Pena de Aluguel

No site www.penadealuguel.com.br e no livro Pena de aluguel, publicado em 2005
pela Companhia das Letras, a jornalista carioca Cristiane Costa, doutora em cultura e comunicação pela UFRJ, faz uma radiografia da vida literária e jornalística no Brasil entre 1904 e 2004. Ecoando uma pergunta feita no século XIX por João do Rio (se o jornalismo é um fato positivo para a arte literária), ela expõe os fatores econômicos que fazem com que o sonho de viver de escrever ainda pareça tão ilusório no século XXI. Para realizar o trabalho, a autora entrevistou vários jornalistas que também são escritores, entre eles Jorge Fernando dos Santos.

1. Em 1904, João do Rio publicou
O momento literário, uma enquete em que perguntava aos intelectuais brasileiros,
entre outras coisas, se a atividade jornalística era prejudicial ou não a um aspirante a escritor. Qual seria sua resposta à pergunta de João do Rio?

Depende do caso. No meu caso, em particular, acho até que a atividade jornalística foi importante para a minha literatura. O jornalismo me deu uma disciplina que eu dificilmente teria em outra profissão. Aprendi que escrever depende muito mais da necessidade do que da inspiração.

2. Na sua opinião, o jornalista é um escritor? O jornalismo é uma vocação ou um ofício? E a literatura?

Acho que todo jornalista é um escritor. Não propriamente de ficção, mas com certeza é um profissional das palavras. Portanto, é um escritor. Pena que nem todos tenham essa consciência. Como toda atividade profissional, o jornalismo exige talento, vocação, disciplina e sorte. Por conseqüência, é também um ofício como o de escritor. Ambas as atividades são vocação e ofício. Quanto mais a gente faz, mais aprendemos a fazer.

3. Pretendia ser escritor quando ingressou no jornalismo?

Desde sempre eu pretendia ser escritor. Ainda criança, eu contava casos, escrevia e ilustrava histórias. Brincava de faroeste narrando histórias inventadas por mim mesmo. Até os mocinhos e bandidos eram criação minha. Me tornei jornalista devido à facilidade de escrever. Inicialmente, eu queria ter sido arquiteto ou engenheiro agrônomo. Aí, um amigo meu jornalista me disse que seria perda de tempo. Eu era talhado para o jornalismo. Segui seu conselho e me formei em 1982 pela FAFI-BH. Mas antes disso eu já colaborava em vários jornais de Belo Horizonte.

4. Como concilia as duas atividades? Tem ainda outra?

Concilio as duas atividades com muita determinação e até uma certa dose de sacrifício. Trabalho o dia todo na redação do Estado de Minas e à noite escrevo meus livros. Fico até as duas da manhã lendo ou escrevendo. Sou também dramaturgo e compositor e por isso tudo procuro administrar meu tempo com muita disciplina.

5. Em quais editorias trabalhou? Por que o interesse pela editoria de Cultura?

Fui assessor de imprensa durante uns seis anos. Colaborei em várias editorias de vários jornais. Fui repórter e editor de Cultura, crítico de teatro, cinema, literatura e música popular brasileira. Hoje sou editor de suplementos e revistas, sendo responsável por um tablóide infantil, um para universitários e um de pequenos negócios, além de um caderno de comportamento dominical, matérias de classificados de imóveis, uma revista bimestral de economia, uma de turismo anual e outras publicações eventuais.

6. Convive ou já conviveu com outros escritores jornalistas? Relate discussões, casos interessantes, momentos marcantes.

Convivi e convivo com muitos escritores jornalistas. Quando comecei a colaborar no caderno de cultura do Estado de Minas, um dos meus editores era o Roberto Drummond. Hoje sou colega do Carlos Herculano Lopes e de outros jornalistas/escritores. Também os autores que mais admiro tiveram ligações com o jornalismo, entre eles Ernest Hemingway, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Gabriel García Márquez, João Ubaldo Ribeiro. Não me lembro de histórias interessantes, mas certamente todos esses autores me ensinaram e ainda me ensinam muito sobre o meu ofício.

7. Há prós e contras o jornalismo. Qual a sua opinião?

Acho que conciliar jornalismo e literatura enriquecem as duas atividades. Há mais prós do que contras, pelo menos no meu caso.

8. Linguagem: ele oferece um aperfeiçoamento formal ou bloqueia?
O jornalismo me ajudou muito a desenvolver a linguagem literária, buscando objetividade e coloquialismo.

9. Profissionalização: ele permite a sobrevivência financeira do escritor ou o afasta do seu caminho?

Acho que o jornalismo é o caminho natural para quem quer sobreviver daquilo que escreve. Ainda mais num país em que a atividade literária sempre foi tão frágil e insipiente. Com exceção de Jorge Amado, todo mundo que sobrevive só de livros no Brasil escreve algo diferente da literatura pura e simples. É o caso do Paulo Coelho, por exemplo, cujas histórias têm sempre um objetivo místico, religioso, sei lá...

10. Visibilidade, ingresso no mercado editorial, maior penetração nos círculos intelectuais são fatores que compensam fatores negativos, como a falta de tempo, por exemplo, ou o pouco espaço para a sensibilidade artística numa redação?

Ser jornalista nos aproxima de outros autores e das próprias editoras, mas também atrapalha a divulgação dos nossos livros. Criou-se o chavão de que jornalista não é notícias. Assim, o nosso jornal tem pudores ao nos divulgar e os concorrentes nos dão pouco espaço justamente porque estamos numa trincheira inimiga. Apesar disso, eu escrevo. Não entrei nisso pra virar colunável ou ficar famoso. Escrevo livros para não enlouquecer. Ou porque sou completamente louco.

11. Liberdade de pensamento: essa foi uma das razões que o levaram à literatura?

Sempre defendi e acreditei na liberdade de pensamento. Talvez seja a única forma real de liberdade possível. Podem até censurar um livro ou proibir a publicação de uma reportagem. Mas jamais me impedirão de pensar o que eu quiser.

12. O que faria o livro superior ao jornal?

Acho que o livro (pelo menos o bom livro) é uma coisa perene, que sobrevive ao tempo e ao período de vida do autor. O jornalismo envelhece rapidamente, embora registre a história. Não sei se um é superior ao outro. Existem bons livros e maus livros. Boas reportagens e péssimas reportagens. Acho que as duas atividades devem ser desenvolvidas com dignidade e muito honestamente.

13. Faça sua própria lista de prós e contras.

Prós: disciplina, necessidade de escrever com ou sem inspiração, acesso rápido e privilegiado à informação.
Contras: o despeito e o preconceito dos próprios colegas de profissão. A maioria queria ser escritor, mas se deixou sucumbir na rotina esmagadora da redação. Outro problema é um jornalista divulgar a obra do colega. Hoje, a maioria dos jornalista sequer lê livros. Que dirá livros de coleguinhas: "Vê lá se vou perder tempo...Quem esse cara pensa que é?".

14. De alguma forma (temática, estrutura ou linguagem etc.) o jornalismo influenciou sua ficção?

Acho que o jornalismo influenciou meu estilo narrativo. Mas este foi também muito influenciado pelo cinema, pela música, pelas artes plásticas, pelo teatro. Enfim, por outras formas de linguagem. E isso me agrada muito. Acho que tem a ver com o desejo de criar a obra total, pós-moderna e contemporânea ao mesmo tempo. Seria o ideal.