O samba nasceu na Bahia e o Rio tirou patente, mas a história não parou aí. O ritmo que melhor traduz a cultura brasileira se espalhou pelo País, passou por Minas Gerais e chegou a São Paulo. Como atesta o produtor J. C. Botezelli, mais conhecido como Pelão, “São Paulo sempre teve grandes sambistas”. Ele cita como exemplos o cantor Blecaute e o compositor Geraldo Filme, “que não só era sambista, como também um conhecedor da história dos negros e do samba. Era uma figura fantástica”, ressalta. “Isso, sem falar no Adoniran Barbosa.”

Mas o que dizer da famosa frase “São Paulo é o túmulo do samba”, dita por Vinicius de Moraes e registrada por Caetano Veloso na letra de Sampa? Pelão afirma que o poetinha disse isso enquanto andava pela cidade, numa madrugada fria, e as pessoas levaram suas palavras ao pé da letra. “Vinicius adorava São Paulo”, garante o produtor, lembrando o fato de que, entre as dezenas de parceiros musicais do letrista de Garota de Ipanema e de dezenas de outros clássicos da MPB, destacam-se os paulistas Adoniran, Carlinhos Vergueiro e Toquinho.

Muito antes de Vinicius de Moraes, a idéia de que apenas a Bahia e o Rio de Janeiro teriam aptidão especial para o samba foi alimentada por Noel Rosa, em Feitio de Oração: “São Paulo dá café/ Minas dá leite/ E a Vila Isabel dá Samba”. A ironia é que o parceiro do Poeta da Vila neste e em outros sambas famosos foi justamente Vadico, paulistano nascido no Brás.

“O samba ficou muito forte em todo o Brasil a partir dos negros”, ressalta Pelão. “Acho que ele nasceu no Recôncavo Baiano e de lá se espalhou por todo o País. A cultura musical popular do mundo sai da África, passa pela América Central e de lá desemboca nos Estados Unidos e no Brasil. Ela está no jazz, no blues, no mambo, na rumba, no tango e, naturalmente, no samba. Como temos a presença do negro em todo o País, o samba está presente em todos os lugares, inclusive em São Paulo.”

Descendente de italianos e paulistano da gema, Pelão ressalta que a vocação de São Paulo pelo samba também se manifesta no fato de a cidade sempre ter acolhido e divulgado os sambistas cariocas. Foi numa gravadora paulista que ele produziu discos de Cartola e Nelson Cavaquinho. Em 1974, desembarcou no Rio de Janeiro e em apenas uma semana gravou quatro LPs com as velhas guardas da Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano. Ele foi também o primeiro a levar a voz de Adoniran para o vinil.

“Os grandes sambistas cariocas vivem hoje dos shows que realizam em São Paulo”, afirma. “O grupo Fundo de Quintal, por exemplo, Arlindo, Sombrinha e os compositores Walter Alfaiate e Nelson Sargento fazem shows todo mês na cidade. O nosso azar é que não tivemos aqui uma Rádio Nacional e nem a sede da Rede Globo, que ficaram no Rio de Janeiro”, lamenta. Ele acaba de produzir e dirigir o show Os Quatro Grandes do Samba, no qual os compositores cariocas Cartola e Zé Ketti, e os paulistas Adoniran e Paulo Vanzolini são homenageados por Elton Medeiros e Carlinhos Vergueiro.

Aos 51 anos, Vergueiro ressalta que foi nas ruas de São Paulo que aprendeu de ouvido o que é um bom samba. Foi ele quem produziu o único disco de Geraldo Filme e o último de Nelson Cavaquinho (numa gravadora paulista), intitulado As Flores em Vida. “São Paulo sempre reverenciou muito os sambistas cariocas”, reconhece. Nascido no bairro Bela Vista, ele se mudou para o Rio de Janeiro aos 30 anos e tem entre os principais parceiros Adoniran, Jota Petrolino, Toquinho, Vinicius e Chico Buarque. Este nasceu no Rio, mas morou em São Paulo e Roma, para depois retornar ao Rio e se consagrar nacionalmente.

Perguntado se o samba paulista tem sotaque diferente, Vergueiro desconversa e responde que o que lhe interessa é a qualidade e não o sotaque do samba. Sobre o dialeto “paulistês” de Adoniran, que revisita no samba Procotólo, ele diz que, além de compositor, o saudoso parceiro em Torresmo à Milanesa era também um ator muito inteligente e acabou criando um tipo que se tornaria sua marca registrada.

O estilo cômico do autor dos clássicos Samba do Arnesto e Trem das Onze foi imortalizado pelo grupo Demônios da Garoa, que se tornou seu principal intérprete e uma espécie de ícone do samba paulista. Consta, inclusive, que no início Adoniran não gostou do jeito deles interpretarem sua obra. “Samba é samba”, diz Vergueiro, que lança depois do Carnaval seu 14º disco, intitulado Por Todos os Sonhos, com participações de Alceu Valença, Chico, Fagner e o grupo carioca Toque de Prima.

Pioneirismo

Para Oswaldinho da Cuíca, o marco do samba em São Paulo foi fincado em 1914 por Dionísio Barbosa (1891-1977), criador do Grupo Carnavalesco Barra Funda. Ele narra a história no samba Ao Velho Batuqueiro, feito em parceria com Maurinho da Mazzei: “Se a Paulicéia hoje canta e se agiganta/ E o nosso samba que encanta tem matriz/ Foi Dionísio Barbosa quem deu o fruto, a semente e também a raiz”.

Aos 64 anos, lutando contra um câncer na garganta, Oswaldinho também se esforça para viabilizar seus projetos musicais. É o caso do CD História do Samba Paulista, lançado em 1999 pelo CPC-UMES, onde apresenta a epopéia do samba em São Paulo com a participação de Aldo Bueno, Germano Mathias e Thobias da Vai Vai. São 21 faixas e, além das letras, o encarte apresenta textos que narram os principais momentos do samba em São Paulo, começando por um tema rural recolhido pelo mineiro Aires da Matta Machado Filho.

Apesar das dificuldades para dar prosseguimento ao projeto, que incluiria um segundo disco, Oswaldinho coleciona várias láureas: além de Embaixador e Primeiro Cidadão do Samba, reverenciado por todas as agremiações carnavalescas de São Paulo, foi eleito o Sambista Nota 10 da Avenida (pela Vai-Vai) e homenageado juntamente com Paulo Vanzolini durante o show que reuniu na Praça da Sé cerca de 2 milhões de pessoas, no último Reveilon.

Oswaldinho integrou o Demônios da Garoa até 1999, tendo estreado no grupo durante a Bienal do Samba, em 1967. Compôs dezenas de sambas e colaborou no documentário sobre Geraldo Filme, dirigido por Carlos Cortez. Apesar da vasta carreira, não encontra apoio para desengavetar três livros, entre eles a História dos Instrumentos Brasileiros, fruto de pesquisas e de sua experiência como percussionista e malabarista do pandeiro.

Na sua opinião, “o samba se globalizou e ficou com um padrão único. Não é baiano, nem carioca, nem paulista. Quem perde com isso é a cultura brasileira, que é uma das mais ricas do mundo, com mais de 500 tipos de danças populares”. Ele lembra que os antigos cordões carnavalescos acabaram se tornando escolas de samba por influência do Rio de Janeiro. A escola Primeira de São Paulo surgiu no Carnaval de 1935, fundada pelo compositor Elpídio de Faria. Dois anos depois surgiria a Lava-Pés, criada por Chico Pinga e Madrinha Eunice.

Apesar da influência carioca, Oswaldinho afirma que o samba de Sampa já teve seus grandes baluartes, gente como Dionísio Barbosa, Geraldo Filme, Pato N´água e Sinval Silva, que era mineiro de nascimento. Nas comemorações dos 450 anos de São Paulo, ele defende que “devemos reverenciar quem plantou a semente e não quem colheu os frutos do samba”.

  • Matéria publicada no Estado de Minas

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