Último grande representante da chamada “Época de ouro” da música popular brasileira, o compositor Dorival Caymmi, de 92 anos, acaba de inspirar uma tese de mestrado em letras, defendida na PUC-Rio pela neta Stella Teresa Aponte Caymmi, filha da cantora Nana Caymmi. Formada em jornalismo em 1986 e doutoranda em letras pela mesma universidade, Stella publicou em 2002, pela Editora 34, o livro Dorival Caymmi- O mar e o tempo, finalista do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, na categoria biografia/reportagens.

Em seu novo trabalho, intitulado O portador inesperado – a obra de Dorival Caymmi (1938-1958), a autora investiga o repertório do compositor baiano, tendo como objetivo traçar um mapeamento da recepção crítica cultural à sua música sob a perspectiva da Estética da recepção, do alemão Hans Robert Jauss. Entendem-se como receptores não apenas o público e a crítica especializada, mas também cantores, compositores, músicos e outros artistas.

Em 1967, Jauss procurou responder ao impasse entre os teóricos marxistas e os formalistas russos. O primeiro grupo defende que a compreensão da obra se dá pelo espelho político e socioeconômico. O segundo afirma que essa compreensão tem mais a ver com mudanças internas do próprio leitor e do universo literário.

Stella lembra que Jauss não joga fora as contribuições dos dois grupos, “mas considera que uma obra tem valor quando rompe com o horizonte de expectativa de determinado período, propondo a inovação, e contrapõe a essa obra de valor o que chama de ‘obra culinária’, que se adequa com subserviência às expectativas da época”.

Para analisar a permanência e a atuação de Caymmi no desenvolvimento da canção nacional, Stella também convocou a contribuição do historiador Fernand Braudel. O período estudado por ela – de 1938 a 1958 – vai do início da carreira musical do avô, já no Rio de Janeiro, à gravação de Chega de saudade (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, na voz de João Gilberto), clássico da MPB que inaugurou a Bossa Nova.

“Proponho fazer uma história da MPB não montada nos moldes tradicionais de obra e período, mas pelo ponto de vista do receptor”, diz Stella. “A forma tradicional é aquela que Jauss critica, pois ignora a recepção e não torna visível determinadas qualidades da obra estudada.” Segundo ela, a moldura proposta pelo teórico alemão serve tanto para a literatura quanto para a música ou artes plásticas. “Se afirmamos que Caymmi é da ‘Época de ouro’, ignoramos o que ele tem de diferente e não explicaremos o segredo de sua permanência”, ressalta.

E não foi à toa que ela procurou analisar justamente o período pré-bossanovista do avô. Surgido nos anos 30 como cantor folclórico, Caymmi passou pelo samba-canção e nem sempre foi compreendido pela crítica. No entanto, dentre os compositores tradicionais da geração que teve outros bambas como Ary Barroso, Assis Valente e Geraldo Pereira, ele foi o primeiro a ser reinterpretado por João Gilberto e abraçado literalmente por Tom e Vinicius.

Em entrevista a Almir Chediak, organizador e editor da melhor série de songbooks da MPB, Jobim reconheceu que Caymmi usava incríveis modulações de meio tom já no início da carreira. Outro que sempre aponta o “Poeta do mar” como grande mestre é Chico Buarque, que destaca os avanços harmônicos em seus sambas e canções praieiras dos anos 40, cujos intervalos anteciparam as divisões rítmicas adotadas por João Gilberto.

Stella lembra que Noel Rosa, por exemplo, só teria um samba regravado por João Gilberto muitos anos depois da fase áurea da Bossa Nova. Chico, por sinal, no início de sua carreira, foi muitas vezes comparado ao “Poeta da vila” pelos críticos mais conservadores, que reagiam à sofisticação bossanovista dizendo que se tratava de uma influência do jazz, sendo portanto estranha aos valores culturais do samba de raiz. Chico se defendia alegando que, ao contrário, suas maiores influências eram Ismael Silva e Caymmi, além naturalmente da própria Bossa Nova, movimento que influenciou toda sua geração.

Vinicius, por seu lado, dizia que a Bossa Nova foi na verdade uma decorrência natural da evolução do samba, enquanto Jobim se afirmava mais influenciado por Debussy e pelo dodecafonismo do que propriamente pelos jazistas norte-americanos os quais, surpreendemente, ele viria a influenciar. Curiosamente, Caymmi também é ouvinte do compositor erudito cujas composições ajudaram a modernizar a música do século XX.

Filtro de qualidade

Para Stella Caymmi, a Bossa Nova foi o filtro radical de qualidade da MPB e seu avô passou por esse filtro. Ela também afirma que a obra em questão influenciou não apenas a música, mas também outros contextos culturais: “Apenas para citar alguns exemplos recentes: a coleção da grife Totem Praia, mostrada no ano passado no Fashion Rio, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, foi inspirada na obra do compositor, apresentando, na trilha sonora do desfile, registros originais do artista”.

Também em 2005, Caymmi foi tema da sexta edição do projeto A imagem do som, lançado no Poço Imperial, no Rio, em que “80 artistas visuais contemporâneos de diferentes áreas de atuação desenvolveram livremente suas criações para 80 músicas do compositor”. Stella o aponta como um dos artistas contemporâneos do governo JK, o que explica a presença de canções de sua autoria na minissérie da Rede Globo, na qual se destacaram clássicos como Maracangalha, Só louco e A vizinha do lado.

Perguntada se o fato de ser neta do objeto de sua tese facilita ou dificulta seu trabalho, a autora diz que “o fato de ter feito a biografia dele com uma boa recepção de público e crítica significa que consegui vencer a condição de ser sua neta. Não senti dificuldade para escrever o livro, mas estou mais segura na dissertação de mestrado”, confessa.

Escrita sob a orientação do professor Júlio Diniz, a dissertação de Stella – que deverá ser publicada em livro – foi defendida em março, na presença do avô, sendo aprovada por unanimidade e com louvor pela banca examinadora. Na ocasião, sua avó Stella Maris, que foi cantora de rádio, interpretou Acalanto, o clássico que o compositor cantava para ninar a filha Nana, também presente ao evento.


*Matéria publicada no Estado de Minas


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