar para interpretar duas canções da sua autoria: Cantigas do São Francisco e Maria e José. Ele viveu plenamente, compartilhando histórias e canções, com o seu jeito generoso. Já está fazendo falta. Abraços.

  6. AMILTON COSTA DE FARIA

    GERVÁSIO HORTA foi encontrar com seu amigo e parceiro da vida e da ARTE e da MÚSICA que também faleceu na mesma semana o SAMPAIO TROMBONISTA e novos artistas chegando para fazerem parte da Orquestra de Deus.

  7. Que honroso e importante artigo sobre o impagável Gervásio Horta. Talentoso, divertido e solidário, no mínimo é o que digo agora, surpreso com a partida dele. Foi divertir o salão infinito de deus e fazê-lo até sambar.

    1. Maravilhoso,gravei com o Acir Antão,o seu ” Bela,Belô “,foi muito no Pedacinhos do Céu e nos tornamos grandes amigos.Que o Pai Maior o ampare na sua nova caminhada.Os meus mais sinceros sentimentos à família e amigos!!!

  8. “Cante sua aldeia e cantará o mundo”, afirmou Tolstói.
    BH não é uma aldeia, convém que eu explique, em tempos nos quais ofender-se e melindrar-se por pouco tem sido cada vez mais comum.
    Sinal de que os bem-humorados e generosos são cada vez mais raros.
    E lá se foi mais um.
    Fará falta.
    Descanse em paz.

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