Sumidouro das Almas
Atual Editora
Ilustrações: Angelo Abu

Nesse romance, o autor recria o mito de Fausto na figura de um jovem garimpeiro movido pelo ódio e pelo desejo de vingança, que alimenta o sonho quixotesco de ser um justiceiro como os mocinhos dos filmes de faroeste. Joguete do destino, ele encontra no seu caminho a figura sinistra de Adriano Raposo, mistura de pistoleiro e Mephistófoles sertanejo, e também Maria Carmen, meio fada meio feiticeira cigana que o libertará de seu destino. Publicado pela Ciência Moderna, do Rio de Janeiro, o livro foi relançado em segunda edição revista pela Atual, de São Paulo, em 2010.

 

Crítica

"O livro faz um mergulho em referências literárias que vão de Guimarães Rosa a Graciliano Ramos, mas sobretudo afirma-se como exercício de contar histórias. Seu grande mérito é a capacidade narrativa do autor, que adota a exploração de um universo e vai fundo em suas situações e personagens... A escrita passeia pelo regional, retratando um linguajar específico e cheio de informações... Prevalece o domínio do autor sobre a narrativa, capaz de conduzir o leitor, do início ao fim, rumo ao desvendamento das histórias de amor, vingança e cobiça que movem os personagnes principais" - Clara Arreguy, suplemento Pensar do Estado de Minas, 2003.

"Como numa conversa em que não há margem para mal-entendidos, a história demora-se em algumas curiosidades e apressa-se para resenhar as características básicas dos personagens... O estilo é simples e direto, a narrativa se desenvolve com fluidez, não há espaço para ambigüidades... O pragmatismo do narrador quer conquistar iniciados e novos leitores, e pode ser notado na forma de construção da narrativa e na ligeireza com que a leitura pode ser feita, agradável e descompromissada, de uma sentada só, à maneira dos velhos e bons contadores de histórias" - Luciene Azevedo, suplemento Idéias do Jornal do Brasil, 2003.

"Indico o novo romance do escritor mineiro Jorge Fernando dos Santos, Sumidouro das Almas, aliás, seu vigésimo livro, uma obra que foi reescrita inúmeras vezes e é tão importante quanto seu premiado romance, Palmeira Seca, que virou minissérie na Rede Minas" - Cunha de Leiradella, Hoje em Dia, 2003.

"Sumidouro das Almas é uma espécie de sumário das paixões artísticas do autor. Os leitores vão envontrar lá as frases curtas que ele ama em Hemingway, a busca da intensidade telúrica inspirada em Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, a referência constante no cinema, principalmente o western e seu espírito de mitologia da derrota do caos e da instauração da lei... Felizmente para os leitores, Sumidouro das Almas é mais do que este sistema de referências. A impressão que se tem é que não estamos lendo o trabalho de um escritor convencional, mas a versão escrita da narração de um contador de histórias. Ou melhor, de casos. E um contador amadurecido de tal maneira que quem conhecer seus outros livros vai ficar com a impressão de que constituíam um treinamento para a fase que, espera-se, agora é iniciada" - Marcello Castilho Avellar, Estado de Minas, 2003.

"Sumidouro das Almas é uma história simples, como todas as arquetípicas, que se adensa conforme o autor vai narrando a saga de seu predestinado herói. Seu estilo é seco como estrada de terra batida. No bastidor feito com a roda da vida e usando as linhas do destino, Faustino é bordado na ponta da (bala n)agulha com pontos-de-cruz (ou de muitas cruzes). Impossível não seguir a cavaleiro a jornada do herói quase roseano, que carrega sua inquietude com sua quietude mineira" - Nani, O Pasquim, 2003.

"Encontramos em Sumidouro das Almas um ficcionista que trata a linguagem com habilidade de artesão e a preocupação do esteta. Entre outros aspectos bem explorados, destacam-se a interpretação dos dramas humanos, a reprodução de uma saga que expõe a miséria psicológica e social de uma região, com formatação de um regionalismo sem plágios ou pastiches, mas sem perder a densidade e o realismo com que escreveram sobre essa mesma atmosfera Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Na lavratura de Jorge Fernando dos Santos esse ambiente ganha dimensão e dicção próprias, pois o autor teve o cuidado em reconstruir com detalhes o vão território das angústias, a geografia tórrida e causticante de um caminho sem volta, a psicologia dos personagens, conferindo à trama um grau de veracidade e tensão, promovendo um diálogo com vários estilos e tendências narrativas. É uma obra de quem tem perfeito domínio da técnica, alcançando o equilíbrio entre a forma e o conteúdo e valorizando o texto pela invenção de novos parâmetros discursivos, numa interface entre a tradição e vanguarda" - Ronaldo Cagiano, Jornal Opção, 2003.

"Um convite ao paladar, aos aromas, às iguarias e expressões do universo gastronômico mineiro. Esta é também a proposta do romance Sumidouro das Almas, de Jorge Fernando dos Santos (Ed. Ciência Moderna). Porém, a obra vai mais além. Propõe uma viagem ao universo mítico da literatura do século XX, com destaque para o cordel, o regionalismo brasileiro e a pulp fiction norte-americana. Na paisagem do Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas, região desértica onde a miséria material contrasta com a riqueza da chamada cultura popular, Faustino, o protagonista, experimenta aromas e sabores da cozinha mineira, com destaque para a abóbora com torresmo, o feijão tropeiro, a carne-de-sol com farinha de mandioca, uma matuaba da boa- cachaça do Serro -, e o café adoçado com rapadura. Há momentos do texto em que o cheiro parece real e dá para sentir a boca salivar. Se não fosse papel, o livro, arriscaria umas mordidas" - Andréia Pio, Hoje em Dia, 2003.

"Jorge Fernando dos Santos vem se revelando um grande contador de histórias, na esteira dos nossos grandes narradores, como um Érico Veríssimo, um João Guimarães Rosa, um José J. Veiga, um Autran Dourado, um Graciliano Ramos... A estrutura da narrativa é pontilhada por descontinuidades temporais, que respondem pela eficácia e interesse da trama, e alicerçada por capítulos intercalados com o título de Cordéis da memória. Estes são como que explicações de certos acontecimentos do passado, ou até pequenos retratos psicológicos de personagens, no sentido de dar-lhes um relevo maior, funcionando como flash-backs da narrativa. E aqui nota-se outra característica da ficção de Jorge Fernando dos Santos: a linguagem cinematográfica, aliada, no caso, a uma grande economia de estilo, que é direto, fluindo com a simplicidade enganadora de um Machado de Assis, p. ex. Temos, portanto, um grande romancista que ainda poderá ser um dos nossos maiores no ramo. Esperemos" - Fernando Py, Tribuna de Petrópolis, 2004.

"Quem gosta de história, sobretudo da brasileira, não pode deixar de conferir Sumidouro das Almas... A narrativa remete a clássicos de autores como Gui­marães Rosa e Gra­­ciliano Ra­­­mos, mas nem por isso é chata – muito pelo contrário. O autor nos leva a uma viagem fantástica pelo interior de Minas Gerais... Forte e curioso, o livro é uma forma bacana de entender um pouco da realidade que ainda – infelizmente – existe em muitos cantos do nosso país" - Gazeta do Povo, 2010.

"Faustino é o novo cavaleiro andante que sedente de justiça se vingará da morte cruel do pai e do roubo das pedras, tiradas com suor e lágrimas. O novo rocinante, a tecnologia popular que humilhará os armados exércitos, sempre a favor dos grupos dominantes. Maria Carmem, a mulher cósmica, culminará a hombridade instintiva dos moradores das carvoeiras trocando o calor dos pequenos fornos em calor de carne viva e quente da mulher que ama e se sabe amada. O amor é a relação humana que vence toda maldade aculturada. A relação do amor é a esperança dos indivíduos que garimpam a natureza humana no encontro da bondade" - Jorge Solivellas, 2011.