Crônicas

"Considero a crônica um gênero de escrita difícil de ser praticado, porque se trata de um gênero híbrido, ao mesmo tempo literário e jornalístico. Se pender mais para o literário, se tornará conto. Se tiver mais tendência para a linguagem jornalística, se tornará artigo. Pouco a pouco, consegui dominar essa linguagem e tenho escrito crônicas principalmente para o jornal Estado de Minas."

Arte de entrar em agências bancárias
À espera do ônibus noturno
Encontro marcado no além
O espírito de porco do Natal
Todo mundo é filho da mãe
Um dia de cão

 
 
 
 

 

 
 
Arte de entrar em
agências bancárias

Na era da violência e da paranóia, entrar em agências bancárias tornou-se uma aventura. Meu compadre Juventino que o diga. Ele vai ao banco pelo menos uma vez por mês para receber a minguada aposentadoria. Até há pouco tempo, não enfrentava obstáculos, pois a agência onde recebe é pequena e não tinha detector de metais. Não tinha, pois agora tem, e foi aí que começou o drama.

Na semana passada, Juventino chegou à agência com a tranqülidade de sempre e deu de cara com a novidade. Mas não se intimidou. Entrou no alçapão e, para sua surpresa, o alarme apitou e a porta giratória travou instantaneamente. Ele voltou atrás e o guarda entrincheirado atrás do vidro blindado apontou-lhe uma bandeja, dizendo que ele deveria depositar ali seus objetos de metal.

- Mas eu não tenho objetos de metal – disse meu compadre.
- Não usa chaveiro?
- Sim, mas ele é de plástico.
- Mas as chaves são metálicas – disse o segurança já impaciente.

Na dúvida, e querendo encurtar conversa, Juventino pôs na bandeja o chaveiro com duas chaves de antimônio. Em seguida, adentrou a arapuca, o alarme apitou e ele ficou preso novamente. Juventino recuou mais uma vez e o guarda perguntou se ele não estaria portando um telefone celular.

- Eu não tenho celular – foi a resposta.

Lá de dentro da agência bancária surgiu um segundo segurança.

- O senhor tem moedas no bolso? – perguntou.

Juventino revirou as algibeiras e encontrou duas moedas de dez centavos. Depositou-as na referida bandeja e pela terceira vez tentou entrar. De novo o alarme apitou e a porta travou feito armadilha. Enquanto isso, já se formava uma fila de pessoas ansiosas por entrar no banco.

- Vai ver que é a fivela do cinto – sugeriu uma velhinha de cara redonda.

Juventino tirou o cinto, pois o primeiro guarda não titubeou em concordar com a simpática velhinha. E lá foi ele novamente, segurando as calças com a mão. A boa vontade dos guardas de nada lhe valeu, pois o alarme disparou novamente.

- Pode ser que seu paletó tenha alguma coisa metálica nas ombreiras – disse uma balzaquiana com cara de costureira.
Meu compadre tirou o paletó de linho bem a tempo de ouvir um rapaz da fila dizer que os velhos deveriam receber a aposentadoria pelo correio. Enrolou o paletó e o depositou na bandeja, voltando à porta de segurança. Para seu desespero, com o rosto vermelho de vergonha, ouviu o alarme e o clique da porta pela enésima vez. A fila já reunia uma dúzia de pessoas, entre aposentados, executivos e office boys cheios de contas para pagar.

- O senhor usa alguma prótese ou marca-passo? – perguntou um homem negro no final da fila. Estava todo de branco, o que dava a pensar que talvez fosse médico, dentista ou enfermeiro.

Juventino tirou o roach e o depositou na bandeja, agora sob o olhar impaciente de três seguranças. Finalmente ele conseguiu entrar na agência, para alívio seu e dos espectadores. Recuperou seus pertences e permaneceu na fila do caixa durante quase meia hora. Quando chegou sua vez de ser atendido, ouviu um grito de mulher, olhou em volta e viu cinco homens armados e os seguranças deitados no chão.

Tudo se passou muito rápido, sem alarmes, tiros ou reféns. A sorte do meu compadre foi não ter recebido a aposentadoria. Afinal, o banco tem seguro contra roubo, mas ele não.

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À espera do ônibus noturno

 

Uma onda de violência assola o País de Norte a Sul. E não me digam que estou exagerando, pois no Brasil mata-se mais que nos conflitos do Oriente Médio. Estão assaltando até delegacia, isso quando policiais e presidiários não estão envolvidos na prática do crime. E no terror ao qual estamos submetidos, algumas pessoas são levadas a protagonizar histórias no mínimo inusitadas, que viram folclore no imaginário da população das grandes cidades.

É o caso daquela moça que esperava ônibus na Afonso Pena, perto da Praça Sete, altas horas da noite, e que ficou assustada ao ver um elemento suspeito atravessar a avenida vindo em sua direção.
O sujeito estava descalço e maltrapilho, com o paletó rasgado e o cabelo despenteado. Ela sentiu o coração acelerar e percebeu os efeitos da adrenalina no sangue. Engoliu seco e olhou em volta a tempo de ver um homem boa pinta e bem vestido, que estava de pé sob a marquise logo adiante, provavelmente também à espera do "busum".

A moça não teve dúvida. Quanto mais o sujeito maltrapilho se aproximava, mais ela foi se chegando para o lado do outro, Cinderela assustada na esperança de ser protegida. Ao se aproximar, foi logo agarrando o braço do boa pinta, dizendo-se apavorada e pedindo que ele fingisse ser seu namorado. O galã de subúrbio nem vacilou. Havia bebido umas boas doses e não conseguira arrastar ninguém do pagode de onde vinha. Abraçou a moça e foi logo beijando-lhe a boca, o que naturalmente fez com que ela se retraísse. O bafo de uísque barato embrulhou seu estômago.

"Que é isso, neném? Vem quente que eu tô fervendo", disse o oportunista com a indefesa donzela nos braços e as mãos apalpando a maciez de suas nádegas.

A moça ficou desesperada e começou a se debater, gritando por socorro. O tal sujeito maltrapilho chegou ao passeio e agarrou o agressor, puxando-o pelo colarinho branco e aplicando-lhe um sopapo de direita bem no meio da fuça. O boa pinta caiu no passeio com o nariz sangrando e, antes que o outro continuasse o que havia começado, ficou de pé e saiu cambaleando em direção à praça.

"Você está bem?", disse o maltrapilho, amparando a moça que o observava de olhos arregalados.

" Estou...", ela balbuciou sem entender direito o que se passava.

" A violência tá fugindo ao controle", disse ele. "Imagine que eu acabo de ser assaltado por dois pivetões, ali perto da Igreja São José..."

Conversa vai, conversa vem, o ônibus noturno apontou na esquina e os dois fizeram sinal. Moravam no mesmo bairro e nem se conheciam. Tornaram-se amigos e depois namorados. E a última notícia que eu tive deles é que já estão de casamento marcado.


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O espírito de porco do Natal

 

Na véspera do Natal passado, minha amiga Dirlene atendeu a porta ali por volta das três da tarde, sendo surpreendida pela presença de uma menina dos seus sete anos. Maltrapilha e de olhos fundos, o anjo de cara suja perguntou se ela poderia lhe dar alguma coisa ou algum dinheiro. É que sua família era muito pobre e com certeza Papai Noel não lhe daria nenhum presente naquela noite. A boa Dirlene sentiu vibrar no peito o espírito de Natal e lembrou-se de que havia comprado uma boneca para dar à netinha. Esta, por sua vez, havia telefonado mais cedo para dizer que o pai lhe antecipara o presente, que era justamente uma boneca igualzinha àquela que ela havia lhe pedido.

Dirlene não teve dúvidas. Pediu um tempinho à pequena visitante e foi buscar o presente. O anjo de cara suja mal acreditou quando viu a caixa embrulhada em papel prateado, com um laço de fita vermelha. "É pra mim?", exclamou com os olhinhos quase saltando das órbitas. "Foi Papai Noel que mandou", disse a dona da casa. A menina desfez o embrulho e suspirou: "Mas é nova..."

Provavelmente era a primeira vez que alguém lhe dava um brinquedo que não era de segunda mão. Ela agradeceu com um sorriso mudo e desceu a rua como se caminhasse nas nuvens.

Mais leve ainda sentiu-se minha amiga, na certeza de ter praticado uma boa ação. Na manhã seguinte, ela ainda estava na cama quando a campainha tocou. "Quem será?", perguntou ainda sonolenta, e grande foi sua surpresa ao atender a porta. Lá estavam três anjos de cara suja. A menina voltara com a boneca nos braços e na companhia de dois irmãos menores. "Eles também querem ganhar um presente", explicou num tom inocente. Dirlene disse que não tinha mais presentes, mas serviu-lhes algumas guloseimas que sobraram da ceia de Natal. E assim pôde sorrir novamente ao ver os três descendo a rua leves feito plumas.

Na tarde do mesmo dia, alguém tocou a campainha. Era uma mulher grávida e mal vestida, segurando pela mão um dos três meninos. Dirlene ficou surpresa quando a visitante pediu-lhe dinheiro para aviar uma receita médica para o marido que, segundo ela, estava sofrendo de dengue. Ainda embuída do espírito de Natal, Dirlene pegou cinco reais na gaveta do armário da cozinha. "É tudo o que eu tenho no momento", explicou. A mulher pegou a nota num gesto desanimado e, na companhia do filho, desceu a rua sem nem mesmo agradecer.

Três dias depois, Dirlene atendeu a porta novamente. Dessa vez era um homem magro e de barba rala, cheirando a bebida. Explicou que era pai da menina que ganhara a boneca e que sua mulher estava doente, com riscos de perder o filho. Para complicar a situação, o aluguel do barraco estava atrasado. Perguntou se ela não teria algum dinheiro que pudesse lhe arranjar "por caridade".

Minha amiga saiu do sério. Disse que já havia dado dinheiro à tal mulher e que sua casa não era instituição filantrópica, "tá pensando o quê?" O homem fez cara feia, resmungou alguns impropérios e desceu a rua pisando duro. Ela então bateu a porta e quase sorriu de alívio, pois finalmente havia se livrado do terrível espírito de Natal.

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Um dia de cão

Tenho um amigo hipocondríaco, chamado Marcelo, que tem verdadeiro pavor só de pensar em ficar gripado. Nesses tempos de epidemias medievais, não é difícil imaginar o seu pânico, principalmente quando tem algum mosquito zumbindo por perto.

Para complicar seu estado psicológico, dia desses ele andou lendo uma reportagem sobre leishmaniose visceral, essa doença cujo protozoário se hospeda no cachorro sem pagar diária. Marcelo, que já não gostava muito da espécie canina, passou a evitar até mesmo cachorrinhos de pelúcia.

Acontece que existem aqueles que, quanto mais rezam, mais atraem assombração. Na semana passada, ele vinha caminhando descontraidamente por uma rua da Savassi quando sentiu uma substância escorregadia sob a sola do sapato. Havia pisado num montinho de cocô e começou a esbravejar contra todos os cães do mundo. Aliás, ele já dizia que um animal considerado o melhor amigo do homem não podia mesmo ser grande coisa, principalmente levando-se em conta que a espécie humana raramente é amiga dos animais. O homem nada mais faz do que explorá-los o máximo possível.

Marcelo só conseguiu se livrar da titica depois de esfregar várias vezes a sola do sapato no meio fio e num matinho que crescia numa falha do asfalto. Sapato limpo, mas ainda ruminando impropérios contra os cães e seus respectivos donos, ele seguiu seu caminho contando os montinhos de cocô que ia encontrando pela frente. Havia titica de todos os tipos: mole, dura, marrom, amarela, pisada, redonda, curta, comprida... Dava até para montar um museu de fezes nos moldes daquele que existe em Amsterdã.

"A prefeitura devia tomar providências", resmungou, ao constatar uma dúzia de cacas em apenas três quarteirões da Savassi. Lembrou-se que certa vez ligara para a Secretaria de Saúde, pedindo providências quanto aos cachorros vadios que transitavam pelas ruas do seu bairro, na região Noroeste da capital. Fora informado que o serviço de zoonoses dispunha apenas de uma viatura, e que esta estava na oficina.

Distraído em suas divagações sobre a displicência dos políticos, principalmente no que diz respeito à saúde pública, Marcelo não percebeu que uma velhinha acabara de atravessar a rua, puxando numa corrente um minúsculo pincher de pêlo marrom. Como diz o ditado, quando o urubu é azarado, o debaixo suja no de cima. Pois com tanta gente trançando pelo passeio, provavelmente atraído pelo cheiro de cocô pisado, o pequeno monstrinho livrou-se da coleira e cismou de morder justamente o sapato do meu amigo.

Este foi pego de surpresa e recordou seus tempos de artilheiro do futebol de várzea. Num gesto instintivo, deu um pontapé no pequeno animal, que soltou um ganido e voou sobre o asfalto feito um pombo sem asas, indo aterrissar num jardim do outro lado da rua.

A dona do cachorro ficou histérica. Começou a gritar e atravessou a rua aos prantos, sendo quase atropelada por um carro, cujo motorista brecou bem a tempo de evitar o pior. As pessoas que passavam pelo quarteirão naquele exato momento ficaram atônitas, sem acreditar no que estava acontecendo. Meu amigo não perdeu tempo. Antes que a multidão o linchasse, dobrou a esquina e saiu correndo quarteirão abaixo, degustando o amargo sabor da vingança.

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Encontro marcado no além

Fernando Sabino era um mineiro de alma carioca. Não que uma coisa seja melhor que a outra, pelo contrário: ambas têm suas vantagens e desvantagens. Tanto isso é verdade que uma vez, conversando com o saudoso JK, no Rio, ele disse ao futuro presidente que o achava talhado para governar a Guanabara.

Seja lá como for, o escritor foi morar em Ipanema feito uma tartaruga que caminha instintivamente para o mar. Isso porque era de uma geração de intelectuais de Minas cuja única chance de falar para o Brasil incluía a mudança para o litoral. E assim, ele teve um encontro marcado com outros ilustres filhos da montanha, entre os quais Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Afonso Romano de Sant’Anna, Fernando Gabeira, Ivo Pitangui, Ziraldo e outros.

Conheci Fernando Sabino no início dos anos 80, quando ele veio a Belo Horizonte para lançar a coletânea de crônicas Tabuleiro de Damas, a convite da Caixa Econômica Federal. O intermediário dessa iniciativa era Antenor Pimenta, um dos romancistas mais brilhantes de minha geração. Fui com ele até o aeroporto de Confins, num carro da Caixa, para buscarmos o nosso ídolo. Vim com o visitante no banco de trás do veículo, com o gravador ligado, como faria depois também com a cantora Nara Leão, em sua última vinda a BH, pouco antes de morrer. Essa é uma das boas coisas da profissão de jornalista: desfrutar alguns minutos ao lado de seres humanos admiráveis, que estão à frente do nosso tempo.

Fernando Sabino falou pelos cotovelos. Mais tarde, durante uma entrevista coletiva, confessou estar surpreso em notar que pouca coisa havia mudado em sua terra natal. A não ser pelos novos edifícios que começavam a ocupar o lugar das casas antigas e bucólicas, aos seus olhos tudo parecia como dantes no quartel de Abrantes. As pessoas eram as mesmas nos cargos de mando, inclusive na imprensa daqueles dias. Percebi nesse seu comentário uma pitada de ironia muito mais carioca que mineira, diga-se de passagem. E foi assim que notei no meu ilustre conterrâneo um jeito de ser diferente dos demais montanheses que aqui permaneceram.

Foi naquele rápido encontro que ele nos confirmou uma conversa que havia tido com Murilo Rubião, o mineiro que inventou o realismo fantástico, gênero que se tornaria uma das principais marcas da literatura latino-americana. Isso em 1947,quando publicou O Ex-Mágico da Taverna Minhota, muito antes de ouvirmos falar no mexicano Juan Rulfo, no colombiano Gabriel García Márquez ou nos argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortazar. Mineiro tem essa mania de descobrir a pólvora antes dos outros e permanecer quieto no seu canto, feito criança que fez estrepolia. Na tal conversa, Fernando perguntou a Murilo se ele acreditava em Deus. A resposta foi ainda mais mineira: "Não, mas tenho muita fé em Nossa Senhora".

Lembro que, além dos exemplares da coletânea de crônicas publicada pela Record, Fernando Sabino trouxe consigo um pequeno "tabuleiro" de damas feito de plástico, com as peças imantadas e a capa igual à do livro. Era um jogo apropriado para viajantes. E tome mais um pouco de ironia carioca: o autor de O Grande Mentecapto me deu um exemplar do jogo e foi logo avisando que era uma "versão" do livro indicada para quem não gosta de ler. A pedido de Roberto Drummond, que era subeditor de cultura do Estado de Minas (o editor era Geraldo Magalhães), escrevi uma página para a antiga 2ª Seção. A foto foi do Fernando Rabelo.

Isso me faz lembrar que vários de meus entrevistados já partiram deste mundo. Não que eu seja tão velho ou um pé-frio propriamente dito. Acontece que o danado do tempo insiste em percorrer os trilhos feito uma locomotiva movida a energia atômica. Lá se foram João Etienne Filho, Otávio Cardoso, Paula Lima, Carlos Leite, Tom Jobim, Astor Piazzolla, João Nogueira, Nelson Cavaquinho, João Felício dos Santos, Arthur Bosmann, Nara Leão, Murilo Rubião, Luiz Eça, Ronaldo Bôscoli, Plínio Marcos, Paulo Gracindo, Dias Gomes, Jorge Amado, Oswaldo França Júnior, Roberto Drummond, Álvaro Apocalypse, Adão Ventura e muitos outros, com os quais espero ter um encontro marcado em algum lugar do além.

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Todo mundo é filho da mãe

Mãe é um negócio tão besta que todo mundo tem uma. Da baleia ao jaburu, passando pela cobra e o morcego, até chegar ao homo sapiens, mãe é mãe e estamos conversados. Nós, os mamíferos, começamos a vida mergulhados em suas águas, no útero que imita o universo na forma e no som. Afinal, o tuntuntun do coração materno é o primeiro ruído que a gente escuta e nada mais é do que um eco distante do big bang. E o curioso é que mãe é um troço tão bem bolado que ninguém jamais morreu afogado no líquido amniótico. Adão com certeza foi um cara feliz por não ter tido sogra, mas já imaginaram a frustração que ele sentiu ao ver os filhos sendo amamentados por Eva?

Mãe é uma coisa tão necessária que nem mesmo a fé cristã, com aquela história machista de Pai do Céu, conseguiu expurgar do inconsciente coletivo a sombra da Grande Mãe. Maria, feminino de mar – talvez numa alusão ao fato da vida ter surgido no oceano –, foi escolhida para ser a mãe de Jesus. O que ela não sabia é que mais tarde seria promovida a Mãe de Deus. Por essas e outras, uma vez Fernando Sabino perguntou a Murilo Rubião se ele acreditava em Deus. "Não", foi a resposta. "Mas tenho muita fé em Nossa Senhora." E tem até uma piada, segundo a qual o filho dela defendia uma pecadora contra a multidão: "Quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra". E eis que um cascalho cruzou o espaço e rachou a testa da coitada. Jesus, enfurecido, bradou: "Fique fora disso, mamãe..."

Na hora do suplício, o Filho de Deus olhou para cima e perguntou ao Pai por que Ele o havia abandonado. Diante do silêncio, olhou para baixo e consolou-se ao ver Maria aos pés da cruz, com os olhos vermelhos de dor. A Bíblia não conta, mas com certeza lá também estavam as mães dos dois ladrões que foram crucificados ao lado de Jesus. No entanto, dor maior foi a da mãe de Judas. Afinal, o filho pode ser um canalha, que aos olhos da mamãe continuará sendo sempre "o meu guri". Fico pensando na reação da mãe de Freud, quando ele se atreveu a falar do complexo de Édipo: "Deixa de besteira, menino, e vem jantar antes que a comida esfrie". Enquanto isso, a super-mãe do velho Jack explicava as coisas pacientemente: "Vamos por partes, meu filho, vamos por partes".

Em outras palavras, mãe não é gente, é instituição. E é um negócio tão sério que para ofender um homem basta xingar sua genitora. Juízes de futebol que o digam. Aliás, todo esse blá-blá-blá é só para confessar que eu sinto uma falta danada da minha mãe. Não pela data propriamente dita, pois a única vantagem de não ter mãe é ser poupado do almoço do Dia das Mães. Mas ai daquele que só lembra dela nesse dia! O filho da mãe mata a velha de preocupação o ano inteiro, e no segundo domingo de maio aparece com a maior cara-de-pau, saboreia a melhor macarronada do mundo e nem se oferece para lavar os pratos.

Pra dizer a verdade, eu sinto saudade até das palmadas que levei quando era criança. A mão da minha mãe parecia ser tão grande e pesada! De repente, virei marmanjo e aquela mão ficou miúda e leve feito pluma dentro das minhas mãos. E hoje, que a minha mãe vive de prosa com a Mãe do Céu, percebo finalmente que grande e pesada é a mão do mundo. Afinal, quando querem, as mães também podem ser terríveis, mas o mundo - geralmente - consegue ser bem pior.

Essa crônica dá nome à coletânea do autor publicada pela Editora Ciência Moderna, em 2003, e à venda nas livrarias.

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