Jornalismo

"Tornei-me jornalista pelo prazer da escrita. Comecei escrevendo sobre música no antigo Jornal de Minas e me formei na Fafi-BH, em 1982. Colaborei em vários jornais, revistas e suplementos. Em 1983, comecei a fazer colunas de teatro e cinema no Estado de Minas. Fui repórter, editor e editor-assistente de Cultura. Editei uma página de livros semanal durante dez anos e escrevi muitos editoriais. Em maio de 2001, fui promovido a editor de Suplementos e Revistas. Para mim, o jornalismo tem três missões importantes a desempenhar: informar os leitores, formar opinião e incomodar os poderosos."

A linguagem oculta de Guimarães Rosa
Hemingway, caçador de si mesmo
espaço O pai de Tom Jobim
O legado de Caymmi
Paraíso pantaneiro
Sampa diz no pé

 

 

 

 

 

 

 

Sampa diz no pé

 

O samba nasceu na Bahia e o Rio tirou patente, mas a história não parou aí. O ritmo que melhor traduz a cultura brasileira se espalhou pelo País, passou por Minas Gerais e chegou a São Paulo. Como atesta o produtor J. C. Botezelli, mais conhecido como Pelão, "São Paulo sempre teve grandes sambistas". Ele cita como exemplos o cantor Blecaute e o compositor Geraldo Filme, "que não só era sambista, como também um conhecedor da história dos negros e do samba. Era uma figura fantástica", ressalta. "Isso, sem falar no Adoniran Barbosa."

Mas o que dizer da famosa frase "São Paulo é o túmulo do samba", dita por Vinicius de Moraes e registrada por Caetano Veloso na letra de Sampa? Pelão afirma que o poetinha disse isso enquanto andava pela cidade, numa madrugada fria, e as pessoas levaram suas palavras ao pé da letra. "Vinicius adorava São Paulo", garante o produtor, lembrando o fato de que, entre as dezenas de parceiros musicais do letrista de Garota de Ipanema e de dezenas de outros clássicos da MPB, destacam-se os paulistas Adoniran, Carlinhos Vergueiro e Toquinho.

Muito antes de Vinicius de Moraes, a idéia de que apenas a Bahia e o Rio de Janeiro teriam aptidão especial para o samba foi alimentada por Noel Rosa, em Feitio de Oração: "São Paulo dá café/ Minas dá leite/ E a Vila Isabel dá Samba". A ironia é que o parceiro do Poeta da Vila neste e em outros sambas famosos foi justamente Vadico, paulistano nascido no Brás.

"O samba ficou muito forte em todo o Brasil a partir dos negros", ressalta Pelão. "Acho que ele nasceu no Recôncavo Baiano e de lá se espalhou por todo o País. A cultura musical popular do mundo sai da África, passa pela América Central e de lá desemboca nos Estados Unidos e no Brasil. Ela está no jazz, no blues, no mambo, na rumba, no tango e, naturalmente, no samba. Como temos a presença do negro em todo o País, o samba está presente em todos os lugares, inclusive em São Paulo."

Descendente de italianos e paulistano da gema, Pelão ressalta que a vocação de São Paulo pelo samba também se manifesta no fato de a cidade sempre ter acolhido e divulgado os sambistas cariocas. Foi numa gravadora paulista que ele produziu discos de Cartola e Nelson Cavaquinho. Em 1974, desembarcou no Rio de Janeiro e em apenas uma semana gravou quatro LPs com as velhas guardas da Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano. Ele foi também o primeiro a levar a voz de Adoniran para o vinil.

"Os grandes sambistas cariocas vivem hoje dos shows que realizam em São Paulo", afirma. "O grupo Fundo de Quintal, por exemplo, Arlindo, Sombrinha e os compositores Walter Alfaiate e Nelson Sargento fazem shows todo mês na cidade. O nosso azar é que não tivemos aqui uma Rádio Nacional e nem a sede da Rede Globo, que ficaram no Rio de Janeiro", lamenta. Ele acaba de produzir e dirigir o show Os Quatro Grandes do Samba, no qual os compositores cariocas Cartola e Zé Ketti, e os paulistas Adoniran e Paulo Vanzolini são homenageados por Elton Medeiros e Carlinhos Vergueiro.

Aos 51 anos, Vergueiro ressalta que foi nas ruas de São Paulo que aprendeu de ouvido o que é um bom samba. Foi ele quem produziu o único disco de Geraldo Filme e o último de Nelson Cavaquinho (numa gravadora paulista), intitulado As Flores em Vida. "São Paulo sempre reverenciou muito os sambistas cariocas", reconhece. Nascido no bairro Bela Vista, ele se mudou para o Rio de Janeiro aos 30 anos e tem entre os principais parceiros Adoniran, Jota Petrolino, Toquinho, Vinicius e Chico Buarque. Este nasceu no Rio, mas morou em São Paulo e Roma, para depois retornar ao Rio e se consagrar nacionalmente.

Perguntado se o samba paulista tem sotaque diferente, Vergueiro desconversa e responde que o que lhe interessa é a qualidade e não o sotaque do samba. Sobre o dialeto "paulistês" de Adoniran, que revisita no samba Procotólo, ele diz que, além de compositor, o saudoso parceiro em Torresmo à Milanesa era também um ator muito inteligente e acabou criando um tipo que se tornaria sua marca registrada.

O estilo cômico do autor dos clássicos Samba do Arnesto e Trem das Onze foi imortalizado pelo grupo Demônios da Garoa, que se tornou seu principal intérprete e uma espécie de ícone do samba paulista. Consta, inclusive, que no início Adoniran não gostou do jeito deles interpretarem sua obra. "Samba é samba", diz Vergueiro, que lança depois do Carnaval seu 14º disco, intitulado Por Todos os Sonhos, com participações de Alceu Valença, Chico, Fagner e o grupo carioca Toque de Prima.

Pioneirismo

Para Oswaldinho da Cuíca, o marco do samba em São Paulo foi fincado em 1914 por Dionísio Barbosa (1891-1977), criador do Grupo Carnavalesco Barra Funda. Ele narra a história no samba Ao Velho Batuqueiro, feito em parceria com Maurinho da Mazzei: "Se a Paulicéia hoje canta e se agiganta/ E o nosso samba que encanta tem matriz/ Foi Dionísio Barbosa quem deu o fruto, a semente e também a raiz".

Aos 64 anos, lutando contra um câncer na garganta, Oswaldinho também se esforça para viabilizar seus projetos musicais. É o caso do CD História do Samba Paulista, lançado em 1999 pelo CPC-UMES, onde apresenta a epopéia do samba em São Paulo com a participação de Aldo Bueno, Germano Mathias e Thobias da Vai Vai. São 21 faixas e, além das letras, o encarte apresenta textos que narram os principais momentos do samba em São Paulo, começando por um tema rural recolhido pelo mineiro Aires da Matta Machado Filho.

Apesar das dificuldades para dar prosseguimento ao projeto, que incluiria um segundo disco, Oswaldinho coleciona várias láureas: além de Embaixador e Primeiro Cidadão do Samba, reverenciado por todas as agremiações carnavalescas de São Paulo, foi eleito o Sambista Nota 10 da Avenida (pela Vai-Vai) e homenageado juntamente com Paulo Vanzolini durante o show que reuniu na Praça da Sé cerca de 2 milhões de pessoas, no último Reveilon.

Oswaldinho integrou o Demônios da Garoa até 1999, tendo estreado no grupo durante a Bienal do Samba, em 1967. Compôs dezenas de sambas e colaborou no documentário sobre Geraldo Filme, dirigido por Carlos Cortez. Apesar da vasta carreira, não encontra apoio para desengavetar três livros, entre eles a História dos Instrumentos Brasileiros, fruto de pesquisas e de sua experiência como percussionista e malabarista do pandeiro.

Na sua opinião, "o samba se globalizou e ficou com um padrão único. Não é baiano, nem carioca, nem paulista. Quem perde com isso é a cultura brasileira, que é uma das mais ricas do mundo, com mais de 500 tipos de danças populares". Ele lembra que os antigos cordões carnavalescos acabaram se tornando escolas de samba por influência do Rio de Janeiro. A escola Primeira de São Paulo surgiu no Carnaval de 1935, fundada pelo compositor Elpídio de Faria. Dois anos depois surgiria a Lava-Pés, criada por Chico Pinga e Madrinha Eunice.

Apesar da influência carioca, Oswaldinho afirma que o samba de Sampa já teve seus grandes baluartes, gente como Dionísio Barbosa, Geraldo Filme, Pato N´água e Sinval Silva, que era mineiro de nascimento. Nas comemorações dos 450 anos de São Paulo, ele defende que "devemos reverenciar quem plantou a semente e não quem colheu os frutos do samba".

* Matéria publicada no Estado de Minas

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Hemingway,
caçador de si mesmo

Mais de 40 anos depois de sua morte, Ernest Hemingway mostra-se mais presente do que nunca no mundo das letras. Os 100 anos de seu nascimento, comemorados em 21 de julho de 1999, foi notícia em vários países e resultou na publicação de “True at First Light”, seu último original inédito. Copidescado pelo filho Patrick, o livro foi lançado nos Estado Unidos com grande estardalhaço da imprensa. Na verdade, trata-se de mais uma jogada editorial que ocorre à revelia do escritor, que deixou inacabado o romance autobriográfico. Outro lançamento motivado pela data é “Hemingway, The Final Years”, no qual Michael Rynolds faz um balanço da vida do autor de “O Velho e o Mar”.

Isso demonstra que Hemigway tornou-se um daqueles autores cuja obra se mostra cada vez mais universal, na medida em que o tempo passa. Muitos pensavam que o sucesso de seus livros estivesse necessariamente atrelado ao seu exbicionismo machista e à sua capacidade de auto-promoção. O escritor sobrevivera a nada menos que quatro casamentos e duas guerras mundiais, tendo entre elas a Guerra Civil Espanhola, na qual serviu como correspondente voluntário nas trincheiras republicanas. Chegou inclusive a escrever e narrar um documentário sobre a causa, visando arrecadar fundos para ajudar seus combatentes. Dessa experiência, escreveu “Por quem os sinos dobram”, um dos mais importantes romances do século sobre os absurdos da guerra e em favor da paz.

Não bastasse tudo isso, Hemingway era um grande bebedor e adépto dos esportes radicais de sua época, como a tourada, o boxe, a pescaria e os safáris na África. Dizia que passava boa parte do tempo atirando nas feras para não ter que atirar em si mesmo. Quando percebeu que estava no fim, sofrendo de paranóia, mergulhado numa profunda depressão e sob a suspeita de estar sofrendo de câncer gástrico, enfiou na boca uma espingarda de caça e detonou os miolos, no mês em que faria 62 anos. Sua morte ruidosa ecoou nos quatro cantos do mundo e até hoje intriga os admiradores e estudiosos de sua obra.

Mesmo que alguns críticos ainda tentem até hoje denegrir a imagem do autor e desvalorizar seus contos e romances, o fato é que o velho “papa” firma-se cada vez mais como um dos principais autores do século. Seu estilo seco e preciso e sua técnica magistral, que despreza adjetivos e advérbios procurando valorizar a ação do sujeito, influenciou escritores em todo o mundo, alguns internacionalmente consagrados, como Norman Mailer e Gabriel García Márquez.

Temas do cotidiano

Ler um texto de Hemigway é mergulhar fundo nos conflitos mais corriqueiros do ser humano. De temas simples do cotidiano, ele criou grandes histórias, quase todas esculpidas com mãos de mestre na solidez das palavras. Sua arte consistia em mostrar apenas a ponta do iceberg, deixando sob a superfície da narrativa três quartos da trama. Na verdade, em seus contos e romances o que importa muitas vezes é o subtexto, aquilo que está presente de maneira sutil e subjetiva. Assim, no conto “Colinas feito elefantes brancos”, um casal sentado à mesa de um bar discute sobre o aborto sem que essa palavra apareça em nenhum momento do texto. De maneira parecida, enquanto a grangrena devora sua perna, o protagonista de “As Neves do Kilimanjaro” mira o monte à sua frente como quem observa o vazio da própria existência.

Já nos seus primeiros textos, Hemingway demonstrou o caminho que iria trilhar ao longo da carreira. Expoente da chamada “geração perdida”, destacava-se ao lado de outros escritores americanos que moravam em Paris nos anos 20, como Scott Fitzgerald, John dos Passos e Ford Madox Ford, dividindo-se entre os grupos de Gertrude Stein e Ezra Pound. Ao lado de William Faulkner, não demoraria a se firmar como um dos grandes herdeiros da tradição romanesca da América. No entanto, ao contrário deste, ambientaria suas principais histórias longe do seu país. Foi o caso dos dois primeiros romances, “O sol também se levanta” e “Adeus às Armas”, este inspirado numa paixão frustrada que vivera enquanto se recuperava dos ferimentos de guerra. Ambos não tardariam a virar best sellers, sendo logo adaptados para o cinema.

Aliás, Hemigway foi com certeza o autor norte-americano que mais despertou o interesse de Hollywood. Seus diálogos enxutos e a nitidez psicológica de suas personagens encantavam os diretores e o sucesso de seus livros eram o argumento necessário para sensibilizar os produtores de plantão. Assim, foram várias as versões de seus livros a povoarem as telas do cinema. “Adeus às Armas” foi filmado três vezes e “O Velho e o Mar” ganhou duas versões, a exemplo do conto “Os Assassinos”. Os elencos eram sempre de primeira, destacando-se nomes como Gary Cooper e Ingrid Bergman em “Por quem os sinos dobram”; Gary Cooper e Rock Hudson, respectivamente nas duas primeiras
versões de “Adeus às Armas”; Spencer Trayce e Anthony Quinn como o pescador Santiago de “O Velho e o Mar”, filmado duas vezes; Tyrone Power e Ava Gardner em “O sol também se levanta”; Ava e Gregory Peck em “As Neves do Kilimanjaro”. Consta inclusive que Humphrey Bogart e Lauren Bacall se apaixonoram durante as tomadas de “Ter e não Ter”, ou “Uma Aventura na Martinica”.

Confrontos existenciais

E Hemingway foi autor de grandes confrontos existenciais. Em “O sol também se levanta” o par romântico não poderia ser melhor: um impotente mutilado de guerra e uma ninfomaníaca vivem uma paixão impossível. Em “Adeus às Armas” um desertor proclama a paz em separado e foge da guerra com sua amada. Só que ela morre no parto e ele percebe que o destino é mais forte que os homens. Em “O sol também se levanta” Robert Jordan apaixona-se por uma jovem guerrilheira a quem dará a própria vida. Em “O Velho e o Mar”, Santiago tenta provar a si mesmo e ao mundo inteiro que ainda é capaz de enfrentar o mar e pescar um enorme peixe espada. Sua batalha contra os tubarões e a precisão de seus monólogos deram ao autor o prêmio Pulitzer e o Nobel de Literatura.

O escritor criava também cenas inusitadas e muitas vezes chocantes, como aquela do romance “As Verdes Colinas da África”, em que o protagonista descreve uma hiena ferida que devora o próprio intestino enquanto agoniza.

Em “Morte na Tarde”, quando ele narra uma corrida de touros, dá ao seu leitor a sensação de estar vendo a arena à sua frente, com o touro e o toureiro bailando a dança da morte. Assim, sua narrativa sobre a savana após a passagem de um bando de babuínos enfurecidos pode trazer às nossas narinas o cheiro horrível daqueles primos distantes da raça humana. O mesmo se aplica à descrição de um campo de batalha dois dias depois da luta, com os cadáveres inchando ao sol, com as algibeiras reviradas pelo inimigo que já se foi.

Por essas e outras, Ernest Hemingway se fez um imortal. Um dos grandes vultos do século XX, um escritor que certamente será lembrado daqui a outros 100 anos, ao lado, por exemplo, do irlandês James Joyce, de quem foi vizinho quando morou em Paris pela primeira vez. E quando algum crítico afobado ou presunçoso baixar a lenha no mestre por uma publicação póstuma certamente desautorizada, é bom saber que nem mesmo o rugido dos leões será capaz de silenciar os sinos que hoje dobram por ele.

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O pai de Tom Jobim


A não ser pelo poema Felicidade, publicado nas páginas 47 e 48 de Antonio Carlos Jobim – Um Homem Iluminado, livro de Helena Jobim pela Editora Nova Fronteira, quase nada se conhece hoje da poesia de Jorge Jobim. Pai do músico e da escritora, ele foi poeta parnasiano, jornalista e crítico literário de algum relevo em seu tempo, amigo e discípulo do também poeta Alberto de Oliveira. Helena tem quase tudo publicado por ele ou sobre ele e já pensou em resgatar parte de sua obra. Por ocasião dos 50 anos da Bossa Nova, vale saber mais sobre o pai do “maestro soberano”, parceiro de Vinicius e Moraes e João Gilberto no movimento musical mais importante já ocorrido no Brasil.

Segundo Helena Jobim, que há oito anos reside em Belo Horizonte, a idéia de republicar os poemas do pai teve duas origens. A primeira teria sido uma conversa com o acadêmico Josué Montello, quando ela ainda morava no Rio de Janeiro. A segunda partiu do juiz-corregedor e poeta gaúcho Jorge Adelar Finatto, diretor cultural da revista Ajuris, publicada pela Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul. "Ao tomar conhecimento da obra do meu pai, ele disse que deveríamos buscar apoio ou patrocínio para resgatar seus poemas", ela explica. No entanto, ainda não foi possível realizar tal objetivo, mesmo porque boa parte da obra do poeta vale mais pela curiosidade do que pela perenidade de seus versos.

Gaúcho de São Gabriel, nascido a 23 de abril (dia de São Jorge) de 1889, Jorge Jobim bacharelou-se em direito, foi diplomata e poeta, e se casou com Nilza Brasileiro de Almeida, em 1926, quando ela tinha 15 anos. A diferença de idade entre os dois serviu para alimentar ciúme e insegurança, levando o poeta a abandonar a casa por duas vezes. Ele morreu de parada cardíaca, em 19 de julho de 1935, na Casa de Saúde Dr. Eiras.

Em Antônio Carlos Jobim – Uma Biografia, escrita por Sérgio Cabral para a Lumiar Editora, consta que, segundo o psicanalista Raul Bitencourt, que era primo de Jorge, ele teria se suicidado. Helena desmente essa versão e afirma que a morte do pai decorreu de doses excessivas de morfina, droga que era utilizada como antidepressivo. Em seu livro, Cabral lembra as atividades do diplomata, que "nomeado segundo-secretário de Legação no Equador, no dia 27 de fevereiro de 1918, tomou posse em 18 de maio. Removido depois sucessivamente para o Chile (11 de novembro de 1918), Peru (30 de novembro do mesmo ano) e Argentina (25 de abril de 1919), não tomou posse em nenhum desses postos…"

"Tenho poucas lembranças do meu pai", diz Helena, que tinha três anos quando ele morreu. "Lembro, por exemplo, que eu estava com sarampo ou catapora e chorava muito por causa da coceira. Ele pegou rolos de serpentina colorida em cima do armário e enfeitou a cama de dossel onde eu dormia. Quando ele foi embora de casa, eu perguntava ‘cadê meu pai? Cadê meu pai?’ e mamãe dizia que ele estava viajando. Meu pai era um homem de grandes angústias, possessivo e ciumento. Possuía vastíssima cultura e talento, mas por causa dos problemas emocionais, abriu mão da carreira diplomática para ser inspetor de ensino do Ministério da Educação. Ele sofria de saudades do Brasil."

Saudades do Brasil deu nome a uma das melhores obras instrumentais de Tom. Para ele e a irmã, o pai seria sempre uma "lenda", outro nome de uma de suas composições. O compositor herdaria do pai o amor pelos dicionários. "Papai os consultava com freqüência", garante Helena. Jorge Jobim viveu apenas 47 anos e publicou os livros Colméia Cristã e Poesias (1906-1914), além da coletânea Poetas Brasileiros, em dois volumes, organizada em parceria com Alberto de Oliveira para a Livraria Garnier.

Jorge também organizou o volume Minha Infância – Os Mais Lindos Contos para Crianças, sob encomenda da Livraria Moura, reunindo obras de Eça de Queiroz, Coelho Neto, Leon Tolstoi, Selma Lagerlof, Oscar Wilde e Hans Christian Andersen, entre outros. Além de exemplares desses livros, a filha guarda um volume de cartas e poemas inéditos que ele dedicou à mulher e lembra, com orgulho, que o pai foi condecorado em vida por Alberto I, rei da Bélgica, com a Ordem do Rei Leopoldo.

Curiosidades sobre o maestro

A história de Jorge Jobim remonta naturalmente à trajetória de Tom, na qual se registraram coincidências e curiosidades. Para início de conversa, o maestro veio ao mundo pelas mãos do Dr. José Rodrigues Graça Mello, o mesmo médico que trouxe ao mundo o compositor Noel Rosa. A exemplo do Poeta da Vila, o “maestro soberano” da Bossa Nova também nasceu com o queixo afundado, mas, no seu caso, o tempo corrigiria o problema. Já o pai de Noel também sofria das faculdades mentais e teria se suicidado.

Homem místico e religioso, Jorge Jobim era devoto de Nossa Senhora da Conceição, fato este registrado no poema que fez para o filho em 25 de janeiro de 1927, quanto este nasceu. Tom morreria justamente em 8 de dezembro de 1994, dia dedicado à santa e que também coincide com o assassinato do ex-beatle John Lennon, ocorrido em 1980, em Nova York.

Tom passou a vida tentando organizar a memória do pai, pois logo após a morte deste, sua mãe se casou com Celso Frota Pessoa, que o adotou como filho legítimo. O maestro descobriu que o pai chegou a fazer a letra de uma marcha em homenagem ao Grêmio Porto-alegrense, cuja melodia coube a Radamés Gnatalli, que se tornaria um dos seus pais musicais.

Outra coisa que alegrou o autor de Águas de Março no auge da carreira artística foi saber que o pai chegou a conhecer o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, pai de Chico, seu parceiro musical, num encontro ocorrido na Livraria Garnier, no Rio de Janeiro. Durante algum tempo, Jorge e Sérgio teriam trocado correspondência sobre livros e idéias.

* Matéria publicada no jornal Estado de Minas

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Paraíso pantaneiro

O paraíso existe e fica no Brasil. Essa é a sensação de quem visita o Pantanal Sul Mato-grossense pela primeira vez. Entre bichos e plantas, o turista percebe não apenas as maravilhas da natureza, mas também a fragilidade humana diante dela. Feito a esfinge de Gisé, a natureza pode devorar aquele que não souber decifrá-la.

Além da paisagem, que varia do alagado da estação das águas ao cerrado da temporada seca que agora se inicia, saltam aos olhos o colorido de mais de 650 espécies de aves – entre elas o tuiuiú e a arara-azul, símbolos da região – integrantes do bioma mais rico do planeta, onde já foram catalogados cerca de 80 espécies de mamíferos (como a onça-pintada e o tamanduá-bandeira), e 50 de répteis (entre eles a cobra sucuri e o jacaré da espécie caiman), sem falar na infinidade de peixes e insetos.

Caiman é também o nome do refúgio ecológico que funciona numa fazenda de 53 mil hectares, no município de Miranda (MS), a 236 quilômetros da capital, Campo Grande. Ali, a criação de gado de corte convive em equilíbrio com fauna e flora nativas, que fica numa área de 5 mil hectares de mata nativa. O objetivo é integrar as atividades de ecoturismo, pecuária, preservação de espécies e pesquisa científica. À noite, o céu do Pantanal é um espetáculo à parte. Longe da poluição e de focos de luz, é possível ver a Via-láctea com toda sua exuberância.

A hospedagem na pousada permite ao visitante conhecer de perto o paraíso pantaneiro, participando de safáris fotográficos, caminhadas, passeios a cavalo, em canoa canadense e chalana ou em caminhões abertos apelidados de "zebrões". Quem tiver interesse científico pelas espécies pode visitar o "aquário", um conjunto de salas com exposição de fotos e sons da fauna. As atividades são monitoradas pelos "caimaners", guias bilíngües com formação universitária, e pelos guias de campo nascidos na região.

A fazenda já existia no século XIX e pertencia a uma família portuguesa. Em 1912, foi adquirida por uma companhia britânica, que implantou na região a criação de gado bovino da raça Bagual, de origem indiana. Os ingleses também importaram gado europeu e desenvolveram a fazenda, que forneceu madeira para a construção da ferrovia entre Bauru (SP) e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Outra fonte de renda era o comércio de tanino, substância extraída da casca do angico vermelho e utilizada no curtume de couro.

Em 1946, um grupo formado por 11 brasileiros comprou as terras. O negócio foi conseqüência de vários fatores, como a proibição da remessa de lucros para o exterior assinada por Getúlio Vargas e uma doença que vitimou o rebanho eqüino da região. Um dos novos donos era tio do atual proprietário, o empresário Roberto Klabin, de 49 anos, cuja família adquiriu todas as ações do grupo, em 1974. Dez anos depois, ele herdou as terras.

Klabin nasceu e mora em São Paulo, formou-se em direito pela USP e começou a defender a ecologia ainda nos tempos de estudante. Hoje, além de ser conselheiro do Grupo Klabin, preside a Caiman Agropecuária, a RK Hotéis e Turismo e a Fundação SOS Mata Atlântica. Vai ao Pantanal quase todos os meses e sua determinação em preservar o meio ambiente tem motivado outras iniciativas na região.

O que se percebe no Pantanal é que a vocação pelo ecoturismo vem se firmando cada vez mais. Como diz o próprio Klabin, a não ser a pecuária, a região só tem como alternativa econômica a preservação e exibição de sua biodiversidade. "Graças a Deus que no Pantanal não se planta nada. Caso contrário, esse paraíso seria dizimado", diz o empresário, ao comentar sobre as plantações de soja que se aproximam da região.

"O Pantanal está se desenvolvendo de maneira diferente de como era no passado", diz Klabin. "O problema hoje é que gente que não tem nada a ver com a região está comprando terras e cortando os capões para plantar capim. Isso é altamente prejudicial, pois compromete a vegetação nativa e a fauna." Em suas terras, ele garante, os capões são preservados, já que ali se refugiam os animais durante a estação da seca.

A atividade turística tem transformado o próprio povo pantaneiro. Como ressalta Sandro Ortiz, dono de duas vans que tranportam turistas na região, antigamente os homens trabalhavam como boiadeiros nas fazendas e as mulheres ficavam em casa, cuidando dos filhos. Hoje, tem trabalho para toda a família e as pessoas têm sentido a necessidade de se alfabetizarem para conseguir melhores colocações no mercado de trabalho que está em expansão.

O vaqueiro Ricardo Coelho, funcionário da Caiman Agropecuária, é um exemplo disso. Aos 29 anos, ele não só trabalha na lida da fazenda, principalmente com o gado, como também atende aos turistas interessados em cavalgar ou conhecer de perto a vida do pantaneiro típico. Ele ressalta que a Festa do Laço é a grande tradição do Mato Grosso do Sul. Trata-se de um encontro mensal da família pantaneira, no qual peões e amazonas de diferentes faixas etárias exibem a habilidade no laço de couro.

Turismo caro e para poucos

As atividades desenvolvidas no Refúgio Ecológico Caiman são relativamente caras e para poucos escolhidos, reconhece Roberto Klabin. "Isso não quer dizer que você não possa fazer turismo ecológico para muitas pessoas, como, por exemplo, nos parques ecológicos de Fernando de Noronha e Bonito (MS)", ressalta. "Aqui é uma propriedade privada e elitista, pois eu quero manter um certo padrão e ter recursos para viabilizar o trabalho."

Inspirado nas reservas da África e da Venezuela, Klabin anuncia o investimento de R$ 7 milhões na construção de uma nova vila para os quase 140 empregados da fazenda. O projeto inclui uma estação para tratamento de esgoto. O retorno do investimento está previsto para daqui a 12 anos.

O refúgio tem estrutura para receber apenas 70 hóspedes, alojados em apartamentos confortáveis mas sem luxo, em quatro pousadas (Sede, Sede 2, Baiazinha e Cordilheira, esta a 14 quilômetros da Sede). Cada pousada tem piscina e restaurante próprio, onde são preparados pratos da culinária brasileira, com destaque para comidas típicas do Pantanal, como peixes e caldo de piranha.

Entre os hóspedes, destacam-se principalmente estrangeiros. O mais ilustre deles até agora foi o ator Harrison Ford, que há cerca de três anos passou uma semana na pousada Baiazinha, onde funcionam seis apartamentos com duas camas cada um. O então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, também visitou o refúgio e ficou admirado com a biodiversidade da região.

Perguntado sobre as perspectivas do turismo rural e ecológico no Brasil, Roberto Klabin afirma que essa é a única vantagem que o País tem no ramo turístico. A maior dificuldade está no transporte e na infra-estrutura, que custam caro. Atualmente, ele se preocupa principalmente com o transporte aéreo, que passa por momentos de crise no País. Ele lembra que o turismo no Pantanal começou na década de 80, com a prática da pesca, atividade predatória que vem sendo substituída pelo safári fotográfico.

Entre onças e araras

O símbolo do Refúgio Ecológico Caiman é a arara-azul, pássaro que também simboliza o Pantanal e está ameaçado de extinção. Justamente para salvar a espécie, a bióloga Neiva Guedes criou em 1990 o Projeto Arara-azul. Seus resultados fizeram do Brasil uma referência internacional em pesquisas. Os casais desse pássaro grande e curioso se reproduzem em ninhos naturais feitos em ocos de árvores como a manduvi, muitas vezes ameaçados por outros animais e também por caçadores, que vendem penas e filhotes no mercado negro.

Dentro dos 53 mil hectares da fazenda, existem hoje 111 ninhos monitorados, muitos deles artificiais e, por isso mesmo, mais seguros. O desafio do projeto é oferecer condições para que os filhotes sobrevivam até a idade de vôo, quando o índice de mortalidade diminui consideravelmente.

No último relatório divulgado, dos 278 ninhos monitorados em cinco regiões pantaneiras, 51 casais produziram 77 filhotes entre julho de 2000 e julho de 2001. Destes, 55 sobreviveram, o que representa um sucesso reprodutivo de 1,12 filhote por casal. A espécie choca de dois a três ovos por ninhada e o filhote que nasce primeiro tem mais chances de sobreviver.

Outro projeto bem sucedido é o da onça-pintada, coordenado por Leandro Silveira e que atua em 12 propriedades rurais do Pantanal Sul Mato-grossense, cobrindo uma área de 210 mil hectares. Somando-se os 75 mil hectares do Parque Estadual do Rio Negro, tem-se a maior área de proteção da onça-pintada no bioma pantaneiro, num total de quase 300 mil hectares de terra. Na região do refúgio ecológico, cinco onças carregam rádios-coleiras e tiveram material biológico coletado por cientistas. No momento, uma equipe da BBC de Londres tenta filmar o tímido felino que raramente se mostra aos turistas.


* Matéria publicada no Estado de Minas

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A linguagem oculta
de Guimarães Rosa


Apontado como o livro mais importante da literatura brasileira, o romance Grande sertão: veredas completou 50 anos de publicação em 2006. No entanto, a mídia nacional, sobretudo televisiva, não soube aproveitar a oportunidade para divulgar e desvendar esse verdadeiro enigma literário da cultura brasileira. Precipitadamente vinculado ao “regionalismo” pelos críticos mais afoitos, o autor hoje centenário, João Guimarães Rosa, não se limitou a reproduzir aspectos meramente locais em sua obra. Pelo contrário, partiu da recriação desses aspectos para narrar epopéias que ultrapassam o universal e atingem o campo transcendental. Para ele, “sertão é dentro da gente”.

Estudiosos de sua obra, leitores comuns e professores que trabalham Grande sertão: veredas em sala de aula devem procurar no texto não apenas as águas da superfície, onde se narra o enredo principal de aventuras, mas também as correntes mais profundas, nas quais habitam senhas e símbolos de diferentes escolas filosóficas e esotéricas. Longe da religiosidade oficial, Guimarães Rosa procurava dar um sentido profundo e oculto a tudo o que escrevia, fazendo de sua literatura um jogo que desafia olhares argutos. Não é à toa que ele era um aficionado do xadrez.

Os iniciados em sua obra são constantemente convidados (ou mesmo desafiados) a enxergar e a interpretar tais senhas e símbolos sob a luz da Alquimia, da Astrologia, do Hinduismo, da Maçonaria, do Platonismo, do Taoísmo ou mesmo da Psicanálise. Isso faz de sua obra algo maior do que a literatura por excelência. Há quem considere o Grande sertão: veredas uma espécie de livro sagrado, feito para ser “recitado” em voz alta, ritualisticamente, como o Alcorão, a Bíblia ou o Bhagavad Gita.

Fanatismos à parte, Rosa não quis nos oferecer uma obra rasa, de fácil leitura e compreensão, destinada ao mero entretenimento, como tantos best-sellers que entopem as livrarias nos dias atuais. Poucos escritores tiveram tanta consciência da escrita quanto ele. A exemplo de autores clássicos como Homero, Dante, Cervantes, Goethe, Dostoiévski, Borges e Fernando Pessoa, para ele a palavra era forma, fôrma e energia. Mais que isso, era um símbolo a transmitir idéias e a despertar o inconsciente do leitor. Sua sabedoria no trato com o vernáculo, principal ferramenta de quem escreve, tornou-se o grande diferencial de sua obra. Também o fio da narrativa é inovador, se considerarmos que o “doutor” a quem o protagonista Riobaldo narra sua epopéia é ninguém menos que o próprio autor – podendo, em outro momento, ser também o leitor.

Guimarães Rosa era poliglota. Numa entrevista concedida a uma prima, afirmou: “Falo português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração”.

Não satisfeito com isso, e talvez por compreender profundamente a arquitetura das palavras segundo a lógica de vários povos, dava-se ao luxo de recuperar palavras esquecidas do nosso idioma e de criar neologismos, como o instigante nome Môimechego, de um personagem do conto Cara de bronze, no qual ele brinca com significantes da palavra “eu” em diferentes línguas: MOI-ME-ICH-EGO (francês, português, alemão e grego).

O escritor era fascinado pelo sentido primitivo das palavras, sentido este esgarçado ou banalizado pelo uso constante. Em correspondência com o tradutor alemão Günter Lorenz, comentou a etimologia do próprio nome: João Guimarães Rosa. “Weihs Mahr” = cavaleiro combatente ou cavalo de combate, passando a “Wimara” ou “Guimara”, forma primitiva de Guimarães. Por isso se autodenominou “O Cavaleiro da Rosa do Burgo do Coração”, referindo-se à terra natal, Cordisburgo, na região central de Minas Gerais. O termo Cavaleiro da Rosa remete ao movimento esotérico Rosa Cruz e ao grau 18 da Maçonaria. O número em questão simboliza o indivíduo diante do infinito. Infinito é o oito deitado, símbolo que se fez presente nas ilustrações originais de Grande sertão: veredas por sugestão do próprio autor ao ilustrador Poty.

Dessa forma, seus personagens têm nomes que não foram dados aleatoriamente. Riobaldo lembra rio + aquele que governa, enquanto o nome Hermógenes significa filho de Hermes, o mensageiro de Zeus. Esse personagem lembra o Exu, mensageiro dos orixás, que assim como os anjos católicos se coloca acima do bem e do mal, como mero instrumento da vontade divina. Consuelo Albergaria, no excepcional estudo Bruxo da linguagem no Grande sertão (1), destaca a proximidade com a mitologia, mas prefere associar o antagonista ao símbolo alquímico do mercúrio, elemento químico cujas propriedades derretem do ouro ao ferro.

Por seus nomes e características, os personagens rosianos dão margem a diversas leituras. O mais intrigante de todos talvez seja Diadorim (que significa “dada por Deus”). No livro O mundo movente de Guimarães Rosa (2), José Carlos Garbuglio enumera suas variantes para “traduzir” os significados: Dia + doron ou através + dádiva, dom, o que não exclui a possibilidade de outras significações, tais como di (dois) + adorar, ou o duplo adorado; ou ainda diá (através) + dor + in ou por intermédio da dor, do sofrimento. Por outro lado, diá é também a primeira sílaba de diabo, ou ainda dia + dor + in (sufixo indetermiante de gênero e, portanto, índice da natureza indefinida do personagem) e assim por diante.

Ao pé da letra, a palavra diabo significa aquele que é dois, o número da confusão, pois tanto somado quanto multiplicado por si mesmo resulta sempre no número quatro. Diadorim também se chama Reinaldo (aquele que governa com o conselho), nome que esconde a verdadeira identidade de Maria Deororina da Fé Bettancourt Marins, filha de Joca Ramiro. Trata-se, portanto, de personagem andrógino que, segundo Albergaria, assume a função de hierofante (monstro sagrado ou guia espiritual de Riobaldo no seu rito de passagem), que será sacrificado ao final do processo. Diadorim também simboliza o Ying e Hermógenes, o Yang. No duelo final, ambos se consomem e são destruídos, como se duas forças opostas e equivalentes se anulassem.

Depois dos desenhos que Poty realizou sob a orientação do autor, a primeira pista mais evidente do esoterismo no romance Grande sertão: veredas se refere ao fato dos personagens principais adotarem três nomes. Riobaldo não foge à regra. Admitido como companheiro pelos jagunços, ele é rebatizado Tatarana ou Lagarta de Fogo. Mais tarde, ao ser promovido a chefe (ou mestre) do bando, é renomeado Urutu Branco por sugestão de Zé Bebelo. Este, por sua vez, chama-se José Rebelo Adro Antunes.

Adro, destaca Albergaria em seu ensaio, “confirma a hipótese de ser Zé Bebelo um chefe de terceira margem, o homem que chega ao limiar da chefia sem, no entanto, conseguir transpor seus umbrais e terminar definitivamente a sua luta”. Para ela, que vê o São Francisco que divide o cenário do livro em duas margens (o Sertão e os Gerais = o caos e o cosmos) como metáfora do rio da vida, Adro indica a posição profana de Zé Bebelo. Afinal, na igreja primitiva, adro era o espaço destinado aos não batizados ou pagãos. Em grego, a palavra “bebeloi” significa profano.

A ensaísta também chama atenção para o pentagrama, estrela de cinco pontas simbolizada pelos cinco chefes de jagunços do romance: Joca Ramiro, Medeiro Vaz, Zé Bebelo, Hermógenes e Ricardão. Os dois últimos são os traidores (ou Judas) e, portanto, simbolizam a desarmonia, a divisão e o mal. Segundo o Dicionário ilustrado de símbolos, de Hans Biedermann (3), “em geometria, o pentagrama é o pentágono regular estrelado. Como a estrela de cinco pontas pode ser construída por uma única linha fechada entrelaçada, os pitagóricos (seguidores de Pitágoras) atribuíram-lhe um significado místico de perfeição, equilíbrio entre corpo e alma. Também recebeu nomes pejorativos, como pé de incubo, pegada da bruxa etc.”

“Nas seitas gnóstico-maniqueístas, cujo número sagrado era cinco, porque conheciam cinco elementos (luz, ar, vento, fogo e água), o pentagrama adquiriu um significado simbólico importante, o que influenciaria outras seitas e ordens iniciáticas.” Trata-se, no entanto, de um símbolo de dúbio significado. Com uma ponta para cima, representa o homem em equilíbrio ou o próprio bem, representado pelo Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci. Se uma ponta está para baixo, corresponderá à barbicha do bode, sendo que as duas pontas para o alto assumem a semelhança dos chifres de Belzebu (Senhor das Moscas), trazendo confusão e desordem. Baphomet, o ídolo com cabeça de bode supostamente adorado pela Ordem dos Cavaleiros Templários, tem um pentagrama na testa. E convém lembrar que os romances de cavalaria da Idade Média influenciaram sobremaneira a construção de Grande sertão: veredas, com destaque para Carlos Magno e os doze pares de França.

Na Maçonaria, a estrela flamejante é o símbolo do companheiro (segundo degrau da escada, ou segundo grau da escala iniciática: companheiro é aquele com quem se divide o pão). Ela tem cinco pontas, sendo também conhecida como Selo de Davi, símbolo pitagórico e ainda pentagrama de Agripa, nos rituais de magia. Já o hexagrama, estrela de seis pontas que no Grande sertão: veredas será formada com a ascensão de Riobaldo ao status de chefe, corresponde ao grau de mestre, sendo conhecida como Signo de Salomão. A este rei é atribuída a construção do templo de Jerusalém, onde teria surgido a ordem maçônica (maçom = pedreiro).

Existem, portanto, muitas leituras da obra rosiana que apontam sua relação com diferentes tradições, escolas filosóficas e ordens iniciáticas. Consuelo Albergaria foi uma das primeiras estudiosas a olhar todos os ângulos dessa questão, com visão caleidoscópica e holística da obra. No prefácio de Bruxo da linguagem no Grande sertão, Benedito Nunes afirma que ela recorre às doutrinas do Corpus Hermeticum e dos Mistérios da Antigüidade, às concepções gnóstico-cabalísticas, à Astrologia, à Alquimia, ao Taoísmo e ao repertório do Bramanismo, do Budismo e do Hinduísmo. “Consuelo nos mostra que essas fontes abastecem a metafísica da linguagem de Guimarães Rosa”, ressalta o crítico.

A ensaísta também analisou o significado do nome Otacília quanto às duas primeiras sílabas. “Parece-nos pertinente a idéia de que se trata simplesmente de um anagrama do Tao, sem maiores complicações”, afirma, lembrando que o Tao tanto pode se referir ao livro fundamental do Taoísmo, o Tao-Té-Ching de Lao Tsé, como também pode ser compreendido como doutrina filosófica definida. Guimarães Rosa gostava da grafia de “sertão” sem o til, na capa da tradução alemã, que resultou em “sertao” ou “ser Tao”.

Vale também citar o esforço de outros estudiosos para decifrar o enigma rosiano. No livro João Guimarães Rosa: metafísica do Grande sertão (4), Francis Utéza afirma que “o interesse que Guimarães Rosa dava à metafísica é comprovado, em primeiro lugar, pelo seu engajamento maçônico, que remontava provavelmente à sua estada em Barbacena, em 1934, como deixa entrever a alusão feita no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: Barbacena, o nosso lugar geométrico.”

Utéza aponta várias “evidências” da iniciação maçônica do escritor, como aquela parte na qual Riobaldo afirma que Deus é paciência: “Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se arredondinhando lisas, que o riachinho rola”. Esse trecho faz alusão à pedra bruta que deve ser trabalhada pelo aprendiz maçom. No entanto, uma recente consulta às lojas maçônicas de Barbacena não revelou evidência de que o autor tenha sido iniciado naquela cidade. Apesar disso, o escritor maçom Manoel Lobato lembra que, ao conhecer Guimarães Rosa, no início dos anos 60, trocou com ele palavras e sinais da ordem.

Outro que escreveu sobre as ligações do autor com a Maçonaria é o poeta Hugo Pontes. No ensaio Guimarães Rosa, uma leitura mística (5), ele chama a atenção para o fato de as palavras Grande e Sertão começarem com letras sagradas: G, de Grande Arquiteto do Universo, Geômetra ou God; e S de sabedoria, saúde e segurança, palavras proferidas durante o ritual chamado “cadeia de união”, que geralmente encerra as reuniões maçônicas. Pontes também analisa o conto Recado do morro sob o prisma da astrologia, ligando nomes de personagens e fazendas a corpos celestes. E ele não é o único a se basear no Zodíaco para tentar desvendar o “recado” da obra em questão.

Já a professora Sílvia Meneses-Leroy, que hoje leciona em Londres, é autora do ensaio A Cabala do sertão em Grande sertão: veredas (6) que aponta elementos cabalísticos na obra do autor. O mesmo faz o médico e psicólogo José Maria Martins, com relação à Alquimia, no ensaio Guimarães Rosa: O alquimista do coração (7). E assim, meio século depois de sua primeira publicação, Grande sertão: veredas continua sendo uma obra seminal e instigante, que permite diversas leituras sob os mais diferentes prismas da compreensão humana.

No aspecto místico da obra, a palavra final é do próprio Guimarães Rosa: “Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada ‘realidade’, que é a gente mesmo, o mundo, a vida”. Para ele, “o idioma é a única porta para o infinito”. Sobre o lado mágico da existência, dizia: “Minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos... Sou um contemplativo fascinado pelo Grande Mistério”. Sobre sua obra-prima, confessou no prefácio Sobre a escova e a dúvida, em Tutaméia: “Quanto ao Grande sertão: veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer que foi ditado, sustentado e protegido – por forças ou corrente muito estranhas”
(8).

Bibliografia:

1. ALBERGARIA, Consuelo. Bruxo da linguagem no Grande sertão. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1977.

2. GARBUGLIO, José Carlos. O mundo movente de Guimarães Rosa. São Paulo, Ática, 1972.

3. BIEDERMANN, Hans. Dicionário ilustrado de símbolos. Tradução: Glória Paschoal de Carvalho. São Paulo, Melhoramentos, 1994

4. UTÉZA, Francis. João Guimarães Rosa: metafísica do Grande sertão. São Paulo, Edusp, 1994.

5. PONTES, Hugo. Guimarães Rosa, uma leitura mística. Poços de Caldas, Gráfica Sulminas, 1998.

6. MENESES-LEROY, Silva. A Cabala do sertão em Grande sertão: veredas. Lisboa, separata das “Actas do terceiro congresso” da Associação Internacional de Lusitanistas.

7. MARTINS, José Maria. Guimarães Rosa: O alquimista do coração. Petrópolis, Vozes, 1994.

8. Vários autores. Cadernos de Literatura Brasileira – João Guimarães Rosa. São Paulo, Instituto Moreira Salles, 2006.



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O legado de Caymmi



Último grande representante da chamada “Época de ouro” da música popular brasileira, o compositor Dorival Caymmi, de 92 anos, acaba de inspirar uma tese de mestrado em letras, defendida na PUC-Rio pela neta Stella Teresa Aponte Caymmi, filha da cantora Nana Caymmi. Formada em jornalismo em 1986 e doutoranda em letras pela mesma universidade, Stella publicou em 2002, pela Editora 34, o livro Dorival Caymmi- O mar e o tempo, finalista do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, na categoria biografia/reportagens.

Em seu novo trabalho, intitulado O portador inesperado – a obra de Dorival Caymmi (1938-1958), a autora investiga o repertório do compositor baiano, tendo como objetivo traçar um mapeamento da recepção crítica cultural à sua música sob a perspectiva da Estética da recepção, do alemão Hans Robert Jauss. Entendem-se como receptores não apenas o público e a crítica especializada, mas também cantores, compositores, músicos e outros artistas.

Em 1967, Jauss procurou responder ao impasse entre os teóricos marxistas e os formalistas russos. O primeiro grupo defende que a compreensão da obra se dá pelo espelho político e socioeconômico. O segundo afirma que essa compreensão tem mais a ver com mudanças internas do próprio leitor e do universo literário.

Stella lembra que Jauss não joga fora as contribuições dos dois grupos, “mas considera que uma obra tem valor quando rompe com o horizonte de expectativa de determinado período, propondo a inovação, e contrapõe a essa obra de valor o que chama de ‘obra culinária’, que se adequa com subserviência às expectativas da época”.

Para analisar a permanência e a atuação de Caymmi no desenvolvimento da canção nacional, Stella também convocou a contribuição do historiador Fernand Braudel. O período estudado por ela – de 1938 a 1958 – vai do início da carreira musical do avô, já no Rio de Janeiro, à gravação de Chega de saudade (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, na voz de João Gilberto), clássico da MPB que inaugurou a Bossa Nova.

“Proponho fazer uma história da MPB não montada nos moldes tradicionais de obra e período, mas pelo ponto de vista do receptor”, diz Stella. “A forma tradicional é aquela que Jauss critica, pois ignora a recepção e não torna visível determinadas qualidades da obra estudada.” Segundo ela, a moldura proposta pelo teórico alemão serve tanto para a literatura quanto para a música ou artes plásticas. “Se afirmamos que Caymmi é da ‘Época de ouro’, ignoramos o que ele tem de diferente e não explicaremos o segredo de sua permanência”, ressalta.

E não foi à toa que ela procurou analisar justamente o período pré-bossanovista do avô. Surgido nos anos 30 como cantor folclórico, Caymmi passou pelo samba-canção e nem sempre foi compreendido pela crítica. No entanto, dentre os compositores tradicionais da geração que teve outros bambas como Ary Barroso, Assis Valente e Geraldo Pereira, ele foi o primeiro a ser reinterpretado por João Gilberto e abraçado literalmente por Tom e Vinicius.

Em entrevista a Almir Chediak, organizador e editor da melhor série de songbooks da MPB, Jobim reconheceu que Caymmi usava incríveis modulações de meio tom já no início da carreira. Outro que sempre aponta o “Poeta do mar” como grande mestre é Chico Buarque, que destaca os avanços harmônicos em seus sambas e canções praieiras dos anos 40, cujos intervalos anteciparam as divisões rítmicas adotadas por João Gilberto.

Stella lembra que Noel Rosa, por exemplo, só teria um samba regravado por João Gilberto muitos anos depois da fase áurea da Bossa Nova. Chico, por sinal, no início de sua carreira, foi muitas vezes comparado ao “Poeta da vila” pelos críticos mais conservadores, que reagiam à sofisticação bossanovista dizendo que se tratava de uma influência do jazz, sendo portanto estranha aos valores culturais do samba de raiz. Chico se defendia alegando que, ao contrário, suas maiores influências eram Ismael Silva e Caymmi, além naturalmente da própria Bossa Nova, movimento que influenciou toda sua geração.

Vinicius, por seu lado, dizia que a Bossa Nova foi na verdade uma decorrência natural da evolução do samba, enquanto Jobim se afirmava mais influenciado por Debussy e pelo dodecafonismo do que propriamente pelos jazistas norte-americanos os quais, surpreendemente, ele viria a influenciar. Curiosamente, Caymmi também é ouvinte do compositor erudito cujas composições ajudaram a modernizar a música do século XX.

Filtro de qualidade

Para Stella Caymmi, a Bossa Nova foi o filtro radical de qualidade da MPB e seu avô passou por esse filtro. Ela também afirma que a obra em questão influenciou não apenas a música, mas também outros contextos culturais: “Apenas para citar alguns exemplos recentes: a coleção da grife Totem Praia, mostrada no ano passado no Fashion Rio, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, foi inspirada na obra do compositor, apresentando, na trilha sonora do desfile, registros originais do artista”.

Também em 2005, Caymmi foi tema da sexta edição do projeto A imagem do som, lançado no Poço Imperial, no Rio, em que “80 artistas visuais contemporâneos de diferentes áreas de atuação desenvolveram livremente suas criações para 80 músicas do compositor”. Stella o aponta como um dos artistas contemporâneos do governo JK, o que explica a presença de canções de sua autoria na minissérie da Rede Globo, na qual se destacaram clássicos como Maracangalha, Só louco e A vizinha do lado.

Perguntada se o fato de ser neta do objeto de sua tese facilita ou dificulta seu trabalho, a autora diz que “o fato de ter feito a biografia dele com uma boa recepção de público e crítica significa que consegui vencer a condição de ser sua neta. Não senti dificuldade para escrever o livro, mas estou mais segura na dissertação de mestrado”, confessa.

Escrita sob a orientação do professor Júlio Diniz, a dissertação de Stella – que deverá ser publicada em livro – foi defendida em março, na presença do avô, sendo aprovada por unanimidade e com louvor pela banca examinadora. Na ocasião, sua avó Stella Maris, que foi cantora de rádio, interpretou Acalanto, o clássico que o compositor cantava para ninar a filha Nana, também presente ao evento. 

*Matéria publicada no Estado de Minas

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