O paraíso existe e fica no Brasil. Essa é a sensação de quem visita o Pantanal Sul Mato-grossense pela primeira vez. Entre bichos e plantas, o turista percebe não apenas as maravilhas da natureza, mas também a fragilidade humana diante dela. Feito a esfinge de Gisé, a natureza pode devorar aquele que não souber decifrá-la.

Além da paisagem, que varia do alagado da estação das águas ao cerrado da temporada seca que agora se inicia, saltam aos olhos o colorido de mais de 650 espécies de aves – entre elas o tuiuiú e a arara-azul, símbolos da região – integrantes do bioma mais rico do planeta, onde já foram catalogados cerca de 80 espécies de mamíferos (como a onça-pintada e o tamanduá-bandeira), e 50 de répteis (entre eles a cobra sucuri e o jacaré da espécie caiman), sem falar na infinidade de peixes e insetos.

Caiman é também o nome do refúgio ecológico que funciona numa fazenda de 53 mil hectares, no município de Miranda (MS), a 236 quilômetros da capital, Campo Grande. Ali, a criação de gado de corte convive em equilíbrio com fauna e flora nativas, que fica numa área de 5 mil hectares de mata nativa. O objetivo é integrar as atividades de ecoturismo, pecuária, preservação de espécies e pesquisa científica. À noite, o céu do Pantanal é um espetáculo à parte. Longe da poluição e de focos de luz, é possível ver a Via-láctea com toda sua exuberância.

A hospedagem na pousada permite ao visitante conhecer de perto o paraíso pantaneiro, participando de safáris fotográficos, caminhadas, passeios a cavalo, em canoa canadense e chalana ou em caminhões abertos apelidados de “zebrões”. Quem tiver interesse científico pelas espécies pode visitar o “aquário”, um conjunto de salas com exposição de fotos e sons da fauna. As atividades são monitoradas pelos “caimaners”, guias bilíngües com formação universitária, e pelos guias de campo nascidos na região.

A fazenda já existia no século XIX e pertencia a uma família portuguesa. Em 1912, foi adquirida por uma companhia britânica, que implantou na região a criação de gado bovino da raça Bagual, de origem indiana. Os ingleses também importaram gado europeu e desenvolveram a fazenda, que forneceu madeira para a construção da ferrovia entre Bauru (SP) e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Outra fonte de renda era o comércio de tanino, substância extraída da casca do angico vermelho e utilizada no curtume de couro.

Em 1946, um grupo formado por 11 brasileiros comprou as terras. O negócio foi conseqüência de vários fatores, como a proibição da remessa de lucros para o exterior assinada por Getúlio Vargas e uma doença que vitimou o rebanho eqüino da região. Um dos novos donos era tio do atual proprietário, o empresário Roberto Klabin, de 49 anos, cuja família adquiriu todas as ações do grupo, em 1974. Dez anos depois, ele herdou as terras.

Klabin nasceu e mora em São Paulo, formou-se em direito pela USP e começou a defender a ecologia ainda nos tempos de estudante. Hoje, além de ser conselheiro do Grupo Klabin, preside a Caiman Agropecuária, a RK Hotéis e Turismo e a Fundação SOS Mata Atlântica. Vai ao Pantanal quase todos os meses e sua determinação em preservar o meio ambiente tem motivado outras iniciativas na região.

O que se percebe no Pantanal é que a vocação pelo ecoturismo vem se firmando cada vez mais. Como diz o próprio Klabin, a não ser a pecuária, a região só tem como alternativa econômica a preservação e exibição de sua biodiversidade. “Graças a Deus que no Pantanal não se planta nada. Caso contrário, esse paraíso seria dizimado”, diz o empresário, ao comentar sobre as plantações de soja que se aproximam da região.

“O Pantanal está se desenvolvendo de maneira diferente de como era no passado”, diz Klabin. “O problema hoje é que gente que não tem nada a ver com a região está comprando terras e cortando os capões para plantar capim. Isso é altamente prejudicial, pois compromete a vegetação nativa e a fauna.” Em suas terras, ele garante, os capões são preservados, já que ali se refugiam os animais durante a estação da seca.

A atividade turística tem transformado o próprio povo pantaneiro. Como ressalta Sandro Ortiz, dono de duas vans que tranportam turistas na região, antigamente os homens trabalhavam como boiadeiros nas fazendas e as mulheres ficavam em casa, cuidando dos filhos. Hoje, tem trabalho para toda a família e as pessoas têm sentido a necessidade de se alfabetizarem para conseguir melhores colocações no mercado de trabalho que está em expansão.

O vaqueiro Ricardo Coelho, funcionário da Caiman Agropecuária, é um exemplo disso. Aos 29 anos, ele não só trabalha na lida da fazenda, principalmente com o gado, como também atende aos turistas interessados em cavalgar ou conhecer de perto a vida do pantaneiro típico. Ele ressalta que a Festa do Laço é a grande tradição do Mato Grosso do Sul. Trata-se de um encontro mensal da família pantaneira, no qual peões e amazonas de diferentes faixas etárias exibem a habilidade no laço de couro.

Turismo caro e para poucos

As atividades desenvolvidas no Refúgio Ecológico Caiman são relativamente caras e para poucos escolhidos, reconhece Roberto Klabin. “Isso não quer dizer que você não possa fazer turismo ecológico para muitas pessoas, como, por exemplo, nos parques ecológicos de Fernando de Noronha e Bonito (MS)”, ressalta. “Aqui é uma propriedade privada e elitista, pois eu quero manter um certo padrão e ter recursos para viabilizar o trabalho.”

Inspirado nas reservas da África e da Venezuela, Klabin anuncia o investimento de R$ 7 milhões na construção de uma nova vila para os quase 140 empregados da fazenda. O projeto inclui uma estação para tratamento de esgoto. O retorno do investimento está previsto para daqui a 12 anos.

O refúgio tem estrutura para receber apenas 70 hóspedes, alojados em apartamentos confortáveis mas sem luxo, em quatro pousadas (Sede, Sede 2, Baiazinha e Cordilheira, esta a 14 quilômetros da Sede). Cada pousada tem piscina e restaurante próprio, onde são preparados pratos da culinária brasileira, com destaque para comidas típicas do Pantanal, como peixes e caldo de piranha.

Entre os hóspedes, destacam-se principalmente estrangeiros. O mais ilustre deles até agora foi o ator Harrison Ford, que há cerca de três anos passou uma semana na pousada Baiazinha, onde funcionam seis apartamentos com duas camas cada um. O então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, também visitou o refúgio e ficou admirado com a biodiversidade da região.

Perguntado sobre as perspectivas do turismo rural e ecológico no Brasil, Roberto Klabin afirma que essa é a única vantagem que o País tem no ramo turístico. A maior dificuldade está no transporte e na infra-estrutura, que custam caro. Atualmente, ele se preocupa principalmente com o transporte aéreo, que passa por momentos de crise no País. Ele lembra que o turismo no Pantanal começou na década de 80, com a prática da pesca, atividade predatória que vem sendo substituída pelo safári fotográfico.

Entre onças e araras

O símbolo do Refúgio Ecológico Caiman é a arara-azul, pássaro que também simboliza o Pantanal e está ameaçado de extinção. Justamente para salvar a espécie, a bióloga Neiva Guedes criou em 1990 o Projeto Arara-azul. Seus resultados fizeram do Brasil uma referência internacional em pesquisas. Os casais desse pássaro grande e curioso se reproduzem em ninhos naturais feitos em ocos de árvores como a manduvi, muitas vezes ameaçados por outros animais e também por caçadores, que vendem penas e filhotes no mercado negro.

Dentro dos 53 mil hectares da fazenda, existem hoje 111 ninhos monitorados, muitos deles artificiais e, por isso mesmo, mais seguros. O desafio do projeto é oferecer condições para que os filhotes sobrevivam até a idade de vôo, quando o índice de mortalidade diminui consideravelmente.

No último relatório divulgado, dos 278 ninhos monitorados em cinco regiões pantaneiras, 51 casais produziram 77 filhotes entre julho de 2000 e julho de 2001. Destes, 55 sobreviveram, o que representa um sucesso reprodutivo de 1,12 filhote por casal. A espécie choca de dois a três ovos por ninhada e o filhote que nasce primeiro tem mais chances de sobreviver.

Outro projeto bem sucedido é o da onça-pintada, coordenado por Leandro Silveira e que atua em 12 propriedades rurais do Pantanal Sul Mato-grossense, cobrindo uma área de 210 mil hectares. Somando-se os 75 mil hectares do Parque Estadual do Rio Negro, tem-se a maior área de proteção da onça-pintada no bioma pantaneiro, num total de quase 300 mil hectares de terra. Na região do refúgio ecológico, cinco onças carregam rádios-coleiras e tiveram material biológico coletado por cientistas. No momento, uma equipe da BBC de Londres tenta filmar o tímido felino que raramente se mostra aos turistas.

* Matéria publicada no Estado de Minas


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